Observatório Psicanalítico OP 695/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Ainda Lezama 

José Antônio S. de Castro –  Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) 

Na Praça da Bandeira, em Assis, há bancos que de manhã recebem aposentados e à tarde recebem casais de adolescentes, sem precisarem ser reapresentados a ninguém. Sustentam mais do que o peso dos corpos que neles se sentam. Sustentam confissões que não chegariam ao consultório, conversas que precisam do barulho de um carro distante ou do sino da Catedral para ousarem o que ousam, silêncios que se permitem mais longos porque há pombos atravessando o campo de visão. Quem trabalha com a escuta há tempo sabe disso, embora raramente o escreva.

Eliane de Andrade (SPRJ) escreveu há pouco neste Observatório sobre Parque Lezama, em Buenos Aires, como cena de transmissão geracional, encontro com mortos, território onde a psicanálise palavra-encarnada habita a paisagem. Quero pegar esse fio e puxá-lo um pouco para o lado. Não o parque, mas o banco. Esse mobiliário urbano específico, baixo, sem encosto pretensioso, geralmente verde-musgo ou cinza, que organiza dois corpos em paralelo e não face a face. O banco produz uma geometria de fala que o divã não produz e que o consultório, com suas duas poltronas frente a frente, também não produz.

Sento ao lado de alguém. Olhamos para a mesma direção, ou quase. Há um terceiro implícito — o passante, a pomba, a árvore que se mexe — que recolhe nossa fala antes que ela chegue ao outro. Esse desvio leve, esse triângulo aberto, libera o que num face a face ficaria travado. O paciente que durante meses não consegue dizer no consultório o que se passou com a mãe, e que diz isso à filha num banco de praça em vinte minutos, não está sendo mais sincero fora dali. Está usando outro dispositivo. A psicanálise institucional tem dificuldade de reconhecer isso porque suas categorias se construíram para legitimar um setting específico, e legitimar um é quase sempre, sem querer, deslegitimar os outros.

Winnicott escreveu sobre o espaço transicional como invenção da criança que segura o urso enquanto a mãe se ausenta. O espaço transicional adulto também existe e é menos descrito. O banco de praça é uma das suas formas mais antigas: nem inteiramente público, nem inteiramente íntimo, nem casa, nem rua, nem consultório, nem confessionário. É a borda. E é na borda que certas elaborações acontecem. Sennett, no livro O declínio do homem público, observou que a cidade moderna foi expulsando os lugares onde estranhos podiam se demorar próximos sem trocar palavra. O banco resistia. Hoje resiste menos.

São Paulo, nas últimas três décadas, removeu bancos. Higienópolis, Pinheiros, partes da Paulista. Substituiu-os por estruturas anti-permanência: assentos individuais com divisórias, superfícies inclinadas, pedras pontiagudas onde antes havia mureta. Há uma palavra técnica para isso, arquitetura hostil, mas o nome desloca o problema para a tecnocracia urbana e perde o essencial. O essencial é que uma cidade que extingue seus bancos extingue um dos lugares onde a fala íntima podia acontecer fora do circuito clínico ou doméstico. Não estou propondo que se substitua o divã pelo banco. Estou observando que uma sociedade que precisa cada vez mais de divãs talvez esteja, entre outras coisas, sofrendo a perda dos seus bancos.

A diferença psíquica entre o banco e o consultório não está só na geometria. Está no tempo. No banco, ninguém marca cinquenta minutos. A sessão termina quando começa a chover, quando o ônibus passa, quando o neto chega correndo. Na Praça da Bandeira termina quando a missa das dezoito horas começa a esvaziar a Catedral e os fiéis atravessam o jardim em direção aos carros. Esse limite imprevisível produz uma intensidade própria: o que se diz se diz porque pode ser interrompido a qualquer instante. A consciência do tempo finito age sem precisar ser anunciada. No consultório, o tempo finito é convenção contratual; no banco, é meteorologia, sino, fluxo de gente. Não é menos sério por isso. Talvez seja, em certos casos, mais.

Em A descoberta do mundo, Clarice Lispector escreveu crônicas curtas em que alguém se senta em algum lugar de Copacabana e algo se rompe. Não acontecimentos grandes: uma criança que olha, uma mendiga que pede, um pensamento que escapa. Há toda uma fenomenologia clariciana do demorar-se sentado em espaço público que a psicanálise brasileira pouco utilizou. Talvez porque demorar-se sentado em espaço público seja, hoje, uma experiência cada vez mais escassa entre os próprios psicanalistas, que vão do estacionamento ao consultório e do consultório ao estacionamento, sem atravessar a praça.

Em Assis viveu, até 2003, um homem chamado Sebastião Theodoro Paulino da Silva, conhecido como Ranchinho, apelido nascido da zombaria infantil sobre os ranchos abandonados onde dormia, e que ele acabou assinando como pintor, com um H maiúsculo no meio. Analfabeto, sobrevivia catando papel. Durante décadas sentou-se nos bancos da cidade antes que se descobrisse, tardiamente, que aquele homem que ninguém olhava produziu mais de três mil obras, hoje no MASP e em coleções particulares. Penso nele ao escrever sobre bancos. A cidade conviveu por anos com a presença sentada de alguém cuja vida interior excedia infinitamente a estimativa que dele faziam os que passavam. O banco abriga sempre essa possibilidade. Essa indeterminação, que o setting psicanalítico pode imprudentemente tentar domesticar, no banco fica solta.

Volto a Lezama, ao Trianon, ao Aclimação, à Praça da Bandeira em Assis. Os bancos que sobraram não são memoriais. Estão em uso. Pessoas conversam neles, sozinhas ou em pares, todos os dias, sobre coisas que importam. Algumas dessas conversas são, no sentido forte da palavra, analíticas: não porque obedeçam a uma técnica, mas porque produzem deslocamento, abrem o que estava fechado, fazem alguém sair do banco diferente de como sentou. A psicanálise como instituição não tem nada a ensinar a essas conversas. Tem, talvez, algo a aprender com elas: que o setting é uma das condições possíveis da escuta, não a única, e que respeitar essa pluralidade pode ser uma forma de não confundir o nosso dispositivo com a coisa mesma.

Eliane de Andrade terminou seu texto no parque. Termino este num banco. Não no banco de uma praça específica, porque o que me interessa é o banco no singular genérico, esse objeto modesto de madeira ou concreto que continua sendo, em algumas cidades, uma das últimas máquinas urbanas de fala possível. Quando a última delas for substituída por uma escultura sem assento, teremos perdido alguma coisa para a qual nem temos palavra. A psicanálise, que vive de palavras, poderia começar pela tarefa de nomear essa perda antes que ela termine de acontecer.

Palavras-chave: banco de praça, setting analítico, espaço transicional, escuta

Imagem: foto da internet de um banco de praça, sem referência 

Categoria: Cultura; Política e Sociedade 

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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Tags: banco de praça | Escuta | espaço transicional | setting analítico
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