
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Vida Além do Trabalho (VIT): sofrimento, reconhecimento e o corpo que produz
Gustavo Gil Alarcão – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
Durante décadas, a escala 6×1 foi vivida como uma espécie de sofrimento mudo da vida brasileira. Uma violência cotidiana tão disseminada que passou a ser percebida não como violência, mas como realidade. A exaustão física, a supressão do tempo livre, a dissolução progressiva da vida subjetiva pelo trabalho foram sendo incorporadas como preço inevitável da sobrevivência.
Freud, em O mal-estar na civilização (1930), já havia formulado que a vida em sociedade exige do sujeito uma renúncia pulsional sistemática, e que essa renúncia produz um sofrimento difuso, estrutural, que não se reduz à patologia individual. O Unbehagenfreudiano não é neurose: é o custo permanente de habitar o laço social. O que o movimento “Vida Além do Trabalho” (VAT) revela é a face brasileira desse mal-estar agravada por condições históricas específicas de desigualdade, exploração e ausência de reconhecimento simbólico. Talvez justamente por isso tenha sido necessário que a denúncia emergisse não do centro social, mas de suas margens.
O VAT criado em 13 de setembro de 2023 pelo balconista de farmácia e tiktoker Rick Azevedo, não nasce como elaboração acadêmica, sindical ou institucional. Nasce como experiência vivida de sufocamento. Antes de tornar-se pauta legislativa, foi desabafo, revolta e reconhecimento mútuo entre trabalhadores submetidos a uma forma de temporalidade que captura quase integralmente a vida. O sofrimento não desaparece, não é totalmente elaborado nem pacificado; ao contrário, mantém-se como força de insistência — e encontra, nas redes sociais, uma circulação que produz identificação imediata em milhares de pessoas. Rick Azevedo surge inicialmente como trabalhador submetido às próprias condições exaustivas que mais tarde denunciaria publicamente. Sua trajetória ajuda a compreender algo fundamental sobre o fenômeno contemporâneo do VAT: a transformação de uma experiência privada de desgaste em linguagem política coletiva. O sofrimento não desaparece, não é totalmente elaborado nem pacificado; ao contrário, mantém-se como força de insistência.
Há algo de profundamente contemporâneo na maneira como esse mal-estar encontra circulação através das redes sociais e produz identificação imediata em milhares de pessoas.
Para compreender esse processo, é útil retornar a Psicologia das massas e Análise do eu(1921), onde Freud descreve como o laço grupal se constitui pelo compartilhamento de um ideal e pela identificação recíproca a partir de uma experiência comum. O que o VAT produziu nas redes não foi apenas indignação agregada, mas algo da ordem de um laço libidinal: o reconhecimento de que o próprio sofrimento — até então vivido como falha pessoal — era, na verdade, experiência coletiva. Esse deslocamento, de culpa individual para reconhecimento compartilhado, é precisamente o que Freud descreveu como condição de possibilidade para movimentos sociais com força psíquica real. Nem apenas o ressentimento viraliza. O sofrimento compartilhado também pode adquirir potência organizativa.
Há algo profundamente brasileiro nessa naturalização histórica da exaustão. A escravização não organizou apenas a economia do país; organizou também parte importante de sua imaginação social sobre o trabalho, o corpo e o valor da vida humana. Durante séculos, consolidou-se entre nós a ideia explícita — e depois silenciosamente herdada — de que determinados corpos existem prioritariamente para servir, suportar e produzir para outros. A abolição jurídica da escravidão não significou a elaboração psíquica e simbólica dessa violência histórica. Jurandir Freire Costa, em Violência e Psicanálise (1984), demonstrou como a violência social brasileira opera através da naturalização, mecanismo pelo qual a crueldade se torna invisível por estar inscrita nas próprias estruturas do cotidiano. A exaustão do trabalho é, nesse sentido, uma forma de violência que se disfarça de normalidade.
A desigualdade estrutural brasileira não produz apenas diferentes níveis de renda: ela organiza diferentes possibilidades de existência. Em sociedades extremamente desiguais, o direito ao descanso, ao lazer, ao tempo livre e ao cuidado de si não é distribuído igualmente. Determinados grupos permanecem historicamente mais autorizados à preservação da própria subjetividade. Outros seguem sendo percebidos, muitas vezes silenciosamente, como corpos mais disponíveis ao desgaste.
