Observatório Psicanalítico OP 685/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Primeiro de Maio: trabalho, memória e impasses da democracia

Ney Marinho – Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ)

Querida Beth e demais curadoras deste nosso OP,

Liguei há pouco para a Beth por sentir falta de algum ensaio sobre o Primeiro de Maio.

Não tenho mais a agilidade e a competência para escrever sobre uma data que me toca tanto, como acredito que toque a muitos de nós, que acreditávamos na possibilidade de um mundo diferente. Contudo, estou lúcido o suficiente para lembrar que os estertores da ditadura ocorreram num Primeiro de Maio, no RioCentro, onde jovens se reuniam para ouvir Chico Buarque e outros cancioneiros da democracia, em 1981, anunciando dias melhores. Houve o famoso atentado, que sacrificou um de seus executores, mas poupou os mandantes!

Hoje assistimos às manobras parlamentares para anistiar os defensores da ditadura e confrontar aqueles que defendem uma real democracia. Um dos maiores dramas de nosso país é que as classes dominantes – filhas da escravidão e do latifúndio – nunca aceitaram a democracia. Daí a falsa ideia de uma polarização! Pois não faz sentido que uma das maiores economias do mundo permita tanta desigualdade e discussões extemporâneas (como a escala 6×1, resquício da escravidão), ou condições sociais que caracterizam a existência de pelo menos duas classes: as que têm direito a todas as benesses do século XXI e as que podem sofrer as violências do Estado (ou de grupos organizados – crime) sem queixas.

Tudo isto é triste e revela o nosso Brasil!

Mas a questão do trabalho é universal.

A psicanálise tem estudado pouco o tema, embora vejamos cotidianamente, em nossos consultórios, como é difícil para muitas pessoas poder trabalhar e exercer sua criatividade.

Gostaria de terminar com uma citação de Elliott Jaques, que conclui seu clássico texto (Disturbances in the Capacity to Work) com uma frase lapidar, em nossa tradução livre: “Trabalhar – especialmente como um meio de vida – é uma atividade fundamental para a pessoa testar e fortalecer sua sanidade” (IJP, v. 41, 1960).

Se desejarem, reproduzo a poesia (publicada no OP 241/2021, que agora novamente transcrevo) — na verdade, uma leve prosa com ares de poesia — que escrevi para meus sobrinhos-netos, filhos de meu irmão, também companheiro das lutas socialistas, ao voltar de um domingo de sol pela bela orla carioca (do Leblon ao Arpoador), com alegria e tristeza, sentimentos que aprendi a acolher e que se reúnem numa palavra muito própria nossa: saudade.

Aqui vai, com o carinho de sempre para todas,

Ney

PRIMEIRO DE MAIO

Ao Joãozinho e sua linda irmã Ana Luiza

Primeiro de Maio

Primeiro de Abril

Conto do vigário

De um calendário

Que um dia existiu.

Onde encontrar

Aquele ponto vermelho,

Entre papéis espalhados,

Esperanças perdidas,

A juventude sofrida,

E os amigos esquecidos

Num passado recente,

Que está tão distante.

A moça faz jogging,

Os peitos empinados,

Quadris colocados,

Barriga encolhida.

Gazela perdida

Entre a areia

E o asfalto.

O menino pedala,

Com determinação,

Entre patins e skates,

Seu audaz velocípede,

Sem rumo ou destino,

Como sigo puxando-puxado,

Na contramão,

Com a Nega Fulô.

Ó Fulô… Ó Fulô…

Ah! Foi você que roubou…

O sol escaldante

Traz versos-cantigas,

Músicas longínquas…

Neste domingo bissexto,

Fora de tempo e lugar.

O que será que mudou?

O sol de outono

Convida ao sono,

Ao esquecimento

Do que volta nos sonhos.

Primeiro de Maio,

Perdido… num enlouquecido

Calendário,

Entre os idos

De março

E o início,

Galhofeiro,

De abril.

Primeiro de Maio.

É apenas a saudade

Do que nunca existiu.

Ney – 01/05/2000

OBS.: Joãozinho e Ana Luiza são meus sobrinhos-netos. Nega Fulô já faleceu, e minha companheira agora é Pagú (homenagem a Patrícia Galvão, musa da Semana de Arte Moderna e militante comunista).

Palavras-chave: trabalho, democracia, desigualdades, memória, laço social

Imagem: Foto de Joao Roberto Ripper

Categoria: Política e Sociedade

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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Tags: democracia | desigualdades | laço social | Memória | Trabalho
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