
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo
Sódepois 73
Maio/2026
Primeiro de maio de 1886. Em Chicago, operários em greve protestam por melhores condições de trabalho, especialmente pela redução da jornada, que podia chegar a dezessete horas por dia, para oito horas diárias. Os confrontos resultaram em prisões, mortes e na condenação de seis sindicalistas anarquistas à morte. A história desse movimento inspirou a criação do Dia Internacional dos Trabalhadores.
Voltando para 2026, trazemos um pequeno chiste que circulou nas redes sociais: “Você não precisa se preocupar em perder seu trabalho para a IA, pois, se ela for inteligente mesmo, não vai aceitar o que você aceita”. Mais de um século separa os dois momentos e, ainda que os desafios tenham mudado, a exploração e a necessidade de combatê-la permanecem. Lembremos que a palavra trabalho remete a tripalium, instrumento de tortura usado para castigar escravizados. Enquanto sociedade, estamos contribuindo para que o trabalho se afaste ou se aproxime da ideia de tortura? O quanto estamos implicados na luta por condições de trabalho mais justas para todos os trabalhadores?
Christophe Dejours, psicanalista e estudioso do trabalho, inspirado pelo conceito da banalidade do mal, desenvolveu a ideia de normopatia, definida por ele como uma postura marcada pela indiferença diante do sofrimento e das injustiças que afetam os outros, pela adesão acrítica aos discursos dominantes e pela renúncia à reflexão, ao julgamento ético e à ação coletiva. Nessa condição, os indivíduos tendem a colaborar com situações injustas, seja por suas ações, seja por sua omissão. Seríamos nós normopatas?
Evitando ocupar esse lugar, Ney Marinho (SBPRJ), em seu ensaio “Primeiro de Maio: trabalho, memória e impasses da democracia” (OP 685/2026), faz questão de não deixar a data passar em branco e, ao resgatar um fatídico primeiro de maio na ditadura, dia do famoso atentado do Riocentro, alerta-nos para as manobras parlamentares que buscam anistiar apoiadores do regime e confrontar aqueles que defendem a democracia, criando a falsa ideia de polarização. Reflete que, mesmo estando em uma das maiores economias do mundo, ainda enfrentamos grandes desigualdades e condições de trabalho adoecedoras, fruto de uma sociedade ainda dividida entre aqueles que merecem as benesses e aqueles que podem sofrer a violência.
Em diálogo com as inquietações explicitadas por Ney Marinho e buscando combater a normopatia nas instituições psicanalíticas, a Comissão Ubuntu, coordenada por Ane Marlise Port Rodrigues, compartilha conosco, no texto “Projeto Ubuntu SBPdePA – Seis anos de história!” (OP 686/2026), a trajetória e os resultados, até aqui, do Projeto Ubuntu, o Programa de Bolsas de Formação Psicanalítica do Instituto de Psicanálise da SBPdePA. Tendo iniciado suas atividades em 2020, conta hoje com sete membros em formação, sendo que a primeira participante concluirá sua formação este ano. O texto aponta que sair do circuito endogâmico que caracteriza nossas sociedades só tem a contribuir para enriquecer a psicanálise, reforçando que “a entrada de colegas negros/as e indígenas nos Institutos de Psicanálise, além de ser justa do ponto de vista social, enriquece a psicanálise e os psicanalistas pela fecundidade dos intercâmbios culturais e por fazer trabalhar as diferenças na convivência do semelhante/diferente/singular”
Ainda no campo das boas novas, maio nos trouxe uma que deixaria os operários de Chicago orgulhosos: a PEC que põe fim à escala 6×1 foi aprovada pela Câmara dos Deputados, em dois turnos, com placar de 472 votos a favor e apenas 22 contrários, uma das votações mais expressivas da história recente do Congresso em matéria trabalhista. O texto reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, com período de transição, e impõe aos empregadores a obrigação de conceder duas folgas semanais remuneradas.
A aprovação da PEC representa também o desdobramento institucional de uma mobilização social recente. No ensaio “Vida Além do Trabalho (VAT): sofrimento, reconhecimento e o corpo que produz” (OP 691/2026), Gustavo Gil Alarcão (SBPSP) descreve o movimento VAT, idealizado pelo balconista de farmácia e tiktoker Rick Azevedo. Embora tenha surgido fora dos circuitos tradicionais de organização política e sindical, o movimento alcançou ampla adesão popular e inspirou a deputada Erika Hilton a apresentar a proposta que levou o debate sobre o fim da escala 6×1 ao Congresso Nacional.
