Observatório Psicanalítico OP 694/2026 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Persépolis e as histórias

Ana Valeska Maia Magalhães – Sociedade Psicanalítica de Fortaleza – SPFOR

Começo a escrever este texto após o café da manhã. Mesa arrumada, computador aberto, silêncio no ambiente. A atmosfera está propícia para um trabalho criativo. Repentinamente, um burburinho na varanda ao lado atrapalha a estabilidade de meus planos. Meus vizinhos têm visitas. Escuto os balbucios da bebê; é a netinha deles, Flora. Será barulhento, constato, um pouco chateada, já que precisarei procurar outro lugar para escrever.

A família de meus vizinhos é festiva. Rose e Fernando aproveitam a presença da neta com um amor simultaneamente solto e acolhedor, aquele tipo de amor que somente os avós sabem transmitir. Enquanto fecho o computador, surge o acontecimento. Flora diz “papai” pela primeira vez. “Ela disse papai”, a frase se repete em diferentes vozes, pipocando como fogos em noite de réveillon. O pai surge às pressas de onde estava e repete “ela disse papai” junto ao coro, contentíssimo.

Mudo os planos novamente e resolvo ficar. A escuta da festa na varanda em torno de “sua majestade, Flora” tece um vínculo com o que quero escrever, com o que preciso dizer. Nas reviravoltas da vida, o que parecia ser um obstáculo ajuda a abrir caminho.

A linguagem é um modo de amar os outros, disse Alfred Döblin. Para Flora começar a falar, foi banhada pelas palavras. No futuro, ela poderá devolver as palavras que recebeu, em novos arranjos. Contar suas histórias de descoberta do mundo, da dor e do prazer de existir em relação com os outros. Talvez conte suas histórias a uma psicanalista ou talvez as escreva, crie ficções. Talvez encontre palavras para situações inomináveis, como Isabel Allende fez em A Casa dos Espíritos. E Flora saberá, cada vez mais, que precisará dos outros, dos presentes e dos ausentes, para continuar a falar e encontrar o seu lugar no mundo.

Outra menina, nascida no Irã em 1969, chamada Marjane, teve uma avó amorosa, uma família festiva. Episódios das primeiras décadas de sua vida foram contados por ela na obra Persépolis*, graphic novel em preto e branco, que alcançou sucesso mundial. A infância e a adolescência de Marjane foram impactadas por um período turbulento no Irã. Aos 10 anos de idade, sua vida mudou radicalmente. Ela foi, por exemplo, obrigada a usar o véu toda vez que saísse de casa. O véu, aliás, passou a ser uma peça obrigatória para todas as meninas e mulheres iranianas, uma das consequências da Revolução Islâmica de 1979, na mudança do regime do xá Reza Pahlevi para o do aiatolá Khomeini.

Nesse sentido, a obrigatoriedade do véu também pode ser uma metáfora para a repressão à liberdade que turvava o olhar e para a guerra e seus mortos. Além das perseguições internas, a convulsão política no Irã se espalhou através do conflito Irã-Iraque, quando Saddam Hussein ordenou a invasão do Irã. A menina Marjane, muito cedo, sentiu o que é viver com medo. Precisou correr e se esconder dos bombardeios. Em uma das ruínas, no caminho de volta para casa após um bombardeio, Marjane reconheceu, entre os corpos nos escombros, o bracelete no pulso de uma de suas amigas.

O início de Persépolis traz uma genealogia que remonta à tomada da Pérsia pelos árabes, em 642, e prossegue mapeando a sucessão de dinastias, guerras e tomadas de poder, destacando o papel da ambição pelo petróleo, inclusive das ações colonialistas do imperialismo ocidental e da religiosidade xiita nos conflitos no país. Imagino que esse rendilhado associativo exista na obra para destacar um lugar: o de que somos herdeiros das histórias e de que, em tudo o que fazemos e pensamos, há uma historicidade contida.

Os pais de Marji, como era chamada por eles, contestavam o longevo dogma religioso e tinham uma base de pensamento socialista. Buscavam uma vida social com liberdade política. Sua família, portanto, era alvo fácil da perseguição. De forma divertida, pois o humor é uma das características de seu estilo, Marjane Satrapi conta as inúmeras estratégias que os seus familiares e amigos utilizaram para burlar a censura e continuar a celebrar a vida, inclusive realizando festas clandestinas. Em Persépolis ela conta suas próprias contradições e as de sua família, humanizando a obra, enlaçando quem lê.

