Observatório Psicanalítico OP 688/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

O que deu errado?

Daniel Delouya – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

“Israel, o que deu errado?” é o título do livro que o americano de origem israelense, Omer Bartov, especialista em Holocausto e em negacionismo do Holocausto, lançou por ocasião dos 78 anos da criação do Estado de Israel (14/05/1948). Bartov vem sendo celebrado por suas acusações de genocídio em Gaza e, com razão, responsabiliza os Estados Unidos pela sustentação da violência do Estado de Israel e de seu colonialismo anacrônico. Não obstante, aqueles que o aplaudem talvez não tenham se dado conta de que o título do livro — do qual tenho notícias apenas pelas entrevistas com o autor — vai na contramão de muitos slogans e protestos. Israel teria dado errado em relação ao sionismo que motivou o nascimento desse Estado; ou seja, Bartov preserva certa apreciação pelo sionismo, ao contrário de muitos dos que o celebram, que tendem a identificar o sionismo com uma forma nefasta de supremacia colonial branca, racismo ou mesmo nazismo.

Como já ocorreu desde seus primórdios, quando os Protocolos dos Sábios de Sion, difundidos pelo regime russo em 1903, alimentaram a fantasia conspiratória antissemita, persiste a representação do sionismo como complô contra a civilização ocidental.

A palavra “sionismo” (“sionista”) é hoje a mais corrente na boca daqueles que atacam, odeiam, protestam e repudiam Israel, embora, nesses xingamentos, o nome “Israel” quase nunca compareça. O psicanalista não pode ignorar a palavra utilizada, pois, embora exista evidente ignorância acerca da origem e da história do movimento sionista, o inconsciente sabe — e como sabe. O antissionismo visa negar e recusar algo aos judeus; por isso, a palavra mais adequada talvez fosse reconhecer aí uma modalidade de antissemitismo dirigida aparentemente a um Estado, e não diretamente às pessoas. Sei que muitos interromperiam aqui a leitura — e talvez até a amizade comigo —, mas estou disposto a pagar o preço de minha convicção atual, que tentarei expor, para que possa, quem sabe, ser combatida ou desmentida.

O Estado de Israel merece as mais severas reprovações por ocupar e impor-se a outro povo desde 1967; por restringir seus direitos em relação às próprias terras e propriedades; por limitar sua circulação e impedir o retorno a seus lares; por ocupar cerca de 67% dos territórios da Cisjordânia; por tolerar ataques a vilarejos palestinos; e por não aplicar a lei a colonos israelenses que saqueiam propriedades palestinas e provocam mortes entre a população civil sem serem levados a julgamento. Nessa dimensão, o apartheid é visível e nefasto. Quanto à Faixa de Gaza, assistimos a uma deplorável retaliação ao massacre de 7 de outubro de 2023, que culminou em atos genocidas: negação, em certo momento, de provisão de alimentos e medicamentos, deslocamento de população, destruição de centros comunitários — hospitais, escolas, museus e universidades — e a morte de 34.200 civis, em um total de 72 mil mortos. Grande parte de Gaza voltou ainda a ser ocupada. Ademais, prisioneiros políticos são submetidos a maus-tratos, abusos sexuais, fome e tortura.

No setor árabe de Israel, o chamado apartheid é menos acentuado, já que os palestinos gozam de direitos de circulação, acesso às instituições de ensino básico e superior e participação plena no mercado de trabalho, embora persistam discriminações na oferta de serviços médicos, de segurança e outros destinados a seus vilarejos, além de limitações na aquisição de propriedades. Em Jerusalém, a parte anexada da cidade sofre de provisão de água e, desde 1967, a população é obrigada a construir “puxadinhos” em seus terrenos para acomodar as gerações vindouras.

Trata-se de um quadro explosivo, que em nada fica a dever ao colonialismo clássico em sua forma mais cruel. Em suma, estamos diante de um pequeno território de cerca de 15 milhões de habitantes, no qual 7,4 milhões de judeus impõem seu regime aos demais.

Bartov destaca na carta de declaração de independência (parte III) de maio/1948 um dos princípios do projeto sionista que o quadro atual do país o desrespeita de forma flagrante: “O Estado de Israel promoverá o desenvolvimento do país em benefício de todos os seus habitantes; será fundamentado nos princípios da liberdade, da justiça e da paz, à luz da visão dos profetas de Israel; garantirá plena igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus cidadãos, sem distinção de religião, raça ou sexo; assegurará a liberdade de religião, consciência, língua, educação e cultura; preservará os lugares sagrados de todas as religiões; e será fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas.”

