
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Da Cor da nossa Terra
Santiago Carballo – Associação Psicanalítica de Buenos Aires (APdeBA)
Em 30 de abril de 2026, Milo J chegou à escrivaninha mais famosa da música global com uma camisa polo redesenhada em aguayo, o tecido andino, e montou atrás de si uma espécie de altar: a bandeira argentina, um exemplar do Martín Fierro, um suplemento da revista Folklore de 1967 com Mercedes Sosa na capa, uma flâmula do Deportivo Morón, o mate. Ao lado de Agarrate Catalina, uma murga uruguaia, o Tiny Desk tornou-se, por alguns minutos, um ritual de mate e tradição rio-platense, uma missa de chacarera e zamba.
Um jovem de 19 anos, nascido em Morón, um município da província de Buenos Aires, colocou o cancioneiro do rio da prata numa das vitrines centrais da música global. Esse altar pôs em cena, deliberadamente, tudo aquilo que um país treinado para olhar em direção à Europa aprendeu a deixar fora de quadro.
De que cor este país imagina ser?
Porque as tonalidades não pertencem apenas a uma escala cromática: estão também no modo como uma cultura olha para si mesma e decide o que vale a pena ver. Existe, em certa argentina, a fantasia da branquitude: uma formação defensiva que organiza a identidade nacional em torno de uma ficção, a de um país branco, europeu, distante do latino-americano, alheio à mistura que, no entanto, o constitui desde os alicerces. Digo certa argentina, e não toda, porque é justo reconhecer: o peronismo, o folclore, a cumbia, o rock de bairro e o pensamento latino-americanista vêm discutindo essa fantasia há décadas.
Freud advertiu que as comunidades muito próximas tendem a magnificar suas diferenças em vez de minimizá-las: é o narcisismo das pequenas diferenças. Na Argentina, essa diferença não opera no registro da ignorância, mas no do desmentido. O desmentido (verleugnung) não é o recalque, que sepulta e esquece, nem a negação pura e simples. É aquela fórmula peculiar do “eu sei, mas mesmo assim”: reconhece-se uma percepção e, ao mesmo tempo, rejeita-se sua consequência. Sabe-se (e, ao mesmo tempo, não se quer saber) que a mistura existe, que o marrom desta terra está nas mãos que construíram o país. Esse saber se desloca, se encapsula, se mantém fora de quadro.
E aqui está, parece-me, o mais interessante, algo que excede Milo J e a questão da identidade: uma cultura pode saber algo sobre si mesma e, ainda assim, organizar-se para não vê-lo. Isso não é ignorância, tampouco má-fé. É outra coisa, mais próxima do que encontramos todos os dias na clínica.
Houve, poderíamos dizer, uma campanha do deserto semiótica¹. Ao extermínio físico do século XIX, aquele que “limpou” o território de seus habitantes originários, seguiu-se um extermínio simbólico, mais lento e mais eficaz, porque não deixa cadáveres. Ele tem suas operações. Uma delas é o branqueamento iconográfico.
O primeiro retrato de San Martín pintado ao natural foi obra de José Gil de Castro, um pintor mulato peruano, em 1818; há também o daguerreótipo de Paris, de 1848, a única fotografia real existente dele: um ancião que pouco se parece com o dos bronzes. Em ambos, mostra-SE um homem com traços mestiços. Mas a iconografia que a pátria escolheu para suas escolas e seus monumentos foi progressivamente europeizando-o até nos entregar um San Martín mais branco do que o que posou diante do pincel.
Outra operação é a invisibilização contemporânea: aquela que estrangeiriza o traço indígena de quem mora a trinta quadras de distância, lendo-o como alheio, como se tivesse vindo de algum outro lugar, e não daqui. É contra isso que trabalha o Movimento Identidad Marrón, ao reivindicar as peles e os rostos de filhos e netos de indígenas, camponeses e migrantes. “Marrón” foi uma categoria introduzida na discussão pública: um ato político e também um gesto de levantamento do desmentido. Nomear aquilo que se sabe, mas não se quer saber, já é uma intervenção sobre o relato que mantém cindido o que insiste em retornar.