A partir de autores da psicanálise, Gustavo mostra como a escala 6×1 produz exaustão física, perda do tempo livre e desgaste subjetivo, transformando o sofrimento do trabalhador em algo visto como normal. O VAT surge quando trabalhadores passam a reconhecer coletivamente esse sofrimento e a transformá-lo em linguagem política. O texto também relaciona a exploração do trabalho à desigualdade estrutural brasileira e à herança da escravidão, mostrando que determinados corpos, especialmente negros, pobres e periféricos, são historicamente mais submetidos ao desgaste. Assim, o debate sobre a jornada de trabalho ultrapassa a questão econômica e passa a discutir os limites éticos da exploração da vida pelo trabalho.
Daniel Delouya, no ensaio “O que deu errado?” (OP 688/2026), faz um trabalho de resgate histórico no qual nos traz uma reflexão crítica sobre o projeto sionista e o Estado de Israel, articulando aspectos políticos, históricos e psicanalíticos. Ao mesmo tempo em que reconhece o contexto histórico do antissemitismo e a busca judaica por segurança, Delouya sustenta que a ocupação e a lógica de poder adotadas por Israel acabaram por desfigurar o ideal sionista original, produzindo um cenário contínuo de opressão e ameaça mútua. O texto também dialoga com historiadores israelenses e palestinos para pensar como o nacionalismo, o pertencimento grupal e as identificações coletivas influenciam os conflitos contemporâneos.
Em tempos de alta tecnologia, inteligências artificiais e cada vez menos contato físico, ainda há espaço para o artesanal? Acreditamos que sim, e que o trabalho de curadoria do OP se aproxima do das bordadeiras que entrelaçam diferentes cores e texturas, permitindo que todas possam ter seu lugar e revelar sua beleza. Num gesto de reconhecimento da importância do Observatório Psicanalítico no cenário psicanalítico internacional, recebemos um texto especialmente escrito para o Observatório por Heribert Blass, atual presidente da IPA, repercutindo a 5ª Conferência Ásia-Pacífico, realizada em Seul.
No ensaio “Depois de Seul: reflexões sobre a psicanálise e a região Ásia-Pacífico” (OP 689/2026) o tema do narcisismo foi discutido não como um conceito fixo, mas como algo que se apresenta de formas diferentes em distintas situações clínicas e culturais contemporâneas. Ao realizar uma recapitulação do conceito, Blass partilha conosco algumas das discussões que ocorreram na Conferência. Destaca como a diversidade dos países asiáticos, ao invés de fragmentar a discussão, tornou-a mais viva. Ao final, convida-nos a pensar como a psicanálise se insere no mundo contemporâneo: “Em um mundo cada vez mais moldado pela polarização, pela fragmentação, pela certeza e pela velocidade, a psicanálise continua a oferecer um tipo diferente de espaço: um espaço que tolera a ambiguidade, escuta sob a superfície da linguagem e resiste à pressão de reduzir a complexidade de forma apressada”.
Retornando a Dejours, encontramos a ideia de centralidade do trabalho na construção da identidade. Para o autor, o trabalho não é apenas fonte de renda, mas espaço privilegiado de reconhecimento social e constituição subjetiva. Sendo a identidade do sujeito construída por meio da relação com o mundo e com os outros, o trabalho se configura como um dos principais mediadores dessa relação.
Em consonância com essa definição de trabalho, temos o ensaio “A única saída” (OP 690/2026), de Adriana Rotelli R. Rapeli (SBPSP), no qual ela analisa o filme sul-coreano homônimo, dirigido por Park Chan-wook. O filme conta a história de um homem, pai de família, que, após ser demitido, decide assassinar seus concorrentes para voltar ao mercado de trabalho. Adriana compartilha conosco a sensação de desconcerto sentida ao assistir ao filme: o estranho que é familiar.
A autora discute questões sociais e econômicas do mundo atual, apontando que “o capitalismo selvagem pode despertar em nós o selvagem”. Do ponto de vista psicanalítico, apresenta-nos um homem ferido em seu narcisismo que, no afã de recuperar a autoestima, estreita seu campo mental e passa a agir em vez de pensar, fazendo-nos lembrar o quanto as conquistas civilizatórias são frágeis tanto no mundo externo quanto em nossa interioridade.