Se Israel é considerado culpado à luz de seus próprios princípios fundadores, pergunto-me — tendo acompanhado o desenrolar dessa história desde a infância, em 1967, e observado também os últimos colonialismos franceses no Norte da África — se o desfecho poderia ter sido diferente quando um Estado se impõe sobre outro povo em sua própria terra de origem e dotado de língua e cultura distintas? A raça está em primeira, como afirmei em um ensaio recente publicado pelo OP, seguindo o princípio freudiano de que a primeira identificação, sem investimento, é a de pertencimento a uma espécie, um grupo. Israel tem toda razão, portanto, em alegar ameaça à sua existência física, se pretender manter o status quo. Se não se percebesse ameaçado pelo povo palestino oprimido, isso constituiria uma insanidade. Não surpreende que as ameaças aumentem e as medidas – como as recentes em relação ao Líbano e à Síria -, necessárias, segundo essa lógica, para assegurar um cotidiano viável à população do norte de Israel, implicaram a invasão de 400 km2 do Líbano (5% do seu território), deslocando 20% de sua população, além dos bombardeamentos dos quartéis generais do Hezbollah e gerando muitas vítimas civis.

A questão perturbadora é se os descaminhos de Israel deslegitimam obrigatoriamente o aporte sionista e seu movimento, como tem sido o espírito de nosso tempo. Vou me valer de conhecimentos gerais que venho acumulando ao longo de várias décadas, bem como do acompanhamento do desenrolar desse projeto na Palestina, a partir de historiadores clássicos e contemporâneos — entre estes, os admiráveis historiadores palestinos Walid Khalidi, que nos deixou agora aos 101 anos de idade, e seu ilustre sobrinho Rashid Khalidi, ambos atuantes nas últimas décadas nos Estados Unidos.

Incluo também os conhecidos “novos historiadores” israelenses, que ganharam destaque após a abertura dos arquivos (em 1980) sobre os primórdios do Estado de Israel — Shlomo Sand, Benny Morris, Ilan Pappé e Avi Shlaim (os dois primeiros residentes em Israel e os dois últimos na Inglaterra) —, além de dois importantes especialistas franceses, Henry Laurens e Georges Bensoussan.

O sionismo inscreve-se no desenvolvimento do liberalismo europeu: o advento do Iluminismo no século XVII, o estágio científico — segundo Freud — e o crepúsculo da teocracia cultural, que se refletiu, grosso modo, nas contribuições de filósofos como René Descartes, Baruch Spinoza, Gottfried W. Leibniz, Jean-Jacques Rousseau, John Locke e Denis Diderot, deram lugar àquilo que Horácio qualificou como a coragem de pensar.

A secularização progressiva, que culminou com a emancipação dos povos e sua autodeterminação entre o século XVIII e o início do XIX, ocorreu de modo mais lento entre os judeus, seja pela estreita imbricação entre prática religiosa e identidade histórica, seja pelas perseguições sofridas desde as primeiras cruzadas até o fim da Idade Média.

Convém recordar que, desde o colapso do Segundo Templo, em 70 d.C., na terra de Israel, e a supressão definitiva de sua autonomia política por decisão simbólica do imperador romano Adriano, em 135 d.C. — ao rebatizar a região como Syria Palaestina —, os judeus não deixaram de preservar sua tradição religiosa e sua identidade coletiva. Mantiveram comunidades em expansão e, ao longo dos séculos, converteram parte de seus vizinhos no sul do Levante, na Mesopotâmia, na Península Arábica e até nas regiões do Cáucaso, processo que se prolongou, em determinadas áreas, até o século X (cf. A invenção do povo judaico, de Shlomo Sand).

E essa dinâmica ocorreu mesmo diante da expansão dos árabes e do Islã, desde o século VII e ao longo dos séculos seguintes. Após séculos de presença em diferentes regiões da Europa, sucederam-se grandes expulsões de judeus no auge da teocracia medieval e no contexto das Inquisições: Inglaterra (1290), França (1306 e 1394), Espanha (1492), Portugal (1496–1497), Alemanha (1298, 1348–1349, 1510), Áustria (1421), Lituânia (1495), e em diversos territórios italianos (1541–1593). Essas expulsões alteraram significativamente a distribuição geográfica das comunidades judaicas, ampliando sua concentração no norte da Europa, no Império Russo e no norte da África.