Milo J já o havia dito sem rodeios, muito antes do Tiny Desk, numa entrevista à Billboard que viralizou. Diante de uma pergunta sobre a mestiçagem, respondeu que marrom é hoje uma palavra usada como insulto e que, mesmo assim, a abraça:
“Yo soy marrón, el disco es marrón, el color secundario de Argentina es marrón. Latinoamérica es marrón.”
Tomar o significante denegrido e virá-lo do avesso, transformando-o em emblema de pertencimento, é desfazer o desmentido por dentro. Sobre essa cor ele construiu La vida era más corta. Diante da escrivaninha cantou “Bajo de la piel”.
São marcas que não fecham, que se herdam, que reaparecem em corpos que não as escolheram. A canção nomeia uma transmissão que excede o indivíduo e, nesse ponto, toca algo que nos concerne diretamente como analistas: aquilo que não se elabora se transmite. No sujeito e na cultura. Milo J canta a partir dessa ferida, não para fechá-la, mas para que ela não seja esquecida.
Essa tendência a invisibilizar o que é próprio, a encobrir a origem e montar por cima uma versão mais apresentável, obedece uma lógica que conhecemos. Winnicott descreveu o falso self como uma organização que se constitui para satisfazer a demanda do ambiente, ao custo de sepultar o verdadeiro. E esclareceu algo que muitas vezes esquecemos: o falso self não é uma mentira, é uma defesa, um modo de proteger um núcleo demasiado frágil para se mostrar.
Essa categoria, pensada para o psiquismo individual, pode aqui ser usada como metáfora. O falso self ilumina bem a branquitude argentina: uma identidade de superfície, montada para o olhar europeu, que asfixia aquilo que pulsa por baixo porque, em algum momento, não suportou saber-se mestiça, periférica, do sul. Como se fosse algo ruim mostrar-se, pensar-se e cantar-se da cor da nossa terra.
Nota ¹ Em referência à Campanha do Deserto (1878-1879), série de operações militares lideradas por Julio Argentino Roca com o objetivo de “expandir” o território nacional sobre a região pampeana e a Patagônia, mediante a submissão e o genocídio dos povos originários.
Palavras-chave: Branquitude, Desmentido (Verleugnung), Identidade, Cultura, Psicanálise
Imagem: Milo J, Tiny Desk, Instagram
Categoria: Cultura
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Observatorio Psicoanalítico – OP 693/2026
Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo
Del Color de nuestra Tierra
Santiago Carballo (APdeBA)
El 30 de abril de 2026, Milo J llegó al escritorio más famoso de la música global con una chomba rediseñada en aguayo, el tejido andino, y montó detrás de sí una especie de altar: la bandera argentina, un ejemplar del Martín Fierro, un suplemento de la revista Folklore de 1967 con Mercedes Sosa en la tapa, un banderín del Deportivo Morón, el mate. Junto a Agárrate Catalina, una murga uruguaya, el Tiny Desk se volvió, por unos minutos, un ritual de mate y tradición rioplatense, una misa de chacarera y zamba.
Un joven de 19 años, nacido en Morón, un municipio de la Provincia de Buenos Aires, puso el cancionero rioplatense en una de las vidrieras centrales de la música global. Ese altar puso en escena, deliberadamente, todo aquello que un país entrenado para mirar hacia Europa aprendió a dejar fuera de cuadro.
¿De qué color imagina ser este país? Porque las tonalidades no pertenecen solo a una escala cromática: están también en el modo en que una cultura se mira a sí misma y decide qué vale la pena ver. Existe, en cierta Argentina, la fantasía de la blanquitud: una formación defensiva que organiza la identidad nacional en torno a una ficción, la de un país blanco, europeo, distante de lo latinoamericano, ajeno a la mezcla que, sin embargo, lo constituye desde los cimientos. Digo cierta Argentina, y no toda, porque es justo reconocer: el peronismo, el folklore, la cumbia, el rock barrial y el pensamiento latinoamericanista vienen discutiendo esa fantasía desde hace décadas.
Freud advirtió que las comunidades muy próximas tienden a magnificar sus diferencias en lugar de minimizarlas: es el narcisismo de las pequeñas diferencias. En la Argentina, esa diferencia no opera en el registro de la ignorancia, sino en el de la desmentida. La desmentida (Verleugnung) no es la represión, que sepulta y olvida, ni la negación pura y simple. Es aquella fórmula peculiar del “yo sé, pero aun así”: se reconoce una percepción y, al mismo tiempo, se rechaza su consecuencia. Se sabe (y, al mismo tiempo, no se quiere saber) que la mezcla existe, que el marrón de esta tierra está en las manos que construyeron el país. Ese saber se desplaza, se encapsula, se mantiene fuera de cuadro.