Com a chegada da adolescência, a revolta tornou-se manifesta nas atitudes de Marjane; a contestação aos interditos fez-se mais veemente. Na escola, ela enfrentava as professoras e negava a doutrinação religiosa. Temerosos, seus pais acharam que seria mais seguro para a filha passar um período no exílio, estudando em Viena. Ela tinha catorze anos de idade.

Nas vésperas da viagem, sua avó foi dormir em sua casa, para se despedir. Durante uma conversa, ela escuta um conselho da avó:

— Seja sempre digna e fiel a você mesma.

O período em Viena foi aflitivo. Ela era uma adolescente. Era difícil ser uma iraniana na Europa. Foi tratada com preconceito. Sentiu o impacto do racismo e da xenofobia. As notícias televisionadas da guerra Irã-Iraque aumentavam a angústia, e a saudade da família crescia. Ela tentava se adaptar, mas não havia acolhida. “Queria esquecer tudo, fazer o meu passado sumir, mas meu inconsciente sempre me alcançava”, disse em um dos quadrinhos sobre o período no exílio. Na fase final em Viena, morou na rua, sofreu em demasia. Após uma grave pneumonia, retornou ao Irã e, alguns anos depois, voltou à Europa, desta vez para a França, desta vez para ficar e lá desenhar e escrever Persépolis.

Algumas vezes as histórias nos encontram quando mais precisamos delas. Persépolis chegou em minhas mãos em 2007. Naquele ano, foi um porto ler as histórias da menininha questionadora do mundo e da adolescente que confrontava o sistema. Foi igualmente significativo conhecer a história do Irã por intermédio dos olhos de uma mulher sensível, uma artista. O caráter novidadeiro de Persépolis abriu espaço para outras mulheres encontrarem um lugar de fala. No meu caso, me pegou pelas mãos para amorosamente recordar que, assim como ela, eu tive uma avó que costumava me dizer para ser fiel a mim mesma.

Nas notícias veiculadas no dia 4 de junho de 2026 sobre a morte de Marjane Satrapi, a versão oficial da família foi a de que ela “morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”. Minha avó, que foi uma leitora da literatura romântica, costumava contar que algumas pessoas “morriam de amor” nos romances. Com a partida de Satrapi, as fronteiras da vida e da arte se borram, se fundem, se interpenetram. Acho que contamos histórias para saber quem somos. Marjane Satrapi contou a história dela, que se misturou com as histórias de tantas pessoas, inclusive com a minha. Por isso escrevo este texto. Para agradecer o que recebi.

Quando percebo, o dia está acabando. Rose está colocando Flora para dormir; escuto sua canção de ninar. Tenho ao meu lado uma página aberta de Persépolis. A cena é a de um debate filosófico com Deus, que a menina Marji imaginava igualzinho a Karl Marx. “Amanhã vai fazer sol”, ele diz.

*Persépolis foi lançado em filme de animação, em 2007. Marjane Satrapi também é autora de Frango com ameixas, Bordados e organizou Mulher, vida, liberdade, que reuniu quadrinhos de várias autoras com o tema da situação das mulheres no Irã.

Palavras-chave: Persepólis, Marjane Satrapi, histórias, linguagem, liberdade.

Imagem: retrato de Marjane Satrapi

Categoria: Cultura; Homenagem

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise — FEBRAPSI —, dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

Os ensaios são publicados no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:

https://www.facebook.com/share/p/15smXgQSMQD/?mibextid=wwXIfr

No Instagram: @observatorio_psicanalitico

E siga-nos na plataforma Substack:

https://substack.com/@observatoriopsicanalitico?utm_campaign=profile&utm_medium=profile-page

Se você é membro da FEBRAPSI/FEPAL/IPA e se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, inscreva-se no GG — grupo de e-mails, Google Groups — do OP enviando uma mensagem para: [email protected]

Categoria: Cultura | Homenagens
Tags: histórias | liberdade | Linguagem | Marjane Satrapi | Persepólis
Share This