Adeus, Contardo Calligaris

Observatório Psicanalítico – OP 237/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

 

Adeus, Contardo Calligaris

Oswaldo Ferreira Leite Netto (SBPSP)

 

Contardo Calligaris morreu. Em meio à pandemia que assola nosso planeta, em meio à tragédia sanitária e política que devasta nosso país, essa perda! 

 

Perdemos um intelectual produtivo, inquieto, criativo. Um apaixonado por nosso país: foi essa nossa originalidade, composta por vários aspectos, intrigante, que o fixou entre nós e que nele incitava tantas reflexões. Um apaixonado pela vida, pelas pessoas, por sua mulher, Maria Homem.

 

Contardo escrevia na Folha de São Paulo às quintas-feiras. A cada semana, nesse dia, sua coluna era a primeira coisa que eu lia ao receber e abrir o jornal. Na última quinta-feira, apenas uma homenagem: seu retrato, feito pelo ilustrador de sua coluna, e o espaço em branco onde o leríamos uma vez mais.

 

Perdemos um psicanalista, homem de grande experiência e conhecimento, que sabia da potência libertadora da psicanálise, que sabia da revolução deflagrada por Freud, que se apropriou de seus pressupostos. Em sua formação, teve contato próximo com Lacan e outros intelectuais franceses, como Derrida e Foucault. Conhecia e lia criticamente diversos autores de diferentes linhas psicanalíticas e psicoterápicas. 

Conheci Contardo pessoalmente há cerca de 15 anos. Fazia mais de dez anos que encerrara minha análise com um didata de minha Sociedade, com quem trabalhei por vários anos, quatro vezes por semana. Lia a coluna de Contardo e sentia necessidade de ser ouvido e trocar idéias sobre questões ligadas a inquietações que experimentava com a psicanálise e seu alcance. 

 

Incomodava-me, já como membro da IPA (International Psychoanalitical Association), defrontar-me com o elitismo da prática, com as restrições para a formação. Escrevi a ele. Respondeu prontamente e começamos um trabalho! Sentia-me curioso acerca do lacanismo, temia o tempo lógico… Contardo foi amabílissimo, com aquele sorriso largo e franco, que para mim ficou uma marca.  Propôs que nos encontrássemos semanalmente. E nunca as sessões duraram menos de quarenta minutos!

 

Conversamos sobre tudo, ele apontou-me aspectos importantíssimos, abriu horizontes, valorizou críticas que eu continha e guardava, mostrou-me certa tendência de eu, às vezes, acreditar haver uma “verdadeira psicanálise”. No início, cheguei a me sentir como um católico praticante que estivesse a frequentar um terreiro de umbanda às escondidas… Mas não encontrei uma “testemunha de Lacan”! Problematizavam-se “dogmas” sobre freqüência, setting e modos de formatação da clínica sem nunca, nem por um segundo, deixar de ser psicanálise.

 

Após cerca de sete meses, precisei interromper por causa de um diagnóstico médico que precisou de cirurgia. A atenção de Contardo, aconselhando-me e interessado por mim, foi fator importante para eu mobilizar coragem e enfrentar a proposta médica. Continuei seu leitor e nos tornamos amigos. Passei a convidá-lo para reuniões clínicas no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP. Ele, por sua vez, encaminhou-me alguns casos e mais de uma vez pediu minha opinião quanto à necessidade de retaguarda psiquiátrica para pacientes seus. Sua animação e seu entusiasmo por contribuir com sua experiência e seu conhecimento nos contagiavam, a mim e aos residentes de Psiquiatria. Generoso, crítico e bem humorado, Contardo fazia intervenções que contribuíam para que revíssemos moralismos e aprisionamentos normatizantes. 

 

Com ele, vim a reforçar minha convicção na potência revolucionária da psicanálise, a pensar novamente como esse olhar pode ser emancipador quando utilizado na clínica do sofrimento psíquico. Em seus escritos, Contardo sublinhava a intensidade com que podemos viver a vida, aproveitando e vivenciando cada momento, sem necessidade ou obrigação de buscar a felicidade, e como isso pode nos ser útil na prática clínica, aliviando o peso que nossos pacientes carregam.

 

Em agosto passado, já durante a pandemia, ele esteve conosco em reunião clínica do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Quando lhe telefonei,  com antecedência, disse-me estar internado, mas que teria alta em poucos dias. Marcamos a data. Falou-me de uma trombose. Achei grave, mas não podia imaginar que já fosse o câncer que viria a levá-lo embora. Compreendi depois.

 

Seu livro mais famoso, “Cartas a um jovem terapeuta”, é extremamente didático, útil e profundo, mesmo para analistas experientes. Mostra o quanto a verdadeira clínica contemporânea exige adaptações, flexibilizações. Contardo era livre! E em sua liberdade percebíamos consistência, coerência com os pressupostos mais importantes da psicanálise e víamos, também, como se mantinha em constante e atualizada conversa com outros teóricos, pensadores, pesquisadores e clínicos. 

 

Contardo entendia de gente, de sexualidade, ia direto ao ponto, sem aprisionamentos empobrecedores. São muitas as homenagens publicadas e muitos os depoimentos sobre experiências com ele nas redes sociais. É alguém que não esteve aqui à toa.  Eu perdi um amigo. A psicanálise, com seu desaparecimento, perdeu muito, em contribuições e em inspirações.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

 

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Os ensaios do OP são postados no site da Febrapsi. Clique no link abaixo:

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