Y acá está, me parece, lo más interesante, algo que excede a Milo J y a la cuestión de la identidad: una cultura puede saber algo sobre sí misma y, aun así, organizarse para no verlo. Eso no es ignorancia, tampoco mala fe. Es otra cosa, más próxima a lo que encontramos todos los días en la clínica.
Hubo, podríamos decir, una campaña del desierto semiótica¹. Al exterminio físico del siglo XIX, aquel que “limpió” el territorio de sus habitantes originarios, le siguió un exterminio simbólico, más lento y más eficaz, porque no deja cadáveres. Tiene sus operaciones. Una de ellas es el blanqueamiento iconográfico.
El primer retrato de San Martín pintado al natural fue obra de José Gil de Castro, un pintor mulato peruano, en 1818; está también el daguerrotipo de París, de 1848, la única fotografía real que existe de él: un anciano que poco se parece al de los bronces. En ambos se muestra un hombre de rasgos mestizos. Pero la iconografía que la patria eligió para sus escuelas y sus monumentos fue progresivamente europeizándolo hasta entregarnos un San Martín más blanco que el que posó ante el pincel.
Otra operación es la invisibilización contemporánea: aquella que extranjeriza el rasgo indígena de quien vive a treinta cuadras de distancia, leyéndolo como ajeno, como si hubiera venido de algún otro lugar, y no de acá. Es contra eso que trabaja el movimiento Identidad Marrón, al reivindicar las pieles y los rostros de hijos y nietos de indígenas, campesinos y migrantes. “Marrón” fue una categoría introducida en la discusión pública: un acto político y también un gesto de levantamiento de la desmentida. Nombrar aquello que se sabe, pero no se quiere saber, ya es una intervención sobre el relato que mantiene escindido lo que insiste en retornar.
Milo J ya lo había dicho sin rodeos, mucho antes del Tiny Desk, en una entrevista a Billboard que se volvió viral. Ante una pregunta sobre el mestizaje, respondió que marrón es hoy una palabra usada como insulto y que, aun así, la abraza: “Yo soy marrón, el disco es marrón, el color secundario de Argentina es marrón. Latinoamérica es marrón.” Tomar el significante denigrado y darlo vuelta, transformándolo en emblema de pertenencia, es deshacer la desmentida desde adentro. Sobre ese color construyó La vida era más corta.
Frente al escritorio cantó “Bajo de la piel”. Son marcas que no cierran, que se heredan, que reaparecen en cuerpos que no las eligieron. La canción nombra una transmisión que excede al individuo y, en ese punto, toca algo que nos concierne directamente como analistas: aquello que no se elabora se transmite. En el sujeto y en la cultura. Milo J canta a partir de esa herida, no para cerrarla, sino para que no sea olvidada.
Esa tendencia a invisibilizar lo propio, a encubrir el origen y montar por encima una versión más presentable, obedece a una lógica que conocemos. Winnicott describió el falso self como una organización que se constituye para satisfacer la demanda del ambiente, al costo de sepultar el verdadero. Y aclaró algo que muchas veces olvidamos: el falso self no es una mentira, es una defensa, un modo de proteger un núcleo demasiado frágil para mostrarse.
Esa categoría, pensada para el psiquismo individual, puede aquí usarse como metáfora. El falso self ilumina bien la blanquitud argentina: una identidad de superficie, montada para la mirada europea, que asfixia aquello que pulsa por debajo porque, en algún momento, no soportó saberse mestiza, periférica, del Sur. Como si fuera algo malo mostrarse, pensarse y cantarse del color de nuestra tierra.
Nota ¹ En referencia a la Campaña del Desierto (1878-1879), serie de operaciones militares lideradas por Julio Argentino Roca con el fin de “expandir” el territorio nacional sobre la región pampeana y la Patagonia, mediante el sometimiento y el genocidio de los pueblos originarios.
Palabras Claves: Blanquitud – Desmentida (Verleugnung) – Identidad – Cultura – Psicoanálisis
Imagem: Milo J, Tiny Desk, Instagram
Categoría: Cultura
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