Observatório Psicanalítico Editorial  abril/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Sódepois 72 / Abril/2026

No Brasil, o AI-5, o mais violento instrumento institucional da ditadura militar, entrava em vigor. No mundo, Estados Unidos e União Soviética travavam uma batalha tecnológica e ideológica durante a Guerra Fria que culminou na ida de três homens à lua.  

Nesse contexto, Caetano Veloso e Gilberto Gil tornaram-se presos políticos. Algumas horas depois do encarceramento, a cápsula norte-americana pousou no oceano Pacífico com as primeiras imagens de nosso planeta. Ao avistar as tais fotografias, Caetano escreveu: “Eu sou um leão de fogo. Sem ti me consumiria. A mim mesmo eternamente. E de nada valeria. Acontecer de eu ser gente. E gente é outra alegria. Diferente das estrelas.”

Trinta anos depois, Caetano contou que, ao compor a música Terra, “considerava a ironia da minha situação: preso numa cela mínima, admirava as imagens do planeta inteiro, visto do amplo espaço”. O músico, assim, possivelmente remetia-se à fragilidade e, ao mesmo tempo, à beleza de ser gente diante da vastidão infinita do universo. 

A imagem da Terra completa, inteira, fez Caetano Veloso cantarolar que estava apaixonado. E após 57 anos, neste mês de abril, fotografias dela voltaram a nos encantar em meio a duras adversidades.

Porém, o que mais nos fascina é a capacidade humana de, apesar da dor e da angústia, compor uma canção. É a contínua disposição para o assombro, mesmo diante de um cotidiano traumático, aterrorizante e caótico. Apesar de restrito em uma pequena cela ao enfrentar a assustadora ditadura militar, Caetano permaneceu aberto e receptivo à experiência emocional. Com sua música, o compositor driblou a censura e presenteou-nos com alguma possibilidade de elaboração do que ocorria. 

E é resgatando a potência da arte que alguns ensaios desse mês surgiram. 

Tocada pelo curta-metragem “Perdoai-nos as nossas ofensas”, inspirado nos programas de extermínio conduzidos pelo nazismo contra pessoas com deficiência, Marta Meneghello Müller Stumpf (SBPdePA) escreveu “Patologização do autismo e a lógica de ‘prevenção do espectro'” (OP 677/2026). Ela citou o programa Aktion T4, que assassinou mais de 200 mil pessoas, entre elas crianças, por causa de classificações sobre quem era considerado tratável. Marta, com seu texto, defendeu a sustentação da diferença na clínica psicanalítica como fundamento ético, e pontuou: “É inaceitável a circulação, cada vez mais frequente, de enunciados que falam em ‘risco de autismo’, sobretudo na primeira infância. Sob a aparência de cuidado, tais formulações sustentam uma lógica capacitista que reduz a complexidade da constituição subjetiva a um ideal normativo de desenvolvimento.”

É também a partir de um filme, dessa vez o longa argentino “Parque Lezama” (2026) que retrata a amizade entre dois idosos, um ex-militante comunista (Luis Brandoni) e um homem conformista (Eduardo Blanco), que Eliane de Andrade (SPRJ) escreveu o homônimo ensaio “Parque Lezama” (OP 682/2026). Diante das dificuldades do envelhecimento, Eliane refletiu: “A velhice nos coloca frágeis corporalmente, mas nem sempre psiquicamente. E sempre há alguma pitada de sabor em alguns funcionamentos … criativos! Viva a fantasia que pode nos criar sempre grandes histórias da nossa inquebrantável valentia!” 

Por sua vez, Lígia Bruni Queiroz (SBPSP) escreveu o ensaio “Pai Mãe Irmã Irmão” (OP 683/2026), a partir do longa-metragem homônimo, que entrelaça três histórias de filhos adultos e seus pais. Ao acompanhar essas tramas, a autora sugeriu que o filme faz emergir “no telespectador uma narrativa identificatória, talvez pela distância inescapável entre nós e nossos filhos ou entre nós e nossos pais, que é percorrida por silêncios, ressentimentos e segredos”.

