Quem leu “Torto arado”? 

Observatório Psicanalítico – OP 238/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

 

Vanessa Figueiredo Corrêa (SPBSP e GEP Rio Preto e Região)

 

Em “Direito à literatura” o crítico literário Antônio Cândido diz que “cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles”. 

 

Então, a que impulsos, crenças e sentimentos se deve o sucesso recente de “Torto arado”? O livro de Itamar Vieira Júnior está na moda: emergente na pandemia, já vendeu cerca de 100 mil exemplares e venceu em 2020 os prêmios Jabuti na categoria “Romance Literário” e o Prêmio Oceanos, sendo comparado por alguns críticos a clássicos como “Vidas secas”, de Graciliano Ramos.

 

Por que o brasileiro da pandemia está interessado em ler, ou pelo menos falar que leu, um romance ambientado em uma comunidade quilombola vivendo em extrema opressão social? Trata-se de mero marketing, de possibilidade de catarse para o leitor branco de classe média que se sente engajado ou exprime anseios e sentimentos coletivos que coincidem com a indignação que corre nas veias do brasileiro contemporâneo?

 

Escrito em uma linguagem fluida, porém com uma estrutura narrativa complexa, o livro é em grande parte protagonizado por crianças e mulheres negras, vivendo em meio rural, e pelos “pais de santo” e “encantados” – entidades evocadas em rituais religiosos de origem africana – personagens que pelo protagonismo já se tornam subversivos, simplesmente por não aceitarem ser coadjuvantes em suas próprias vidas.

 

Inicia-se com a história  das irmãs Bibiana e Belonísia. Movidas pela curiosidade ao encontrar uma faca guardada entre os pertences da avó e fascinadas pelo brilho do metal, levam o instrumento à boca (como faziam os bebês com a espátula de Winnicott), ferindo-se ambas, sendo que uma delas tem a língua amputada nesse experimento. A curiosidade infantil, o gosto do metal, a dor, o sangue, as lágrimas e na sequência a condenação perpétua ao mutismo.

 

O livro segue acompanhando o desenvolvimento das meninas que se tornam mulheres fortes e engajadas na luta contra o opressor, representado pelo homem branco (o patrão) que impõe o regime de escravidão – fome, condições precárias de moradia, analfabetismo, impossibilidade de posse da terra, desrespeito às práticas religiosas tradicionais, naturalização da violência. Assim, o resgate histórico da formação das comunidades quilombolas dá voz ao Brasil real, onde a escravidão também não está totalmente extinta. 

 

No romance porém há a contrapartida: a faca opulenta de cabo de marfim, representante do poder fálico do branco, surge na mão da mulher oprimida costurando a narrativa. Objeto de desejo entre os personagens, que tanto corta para mutilar a menina, quanto é usado como instrumento para a prática da justiça necessária em situações reativas ao abuso.

 

“Torto arado” provocou ampla discussão no meio literário, suscitando elogios e críticas. De fato, uma obra que desperta interesse genuíno em pessoas de diversos níveis socioculturais. Uma das fontes de força e sucesso do livro está na condensação presente na metáfora da língua cortada, que traz além da perda da voz, a impossibilidade de sentir gosto e a dificuldade de deglutição. Imagem com a qual o leitor brasileiro facilmente poderá se identificar – no país em que o povo “engole” o descaso do governo com a vacinação e os mais de 300.000 mortos por Covid.

 

Governo surdo e perverso torna o povo mudo: a lista de aberrações e violações aos direitos humanos só cresce, com o agravante de que a população impedida pela pandemia, não pode ir em massa às ruas gritar e exigir. De forma que as manifestações – panelaços, posts em redes sociais e discussões virtuais – surgem muitas vezes como os grunhidos da personagem do livro. No entanto, quem leu “Torto arado” tem a possibilidade de se inspirar no modelo da mulher que, mesmo sem ter voz, se faz ouvir em atos, das maneiras mais improváveis e criativas, quando a vida assim exige. 

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

 

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