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Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Estoy aquí. Copacabana como palco e espelho da mulher latina
Silvana Barros – Sociedade Psicanalítica de Fortaleza (SPFor)
Quando soube que Shakira faria um show em Copacabana, fui tomada pela lembrança das músicas que escutava nos anos 1990. Gostava das suas canções, da mistura de idiomas e sonoridades, da sua performance meio piegas. Ou, para alguns, cafona. Mas não imaginei que, tantos anos depois, ao assistir ao show realizado no Rio, seria tocada pela presença da mulher que escreveu um manifesto amoroso para as mulheres brasileiras.
Apesar da alegria ao recordar os hits da minha juventude e ver a beleza da dança e da miscelânea de ritmos que marcaram sua trajetória, fui atravessada por uma emoção inesperada, uma espécie de identificação.
A sensação era de que Shakira havia tocado o público, causado empatia e levado a multidão ao êxtase. Pessoas choravam gritavam e cantavam alto. Havia ali um reencontro entre a Shakira do passado com a Shakira loba, renovada.
E foi isso que me comoveu naquela noite.
Haveria ali um sofrimento por ser mulher, de ter sido traída, de ter visto sua carreira estagnar e, ainda assim, insistir em seguir, de viver experiências que também eram nossas? Shakira trouxe, no corpo e na voz, experiências que muitas mulheres conhecem intimamente.
Rebatizada de “Lobacabana”, a praia de Copacabana parecia viver uma espécie de suspensão na noite do show. Camelôs vendiam leques, camisetas, pequenos frascos com “lágrimas de Shakira”. No céu, uma loba desenhada por drones anunciava sua chegada. Tudo aquilo poderia facilmente escorregar para o espetáculo excessivo de uma diva da música pop, e talvez, em alguma medida, também fosse, mas havia outra coisa acontecendo ali.
Diante de um país que ainda hesita em se reconhecer latino, vi uma multidão cantar em espanhol, dançar ritmos híbridos, reconhecer-se numa mulher colombiana que insistia em dizer que sua “experiência pessoal era, na verdade, a biografia de toda uma geração de mulheres latinas.”
Ao repetir diversas vezes , “Brasil, eu te amo”, Shakira poderia também nos lembrar que somos parte de uma comunidade afetiva latino-americana, justamente num momento em que discursos nacionalistas e polarizações políticas atravessam a região.
A fala de Shakira sobre ter se tornado provedora, mãe e artista depois da separação produziu, em tantas mulheres, identificação instantânea, porque deu escuta para aquelas que trabalham até a exaustão, sustentam filhos, reinventam a vida depois das ruínas, transformam sofrimento em linguagem. Essas mulheres foram convidadas a dançar e a viver, apesar de tudo.
A cantora colombiana, que se narra, convida à identificação. Ela fala em português, desce do palco para abraçar fãs, parece menos exótica. Sua performance, além de traduzir força, cansaço, raiva e orgulho, se coloca em oposição à misoginia e qualquer outra forma de violência contra a mulher.
Shakira nasceu em Barranquilla, cidade portuária, atravessada por fluxos. Filha de pai com ascendência libanesa, incorpora a dança do ventre à cumbia colombiana, falando, com o corpo e com a voz, muitos idiomas e ritmos.
A passagem para o inglês, no início dos anos 2000, marcou um deslocamento. Para ser ouvida globalmente, foi preciso tornar-SE legível para um outro olhar. Seu corpo, nesse percurso, operou como passaporte e também como prisão. Foi por ele que ela passou a ser reconhecida, mas também objetificada.
Gloria Anzaldúa, escritora e feminista chicana, ao pensar a experiência de mulheres que vivem nas fronteiras culturais, propõe o conceito de “consciência mestiça”, uma forma de subjetividade construída na travessia de fronteiras geográficas, culturais, linguísticas e psíquicas. Há algo dessa consciência na presença de Shakira: um corpo que não pertence inteiramente a um lugar, mas se constrói no entre.
A performance de Shakira me lembrou esse feminismo decolonial, não um feminismo eurocentrado. Quando Shakira afirma que “as mulheres latinas mudaram”, ela tenta nomear uma passagem. Durante décadas, diz ela, fomos retratadas como silenciosas, submissas, devotadas, donas de corpos sedutores que rebolam para encantar os homens.
Talvez resida aí uma dimensão interessante do movimento de Shakira hoje. Não a recusa da cena, mas a tentativa de deslocar o lugar historicamente reservado à mulher latina: de corpo exótico a sujeito de enunciação da própria experiência.
Estaria Shakira buscando inscrever, por meio desse movimento, uma atitude decolonial? Há uma intenção de deslocar o imaginário da mulher latina para além do exotismo e da sedução?
Demoramos a perceber que a força de Shakira não estava apenas na dança. Seu corpo, claro, sempre foi central. Desde muito jovem, foi por ele que o mundo a reconheceu. Os quadris que “não mentem”, a dança do ventre misturada à cumbia, a sensualidade explorada pela indústria musical. Durante muito tempo, parecia que o mundo sabia mais sobre como Shakira se movia do que sobre o que ela dizia.
E talvez seja justamente aí que algo tenha começado a mudar. Não escutei apenas uma frase de efeito. Assisti uma tentativa, ainda imperfeita, talvez por estar capturada pelo próprio mercado, de nomear uma transformação real.
Palavras-chave : Shakira, mulher latina, subjetividade feminina, Gloria Anzaldúa, feminismo decolonial
Imagem: foto de Shakira postada no perfil centralshakira do Instagram
Categoria: Cultura; Política e Sociedade
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