
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
A identidade visual do 31º Congresso da FEBRAPSI
Gleda Brandão Araújo – Sociedade Psicanalítica do Mato Grosso do Sul — SPMS. Presidente da FEBRAPSI
Na Assembleia de Delegados da FEBRAPSI, realizada no último dia 30 de maio, foi lançada oficialmente a identidade visual do 31º Congresso Brasileiro de Psicanálise, que acontecerá em Recife, de 20 a 23 de outubro de 2027. O tema do congresso, escolhido em um trabalho conjunto, será O Futuro da Nossa Ilusão, inspirado no centenário do artigo de Freud O Futuro de uma Ilusão, propondo, desde já, um campo fértil de reflexão sobre os destinos da subjetividade, da cultura e da própria psicanálise no mundo contemporâneo.
Convidamos todos os colegas e todos aqueles que se interessam pela psicanálise, pela cultura e pelos destinos da subjetividade contemporânea a caminharem conosco nessa construção. Que possamos chegar a Recife não apenas para participar de um congresso, mas para compartilhar experiências, ideias, inquietações, diferenças e esperanças. O tema poderá ser pensado a partir de múltiplos vértices — teóricos, clínicos, sociais e culturais —, bem como nas interlocuções da psicanálise com os mais diversos campos do conhecimento, permitindo diálogos amplos e férteis sobre os destinos do sujeito, da cultura e da própria experiência humana em nosso tempo.
Vivemos um tempo de transformações profundas e aceleradas. As mudanças tecnológicas, os novos modos de comunicação, a velocidade da circulação das informações, o enfraquecimento das figuras de autoridade, os radicalismos, os fanatismos, a violência, o excesso de imagens e estímulos e a fragilidade dos vínculos vêm produzindo efeitos importantes sobre a vida psíquica e sobre as formas de sofrimento contemporâneo. Ao mesmo tempo que nunca houve tantos recursos tecnológicos e tanto acesso à informação, observamos também uma crescente dificuldade de elaboração e de construção de sentido. Tudo acontece de maneira rápida, intensa e frequentemente descartável. As referências coletivas se fragmentam, as certezas parecem ruir e os sujeitos são continuamente impelidos a adaptar-se a mudanças sucessivas sem que haja tempo suficiente para metabolizar emocionalmente aquilo que vivem.
Nesse cenário, a psicanálise segue ocupando um lugar singular. Desde seu surgimento, ela representou uma ruptura importante com as ilusões narcísicas da humanidade. Freud mostrou que o ser humano não é plenamente senhor de si, pois existe uma dimensão inconsciente operando silenciosamente em nossas escolhas, desejos, sintomas e conflitos. Ao afirmar a existência do inconsciente, da sexualidade infantil, das pulsões e da força das experiências infantis na constituição psíquica, a psicanálise desafiou concepções morais, científicas e culturais de sua época.
Talvez seja justamente por isso que continue tão necessária hoje. Em um mundo que frequentemente oferece respostas rápidas, soluções simplificadoras e identidades rígidas, a psicanálise insiste na complexidade humana, na singularidade de cada sujeito e na importância da escuta. Ela nos lembra que o sofrimento não pode ser reduzido apenas a diagnósticos, protocolos ou classificações, e que existe sempre algo da ordem do desejo, da história e do inconsciente que escapa às tentativas de padronização da experiência humana.
Foi a partir dessas percepções e inquietações que nasceu a identidade visual do congresso, concebida de maneira extremamente sensível e simbólica. A arte toma como referência um dos elementos mais emblemáticos da cultura pernambucana: a sombrinha do frevo.
Muito além de um objeto festivo, a sombrinha carrega em sua própria história uma narrativa de resistência, transformação e criação humana. Em suas origens, esteve ligada à defesa e à sobrevivência em um contexto de violência urbana e repressão à capoeira. Com o passar do tempo, deixou de representar combate para transformar-se em dança, movimento, equilíbrio e expressão cultural.
Há algo profundamente psicanalítico nesse percurso. A possibilidade de transformar experiências difíceis em criação, simbolização e movimento talvez seja uma das tarefas mais importantes da vida psíquica.
Na imagem escolhida para representar o congresso, vemos uma multidão em tons frios e homogêneos, caminhando quase de forma indiferenciada. Em contraste, surge uma criança segurando uma sombrinha colorida. Pequena diante da massa, mas intensamente viva, singular e criativa.
A imagem parece falar justamente da possibilidade de preservar a subjetividade em tempos de massificação; de manter viva a capacidade de sonhar, desejar, brincar, pensar e criar, mesmo diante das forças uniformizantes do mundo contemporâneo.
A sombrinha colorida transforma-se, assim, em metáfora do próprio trabalho analítico: um apoio simbólico diante das instabilidades da existência. Uma imagem delicada, mas resistente. Um gesto de diferenciação em meio à homogeneização crescente dos modos de vida.
Também não é casual que essa identidade visual tenha surgido a partir da cultura de Recife, cidade que sediará o congresso. Recife é intensidade, invenção, memória, música, literatura, arte e resistência cultural. Cidade das pontes, do frevo, do maracatu, das manifestações populares e de uma impressionante vitalidade criativa. Uma cidade em que tradição e transformação convivem de maneira pulsante.
O 31º Congresso Brasileiro de Psicanálise começa, portanto, muito antes de sua abertura oficial. Ele já se inicia agora, nas Jornadas Preparatórias, nas reflexões que o tema desperta, nas questões que nos mobilizam e na disposição coletiva de pensar o futuro da psicanálise e dos sujeitos em um mundo em permanente transformação.
Entre os tons cinzentos da uniformização e a delicadeza vibrante das cores que insistem em sobreviver, talvez a identidade visual do congresso não nos deixe esquecer algo fundamental: ainda é possível imaginar futuros.
Palavras-chave: psicanálise, congresso, FEBRAPSI, identidade visual, cultura, subjetividade.
Imagem: Identidade Visual de Liziane Leite Cruz / Cytrus Design
Categoria: Instituição Psicanalítica
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