O retorno de judeus a antigos centros europeus intensificou-se a partir do século XVII e estendeu-se até o final do século XIX. Esse panorama é relevante porque, com o advento do Iluminismo e o avanço das ideias de emancipação política, os direitos civis foram concedidos aos judeus na França logo após a Revolução Francesa, porém judeus de outros países da Europa Central os obtiveram somente décadas depois, 60 a 80 anos mais tarde.

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em 1914, cerca de cinco milhões de judeus — aproximadamente 50% da população judaica mundial — viviam ainda sob o Império Russo; cerca de 15% encontravam-se em países de maioria árabe, e o restante distribuía-se entre a Europa Central e as Américas. Note-se que, antes de 1900, a população judaica no Império Russo era ainda mais expressiva. Após o assassinato do czar Alexandre II, em março de 1881, a situação dos judeus — já limitada em termos de direitos civis e de oportunidades econômicas — deteriorou-se de modo acentuado. Eles passaram a ser responsabilizados por crises sociais e pelo próprio atentado, o que desencadeou uma série de pogroms: ataques violentos a aldeias e bairros judaicos, acompanhados de saques, assassinatos e incêndios de propriedades. Antes de 1881, tais episódios eram mais esporádicos e, em geral, severamente reprimidos pelas autoridades imperiais.

Esse contexto contribuiu para as grandes migrações judaicas oriundas do Império Russo, sobretudo em direção às Américas. No início da Primeira Guerra Mundial, já havia mais de dois milhões de imigrantes judeus no continente americano. Paralelamente, desenvolveu-se, na Rússia, ainda antes do sionismo político organizado e fora do quadro emancipatório europeu, o movimento dos Amantes de Sião, que impulsionou, entre 1882 e 1903, a imigração de aproximadamente 25 mil judeus para a Palestina.

A presença judaica na Palestina é documentada desde a destruição do Segundo Templo, em 70 d.C. Existem registros que atestam o uso corrente do hebraico nos escritos da comunidade judaica da Palestina pelo menos até o final do século III. A partir desse período, a comunidade passa progressivamente a utilizar a língua predominante da região, sendo o árabe desde o século VII. Durante séculos, verificaram-se migrações judaicas para a Palestina por razões religiosas, messiânicas e comerciais, processo que se manteve até o período do Mandato Britânico. O anseio de retorno à terra ancestral integra o cotidiano da tradição judaica assim como se inscreve em sua literatura e poesia. Contudo, o retorno entendido como projeto nacional emancipatório adquire nova formulação com os Amantes de Sião. Não se tratava apenas de imigração, mas de uma Aliá, termo que significa “subida”, isto é, retorno à terra de origem.

O movimento sionista político surge posteriormente, no final do século XIX. Seu principal articulador foi Theodor Herzl, um jornalista carismático, profundamente integrado à cultura europeia de seu tempo. Preocupado com o avanço do antissemitismo, especialmente no contexto do nacionalismo europeu do século XIX, Herzl propôs a criação de um Estado para o povo judeu como solução política. Suas capacidades organizacionais permitiram a rápida institucionalização do movimento: após a publicação de O Estado Judeu, realizou-se em 1897 o primeiro Congresso Sionista em Basileia, na Suíça, antes mesmo de sua visita à Palestina. Nesse momento, discutiram-se alternativas territoriais, posteriormente abandonadas em favor da Palestina.

A ideia do sionismo, no contexto do Iluminismo e emancipação europeia, adquire, em Jerusalém, por volta dos anos 1860, um verdadeiro pulso decolonial com a transformação da língua hebraica de uma língua vernacular para uma língua materna. Essa ousadia que parte de intelectuais e religiosos de origem sefardita sobretudo de Marrocos adquire vias institucionais na comunidade, demarcando um desprendimento do regime vigente.