A posição esquizoparanóide de Klein descreve um modo de organização psíquica baseado em cisões radicais: objetos idealizados e objetos persecutórios, mundos separados entre aquilo que merece proteção e aquilo que pode ser atacado ou descartado. Essa transposição ao social não é arbitrária: foi o próprio Elliot Jaques, psicanalista kleiniano, quem demonstrou, em seu trabalho com organizações industriais nos anos 1950, como defesas da posição esquizoparanoide organizam o funcionamento de grupos e instituições. Jaques identificou que a divisão entre grupos “produtivos” e “descartáveis”, entre aqueles que pensam e aqueles que executam, reproduz no plano coletivo as mesmas cisões que Klein descrevera no plano intrapsíquico. Sociedades profundamente desiguais tendem a estabilizar essas dissociações: alguns grupos tornam-se reconhecidos em sua humanidade plena, enquanto outros passam a ocupar posições associadas ao desgaste, ao sacrifício e à disponibilidade permanente para o trabalho.
Há algo politicamente decisivo no fato de que a explosão contemporânea dessa discussão tenha encontrado como protagonistas sujeitos historicamente atravessados pela precariedade: trabalhadores pobres, negros; um homossexual e uma mulher trans. Não se trata de transformar sofrimento em virtude moral, nem de romantizar a exclusão. Trata-se de reconhecer que determinados corpos conhecem antes aquilo que a norma social aprende a naturalizar. Corpos constantemente expostos à humilhação, ao excesso, à vigilância e à violência desenvolvem uma percepção mais aguda das formas silenciosas de desumanização social. A experiência da margem frequentemente produz uma sensibilidade específica para aquilo que o centro aprende a chamar de “normal”.
Nesse contexto, a atuação da deputada Erika Hilton foi decisiva, e não pode ser reduzida ao gesto de acolher uma demanda já formada. Hilton foi a parlamentar que compreendeu, antes que o debate se consolidasse institucionalmente, que o clamor difuso nas redes tinha substância política real e que precisava de forma legislativa para não se dissolver. Sua PEC (PEC 8/25), que propõe a jornada de quatro dias semanais com limite de 36 horas, não foi apenas uma resposta ao movimento, foi um ato de tradução: a capacidade de converter sofrimento social em linguagem constitucional, de dar ao grito do trabalhador a dignidade de uma proposta que altera a lei fundamental do país.
Há algo que não é acidental nessa escolha de protagonismo. Erika Hilton é uma mulher trans negra, oriunda das periferias de São Paulo, que chegou ao Parlamento carregando na própria trajetória as marcas de uma sociedade que historicamente decidiu quais corpos merecem proteção e quais devem simplesmente suportar. Que tenha sido ela a oferecer forma institucional à luta contra a escala 6×1 — regime que recai desproporcionalmente sobre trabalhadores negros, pobres e periféricos — não é coincidência: é coerência. A articulação entre Rick Azevedo e Erika Hilton condensa, em dois nomes, a trajetória inteira do movimento: do sofrimento vivido nas margens à disputa pelo centro do poder. Não porque a marginalização produza automaticamente consciência política, mas porque certas experiências de vulnerabilidade tornam mais difícil a naturalização da violência social e mais urgente a necessidade de nomeá-la.
O debate em torno da escala 6×1 rapidamente ultrapassou a discussão técnica sobre legislação trabalhista. O tema passou a operar como revelador das posições éticas e políticas presentes na sociedade brasileira contemporânea, convocando todos a se posicionar diante de uma pergunta relativamente simples, mas profundamente incômoda: quanto da vida de alguém pode ser legitimamente capturado pelo trabalho? As reações revelaram não apenas divergências econômicas, mas diferentes formas de reconhecimento da dignidade humana. Tornou-se evidente como parte da sociedade ainda sustenta, consciente ou inconscientemente, uma relação moralizada com o sofrimento do trabalho — como se o excesso de desgaste constituísse prova de mérito ou valor pessoal.
Nesse ponto, Ferenczi permite aprofundar o problema. Para ele, o núcleo traumático não se constitui apenas pela violência sofrida, mas pelo desmentido posterior dessa violência. O trauma se intensifica quando o ambiente responde ao sofrimento com negação, banalização ou indiferença. A experiência histórica do trabalho no Brasil é também isso: não apenas a exploração concreta dos corpos, mas a produção contínua de narrativas destinadas a desmentir essa violência: “a vida é assim”, “quem trabalha vence”, “o sofrimento fortalece”. A exaustão transforma-se em virtude moral. O adoecimento aparece como fracasso individual. O excesso deixa de ser percebido como violência e passa a funcionar como prova de valor. Quando o adoecimento pelo trabalho se torna epidêmico quando o burnout, a depressão e a ansiedade se multiplicam em proporções que nenhuma explicação individual consegue abarcar, estamos diante de um sofrimento que a cultura produziu e que a cultura precisa reconhecer. O VAT operou precisamente nessa fronteira: fazendo a ligação entre o sintoma individual e o mal-estar que a sociedade precisa nomear politicamente.