E em seu ensaio “Dentro de nós: o infinito” (OP 678/2026), Rafaela Degani (SBPdePA) traça um percurso que parte da obra “Alexandre, o Grande” (Martin e Blackwell, 2012), passa por “O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo” (Irene Vallejo, 2022) e pela exposição “Eu sou o outro do outro” (Es Devlin, 2026), até alcançar a celebração dos 14 anos da revista Calibán. Nesse trajeto, Rafaela sublinhou a importância do caminho percorrido e afirmou: “Quando tudo parece empurrar para o fechamento, para identidades rígidas e puras (como se isso existisse), para certezas impermeáveis, ler, ver, escutar, viajar torna-se um jeito de renovar a esperança na humanidade.”

Se, nos ensaios mencionados, a arte aparece como via de elaboração da dor, da diferença e da finitude, ela também nos convoca a olhar para os desafios do presente em que o laço social se encontra esgarçado por formas explícitas de violência. 

O mês de abril também foi marcado por derrotas para o povo brasileiro. Pela primeira vez desde 1894, o Senado rejeitou uma indicação para o Supremo Tribunal Federal. Paralelamente, o Congresso Nacional promoveu mudanças na dosimetria das penas aplicadas aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, medida que pode resultar na redução das punições. Tal movimento pode ser entendido como um retrocesso político, jurídico e histórico, ao mesmo tempo em que salienta que a democracia brasileira continua sob risco. O risco de um golpe, afinal, ainda está em jogo.

É dessa forma que os escândalos contemporâneos, como o recente caso envolvendo o Banco Master, ganham relevo. Neles, podemos reconhecer o que Marion Minerbo descreve como a passagem da corrupção do plano individual para o institucional: não se trata apenas de desvios pontuais, mas de uma “demissão psíquica” daqueles que deveriam sustentar a lei. Quando figuras investidas de autoridade deixam de encarnar os valores da instituição, a própria ideia de justiça se esvazia, e a corrupção deixa de ser exceção para se tornar modo de funcionamento.

E é nesse ponto que nos dirigimos para o campo da polis, interrogando o lugar da psicanálise diante das forças que operam apagamentos, silenciamentos e extermínios, especialmente quando o poder social se exerce sob a forma de misoginia, feminicídio, transfobia e ódio às diferenças. 

Partindo da recente leitura pública de um manifesto de psicanalistas contra o feminicídio e uma mobilização em torno de uma petição que convoca colegas a se posicionarem publicamente diante dessa violência, o podcast Mirante lançou o episódio “Apagamentos e feminicídios”, com Rosane Pereira (Association Espace Analytique de Paris e Associação Projeto Gradiva) e Gizela Turkiewicz (SBPSP). Nosso intuito foi aprofundar o debate sobre as relações de poder entre homens e mulheres ao recolocar as questões: haveria ainda lugar para uma psicanálise que se pretenda alheia à devastação do laço social? Ou seria justamente nesse ponto que sua responsabilidade ética mais se acentua?

Ainda pensando sobre a responsabilidade da psicanálise diante da violência no laço social, questionamo-nos sobre os fundamentos de uma formação psicanalítica. Afinal, não se trata apenas de tomar posição no debate público, mas de sustentar, na clínica e nas instituições, uma escuta que não compactue com lógicas normativas e segregadoras. Como se transmite uma prática que se pretende ética?

O ensaio “Formação psicanalítica e profissionalização: autonomia, transmissão e responsabilidade social” (OP 679/2026) de Renata Bittencourt e Sylvain Levy (SPBsb) sustentou que “A psicanálise não se sustenta por garantias externas. É nessa tensão, que lhe é constitutiva, que se inscreve sua responsabilidade social. Sustentar essa posição exige tornar visíveis, no próprio campo, as condições de sua transmissão e as exigências que orientam a formação do analista. Supõe, ainda, oferecer à população referências que permitam distinguir percursos formativos em sua consistência e responsabilidade. Afirma-se, assim, a especificidade da formação analítica não pela via da normatização, mas pela clareza de seus princípios e pela seriedade de seus dispositivos. É nesse equilíbrio, sempre instável, que a psicanálise pode permanecer fiel à sua lógica sem renunciar às condições de sua presença no laço social.”