Na Palestina, a ideia de soberania nacional era inexistente no quadro político local. O território encontrava-se sob domínio do Império Otomano desde 1517. Judeus, muçulmanos e cristãos conviviam em relativa harmonia, integrados ao sistema imperial. Linguisticamente, grande parte da população utilizava o árabe. A região não constituía uma entidade política autônoma no sentido moderno. Judeus referiam-se à Terra de Israel, cristãos à Terra Santa, enquanto a maioria muçulmana se identificava com a comunidade dos crentes (a Umma), sendo residentes de Bilad al-Sham (Síria ou Levante). Até o início do século XX, não havia ainda uma consciência nacional palestina propriamente dita.

A reforma constitucional otomana de 1908, com a Revolução dos Jovens Turcos, introduziu maior mobilização política nas províncias árabes. Nesse contexto, setores da elite intelectual passaram a acompanhar mais atentamente o movimento sionista europeu e manifestaram preocupações quanto à venda de terras e às transformações demográficas.

No plano econômico, a abertura do Canal de Suez, em 1869, intensificou a integração da região às rotas comerciais internacionais. Processos de urbanização e transformação fundiária aceleraram-se, acompanhados de grandes fluxos migratórios internos e externos. No início do século XX, a população da região cresceu de aproximadamente 700 mil para cerca de 1,4 milhão de habitantes.

A imigração judaica, desde 1882, representava parcela minoritária desse crescimento demográfico, 50 mil no total. Parte significativa dos imigrantes judeus dedicava-se à agricultura, em consonância com o ideal sionista de retorno à terra e a valorização do trabalho produtivo. Um dos alertas da emergente consciência palestina é que os judeus, proprietários de terras adquiridas, recusam os serviços dos nativos. A libertação do exílio e a conexão com a terra eram princípios sionistas. Essa esquisitice despertou a atenção da elite palestina e os levou a desconfiar do plano sionista.

A colonização judaica em nada lembrava o antigo colonialismo. Os judeus eram poucos dentre no fluxo migratório para a Palestina, não impuseram uma língua de origem, não empregaram os nativos, empobreceram, ao invés de enriquecer e explorar os demais. No entanto, suas tecnologias ocidentais agrícolas foram foco de atração e colaboração.

No contexto das perseguições aos judeus no Império Russo, iniciativas filantrópicas foram criadas para oferecer alternativas de reassentamento agrícola. Entre elas destacou-se a fundação promovida pelo Barão de Hirsch, voltada à colonização agrícola em diferentes regiões do mundo, inclusive na Palestina. Essa iniciativa não era sionista, mas contribuiu para o estabelecimento de assentamentos agrícolas desde o final do século XIX.

No plano internacional, durante a Primeira Guerra Mundial, as potências britânica e francesa buscaram alianças, junto à família hashemita da Arábia, para derrubar o Império Otomano. Nesses pactos a delimitação da Jordânia, 78% do território, cindindo-a de uma Cisjordânia, foi prometida para Abdullah, e a Síria e logo o Iraque para o reino de seu irmão Faisal. A região passou ao controle britânico em 1917, tendo o caráter de Mandato sob a égide da Liga das Nações desde 1922 e em vigor até 14/05/1948.

Quando os britânicos assumiram o controle da Palestina, seus interesses estratégicos, econômicos e políticos já estavam entrelaçados às dinâmicas regionais e às pressões diplomáticas internacionais, inclusive aquelas relacionadas ao movimento sionista. O ambiente político da época também era influenciado por correntes religiosas e ideológicas no Reino Unido e nos Estados Unidos que defendiam o retorno judaico à Palestina, em parte por motivações teológicas e, em certos casos, associadas a perspectivas antijudaicas.

Arthur Balfour, que em novembro de 1917, na qualidade de Secretário de Relações Exteriores, promulgou a declaração que apoiava o estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina, havia sido primeiro-ministro entre 1902 e 1905, período em que negou asilo a refugiados judeus provenientes da Rússia. Seu nome permanece associado a esse documento, que posteriormente integrou o quadro jurídico do Mandato Britânico. Essa declaração é frequentemente considerada um ponto de inflexão no desenvolvimento do conflito israelo-palestino.

A partir da década de 1920, os episódios de violência começam a se intensificar. Convém notar que, nesse período, a comunidade judaica na Palestina consolidava uma estrutura institucional de relevo. Quase todas as instituições modernas foram então estabelecidas ou significativamente desenvolvidas nas áreas da educação — inclusive universitária —, da medicina, da segurança, do sistema bancário, bem como da indústria e do comércio.