O que se produziu então foi uma ruptura parcial desse desmentido coletivo. Quando milhares de trabalhadores começam simultaneamente a nomear o próprio esgotamento, algo historicamente importante acontece: o sofrimento deixa de existir apenas como experiência privada e o pacto denegativo se rompe. O movimento não apenas propôs mudanças na jornada de trabalho — ofereceu linguagem coletiva para experiências de sofrimento que durante muito tempo precisaram permanecer silenciosas para que a organização desigual da sociedade pudesse continuar funcionando. A força política do nome “Vida Além do Trabalho” reside exatamente aí: pela primeira vez em muito tempo, uma parcela significativa de trabalhadores passou a afirmar publicamente que a vida não pode existir apenas como instrumento de produção.
Movimentos dessa natureza não emergem apenas da indignação social: dependem de condições históricas que tornem possível sua legitimação pública. O VAT nasce da experiência concreta de trabalhadores precarizados, mas encontra ressonância em um contexto político no qual o trabalho volta a ocupar lugar central no debate nacional. O psicanalista Tales Ab’Sáber, ao examinar a singularidade da experiência lulista na cultura política brasileira, identificou nela algo que ultrapassa a dimensão programática: uma forma de endereçamento afetivo ao trabalhador pobre que historicamente não se reconhecia como sujeito de direitos. A valorização do salário-mínimo, a retomada de políticas voltadas à redução da desigualdade e a recolocação da dignidade do trabalhador como tema legítimo da esfera pública não são apenas medidas econômicas — são gestos simbólicos que criam a possibilidade de que certos sofrimentos finalmente encontrem escuta, reconhecimento e tradução institucional.
Esse deslocamento encontrou, em maio de 2026, uma expressão legislativa sem precedentes. A PEC que põe fim à escala 6×1 foi aprovada pela Câmara dos Deputados em dois turnos com placar de 472 votos a favor e apenas 22 contrários — uma das votações mais expressivas da história recente do Congresso em matéria trabalhista. O texto reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, com período de transição, e impõe aos empregadores a obrigação de conceder duas folgas semanais remuneradas. A PEC segue agora para o Senado. Que um movimento nascido de um vídeo gravado por um trabalhador de farmácia indignado com a perda de sua folga tenha chegado até aqui — reorganizando o debate público, constrangendo o Congresso e produzindo uma das maiores vitórias legislativas dos trabalhadores brasileiros em décadas — é algo que dificilmente se explica apenas por estratégia política. Explica-se, sobretudo, porque tocou em algo que o Brasil carregava em silêncio há muito tempo.
A história brasileira foi marcada durante séculos pela naturalização do excesso imposto ao corpo trabalhador. O que começa a se deslocar agora não é apenas uma discussão sobre jornadas de trabalho, mas a própria ideia de quais vidas merecem tempo, descanso, cuidado e futuro. A verdadeira radicalidade do VAT reside em recolocar no centro da cena pública uma pergunta que sociedades profundamente desiguais frequentemente procuram recalcar — quanto vale uma vida para além de sua capacidade de produzir?
Referências
AB’SÁBER, Tales. O lulismo e a crise brasileira. São Paulo: Hedra, 2016.
COSTA, Jurandir Freire. Violência e psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre adultos e crianças (1933). In: Obras completas, v. 4. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: Obras completas, v. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
JAQUES, Elliot. Social systems as a defence against persecutory and depressive anxiety. In: KLEIN, Melanie; HEIMANN, Paula; MONEY-KYRLE, Roger (org.). New directions in psychoanalysis. London: Tavistock, 1955.
KLEIN, Melanie. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides (1946). In: Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
Palavras-chave: trabalho, reconhecimento, subjetividade, sofrimento social, desigualdade estrutural, psicanálise e cultura
Imagem: Reprodução/Instagram
Categoria: Política e Sociedade
Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.
Os ensaios são publicados no site da FEBRAPSI: Psicanálise e Cultura: Observatório Psicanalítico.
https://febrapsi.org/
E no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:
https://www.facebook.com/
No Instagram: @observatorio_psicanalitico
E siga-nos na plataforma Substack
https://substack.com/@
Se você é membro da FEBRAPSI/FEPAL/IPA e se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, inscreva-se no GG (grupo de e-mails, Google Groups) do OP enviando uma mensagem para [email protected]