Maio é mês de luta, mas também pode ser mês de festa. No início do mês, o Rio de Janeiro foi palco de uma celebração do feminino e da latinidade, já que, no dia dois de maio, aconteceu em Copacabana o show da cantora colombiana Shakira. Silvana Barros (SPFor), em seu ensaio “Estoy aquí. Copacabana como palco e espelho da mulher latina” (OP 687/2026), compartilha conosco a emoção que sentiu ao assistir ao show: um misto de nostalgia pelos sucessos dos anos 90 com certa identificação com a mulher que se reinventou e deu nome ao sofrimento feminino vivido por tantas mulheres, compartilhando suas dores decorrentes da traição, da separação e da estagnação na carreira. Além disso, lembra-nos que fazemos parte de uma comunidade afetiva latino-americana, ainda que tenhamos dificuldade de nos perceber como latinos. Ao observar a performance da cantora e a maneira como ela tratou, e foi tratada, pelos brasileiros, a autora se pergunta se estaríamos diante da manifestação de um feminismo decolonial, encerrando com um tom otimista: “Assisti a uma tentativa, ainda imperfeita, talvez por estar capturada pelo próprio mercado, de nomear uma transformação real”.
Embora o clima tenha sido de alegria e celebração, às vésperas do show, em 28 de abril, Gabriel de Jesus Firmino, serralheiro de 28 anos, morreu após um acidente na montagem do palco da cantora. Que não nos esqueçamos da multidão de trabalhadores que tornam os espetáculos possíveis, especialmente daqueles que “morrem na contramão atrapalhando o tráfego”.
No apagar das luzes deste mês, recebemos também a notícia da morte de Edgar Morin, pensador incontornável para todos aqueles que ainda apostam na complexidade como forma de compreender o humano. Aos 104 anos, Morin deixa uma obra marcada pela recusa das simplificações e pela insistência em pensar os fenômenos humanos em suas contradições, ambiguidades e interdependências. Em um tempo atravessado pela fragmentação dos saberes, pela polarização e pela aceleração das respostas, sua escrita permaneceu como um convite à dúvida, ao diálogo e à articulação entre diferentes campos do conhecimento.
Também neste mês nos despedimos de Julio Le Parc, importante artista argentino. Aos 97 anos, Le Parc deixa uma obra marcada pela experimentação, pelo movimento e pela recusa da passividade do olhar. Suas criações cinéticas e luminosas não buscavam apenas encantar, mas provocar o espectador, deslocá-lo de uma posição fixa e convidá-lo à experiência, à participação e ao estranhamento. Brindemos a eles!
Percorrendo os textos deste mês, encontramos diferentes formas de sofrimento contemporâneo: o desgaste produzido pelo trabalho, a fragilidade das democracias, os conflitos identitários, a exclusão institucional, o narcisismo, a solidão e a violência. Mas encontramos também diferentes formas de resistência: a memória, a arte, os movimentos coletivos, a crítica, a escuta psicanalítica e a capacidade de transformar experiências dolorosas em palavra compartilhada. Em um mundo que frequentemente exige adaptação silenciosa ao intolerável, continuar pensando, lembrando e se deixando afetar segue sendo uma forma de resistência.
Boa leitura,
Abraço afetuoso da equipe de Curadoria
Beth Mori (SPBsb), coordenadora
Ana Carolina Alcici (SPRJ)
Ana Valeska Maia (SPFOR)
Cris Takata (SBPSP)
Gabriela Seben (SBPdePA)
Giuliana Chiapin (SBPdePA)
Lina Schlachter Castro (SPFOR)
Palavras-chave: trabalho, mobilização, arte, ações afirmativas, história
Imagem: Manifestación (1934) Antonio Berni
Categoria: Editorial
Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da Febrapsi.
Os ensaios são postados no Facebook clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:
https://www.facebook.com/
Nossa página no Instagram é @observatorio_psicanalitico
E segue-nos na plataforma Substack
https://substack.com/@
E somente para você que é membro da FEBRAPSI / FEPAL / IPA que se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, se inscreva no grupo de e-mails do OP [email protected]