Em contraste, a população muçulmana, no contexto de uma consciência palestina emergente, encontrava-se ainda fortemente vinculada a estruturas sociais tradicionais, organizadas em torno de clãs (hamulas), buscando formação e apoio junto a países árabes vizinhos. Paralelamente, estabeleceu-se uma cooperação entre as autoridades britânicas e a comunidade judaica, o que contribuiu para o seu preparo militar e policial. Os jordanianos também receberam apoio semelhante por parte dos britânicos nesse domínio.

Os conflitos entre 1921 e 1939 foram violentos e agudos. Novamente, não se tratava da invasão judaica da Palestina. Mesmo nesse período em que a população dos imigrantes judeus mais cresceu, os registros meticulosos britânicos de 1918 a 1939 mostram que ela recebeu 360 mil imigrantes ao passo que os palestinos receberam 400 mil imigrantes.

Não vou adentrar aqui as propostas da divisão da Palestina, a recusa dos palestinos etc. Os planos desde o início favoreceram a comunidade judaica e grande parte da violência dirigida contra os palestinos vinha dos ingleses como assinala Rashid Khalidi. Entretanto, com a eclosão da Segunda Guerra os ingleses mudaram de lado, impuseram grandes restrições sobre a imigração de judeus e passaram a ser alvo de ataques terroristas judaicos. Como ocorreu a Nakba? Houve um plano intencional de limpeza étnica? Há grande controvérsia em torno disso. Sabemos que a não aceitação da divisão do território fez com que os palestinos mal organizados e mal orientados pelos seus aliados tentassem isolar vilarejos judaicos, atacar e destruir alguns. Os vilarejos israelenses figuraram então um arquipélago em um mar árabe, segundo Henry Laurens, pesquisador nada simpático com a causa sionista. O que alguns interpretam como limpeza étnica deliberada é apresentado aqui como consequência cruel de uma lógica defensiva, voltada à abertura de “caminhos” para garantir contiguidade territorial. Resultou em uma catástrofe, fuga e expulsão de 700 mil palestinos de suas casas.

Recorri a essa longa história e só até 1948, para aventar duas hipóteses sobre a alegação que toda a desastrosa situação atual se deve ao sionismo. Como procurei mostrar, a Palestina estava sob domínio imperial, e o território em questão não constituía então um Estado soberano nem uma nação politicamente constituída nos moldes modernos. Ao contrário, ela estava sujeita a acolher uma quantidade imensa de imigrantes, poucos deles eram judeus e sionistas. Entretanto, os judeus se destacavam pela cultura europeia e pelo projeto que traziam em mãos. Essa polarização cultural e política gerou um desconforto imenso. Novamente, aqui, as pequenas e grandes diferenças identitárias reativam marcadores de pertencimento grupal. Mas existia outro fator religioso importante. O mundo muçulmano jamais aceitaria honrar um Estado judaico soberano e independente em um território que considerava seu. Desde os inícios do Islã, a dhimma era o regime de proteção concedido a judeus e cristãos para que tivessem uma atividade comercial ou outra, porém que os restringia do ponto de vista político.

Era, portanto, inimaginável fazer parte de um Estado que não fosse muçulmano. Esse regime foi cancelado em meados do século XX. Que importava instaurar um Estado ao modo europeu, ao lado de outro, árabe, do Oriente Médio? Teria sido maravilhoso, mas os palestinos se sentiram enganados e injustiçados, com razão. Seria uma possibilidade historicamente desejável, mas não foi o que ocorreu! Foi estupidez não deixarem, depois da Nakba, os palestinos voltarem a seus lares! Ben Gurion errou, e feio. A situação seria outra hoje. Como tenho alegado inúmeras vezes, a “Nakba” israelense foi a guerra de 1967. A vitória deu a deixa para a gana do poder e a uma evolução de um colonialismo anacrônico, cruel.

Assim, o projeto sionista desmoronou, como alega Omer Bartov.

Estou contigo, Omer.

Palavras-chave: Sionismo, Carta de independência, Ocupação, Colonialismo

Imagem: Jenin, Cisjordânia (Ynet)

Categoria: Política e Sociedade

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Tags: Carta de independência | Colonialismo | Ocupação | sionismo
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