Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Contraedições
Hemerson Ari Mendes, Sociedade Psicanalítica de Pelotas (SPPel)
Os adágios populares do meu caipirês paranaense fazem parte da minha língua-mãe. Entre ingênuos e desbocados; preconceituosos e moralistas; sagazes e espirituosos; condensavam traços de várias etnias e estavam sempre na ponta da língua da minha mãe. Quando migrei para o sul do Sul, os gauchescos incorporaram-se ao repertório. Tenho a impressão de que passei a repeti-los com mais frequência, como uma espécie de manutenção das origens. Hoje, eles surgem sem que eu consiga distinguir se são primários ou tardiamente incorporados.
Não raro, aparecem no cotidiano da clínica. Aos poucos, quase como exercício, nas últimas semanas — com uma demão de psicanálise, talvez como compensação ao empobrecimento da mãe-língua — ocupei-me de algumas formulações, às quais denominei Contraedições: expressões sintéticas que abordam manifestações com características do inconsciente — amorais, paradoxais, contraditórias, condensadas, polissêmicas e atemporais — que, como os sonhos, emergem como soluç(ã)o de uma confusão organizada. Referem-se a temas variados da cultura, da política — inclusive das instituições psicanalíticas —, da ética e de questões existenciais.
De maneira geral, são auto(in)explicativas.
1
“Levar-se a sério é a melhor das autoironias — ou a mais trágica das crenças.”
2
“Por que gritas se imaginas ter razão?!”
3
“Na ausência de argumento, ecoa a suposta autoridade.”
4
“Experiência: quando partilhada, substantivo; adjetivo, quando desautoriza; oportunista, quando oscila.”
5
“Todos somos ignorantes — ninguém mais do que quem trata o outro como tal, sem se imaginar percebido.”
6
“Infantilizar: dificultar, oferecer solução, cobrar gratidão, culpabilizar.”
7
“Desumanidade: a profunda humanidade desmentida no humano.”
8
“É da certeza — não da dúvida — que a loucura se nutre.”
9
“A certeza é o soluço da superficialidade.”
10
“A certeza é a alergia da complexidade.”
11
“Prolixo! Pro lixo. E se a criança for junto?”
12
“Contraditório? Sim — também contra ditórios.”
13
“Criador — cria da criatura criadora.”
14
“O dedo do meio mira o orifício mais sensível da mente.”
15
“É pistola!
Sim, mas deveria ser epístola.”
16
“Apóstolo, aposta, tá?
Não, apóstata.”
17
Em
Tarde
Ser
À
noi…tecer!
Ama…nha
Com
Sol
Lidar
18
Com e Ser
Conhecer
Conhecido
Conhecedor
Reconhecedor
Reconhecido
19
“… existir, resistir, re-existir …”
20
“Fin…i…tude. Às vezes pensar; sempre penser.”
21
“No temor da morte morrida, gaspeia a morte em vida.”
Faz algum sentido? Percebo que pergunto como quem busca recuperar a conexão com a espirituosa língua da mãe, que a abandonou, mas ainda sobrevive tropeçando, torcendo sentidos, produzindo pensamentos, desconforto e humor em quem a conheceu. Como as contra(e)dições da cultura, da política, das instituições e da existência. Uma língua que não conhecia a psicanálise, mas sustentava, à sua maneira, os inquietantes impasses humanos.
Palavras-chave: Inconsciente, aforismos, paradoxos, humor, contradições
Imagem: Fita de Moebius II
M. C. Escher, 1963
Xilogravura em vermelho, preto e verde
Categoria: Cultura
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