Já no ensaio “Psicanálise, técnica ou ética?” (OP 680/2026), Maria Eliana de Rezende Barbosa Mello (SPRJ) trouxe os ensinamentos de Lacan e lembrou que “a ética própria da psicanálise não é a ética do bem-estar, da adaptação e da felicidade, mas a ética do desejo. Ou seja, a direção da cura não visa a um ideal normativo, mas, sim, ao encontro do sujeito com a sua própria verdade.”

Neste mês de abril, celebramos nove anos de existência do nosso Observatório Psicanalítico, espaço que acolhe uma pluralidade de vozes diante dos acontecimentos sociopolíticos contemporâneos. Para marcar a ocasião, retomamos o nosso gesto inaugural ao republicar o primeiro ensaio, “Barbárie, terrorismo e paranoia – excertos” (OP 01/2017), do saudoso Roosevelt Cassorla (SBPSP), em “9 anos de OP: o ensaio inaugural e sua atualidade” (OP 684/2026). 

Em seu texto, Cassorla, ao pensar a barbárie para além de suas manifestações mais evidentes, nos lançou uma provocação: “Temos que participar da Política, no sentido de organização da convivência na Pólis. Como cidadãos, psicanalistas ou não”. Com esse estímulo, temos nos dirigido ao presente, marcado pela radicalização e pela fragilização do laço social, e tencionamos refletir sobre o lugar da psicanálise na sustentação da possibilidade de pensar.

Roosevelt Cassorla foi um psicanalista cuja obra foi marcada pelo rigor clínico e pela sensibilidade ao campo social ao pensar os fenômenos coletivos de seu tempo, como a barbárie, o fanatismo e os impasses da civilização. Homenageando-o, Carmen C. Mion (SBPSP) teceu reflexões acerca de sua última obra em “Comentário sobre o livro póstumo de Roosevelt Cassorla ‘Fanatismo, negacionismo, mentira'” (OP 681/2026), e disse: “A meu ver, este livro adquire a dimensão de um legado. Não para alcançar causalidades lineares ou circulares, como ele bem alerta, mas com a finalidade de ampliar o campo de investigação do psicanalista”. 

Finalizamos o nosso Editorial firmando nosso compromisso de sustentar uma escuta e uma escrita que não cedam à indiferença, à exclusão, nem à violência. Se a psicanálise insiste em dar lugar ao que escapa, que continuemos a preservar a possibilidade de diferença, de alteridade e de criação, mesmo quando tudo aponta para o fechamento. Talvez nossa tarefa seja não apenas testemunhar o nosso tempo, mas sustentar, nele, as condições para o grande acontecimento de, como nos diria Caetano, ser gente.

Boa leitura,

Abraço afetuoso da equipe de Curadoria

Beth Mori (SPBsb), coordenadora

Ana Carolina Alcici (SPRJ)

Ana Valeska Maia (SPFOR)

Cris Takata (SBPSP)

Gabriela Seben (SBPdePA)

Giuliana Chiapin (SBPdePA)

Lina Schlachter Castro (SPFOR)

Palavras-chave: Mulheres, violência, relações de poder, Tanatus e Eros

Imagem: O patriotismo cego? Uma nova escultura apareceu misteriosamente no bairro no bairro de St. James, em Westminster, Londres, no dia 30/04/2026. Um homem saindo de um pedestal com o rosto encoberto por uma bandeira esvoaçante. Banksy publicou em seu Instagram um vídeo mostrando como a obra foi instalada. A assinatura do artista está gravada no próprio pedestal. Conhecido por obras de forte crítica política, Banksy começou sua carreira pichando muros em Bristol e se tornou um dos artistas mais famosos e misteriosos do mundo. Sua identidade nunca foi confirmada. (BBC Brasil)

Categoria: Editorial

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da Febrapsi.

Os ensaios são postados no site da Febrapsi. Psicanálise e Cultura: Observatório Psicanalítico.

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Categoria: Editoriais
Tags: mulheres | relações de poder | Tanatus e Eros | violência
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