
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
9 anos de OP: o ensaio inaugural e sua atualidade
Equipe de Curadoria
Ao completar 9 anos de existência, o Observatório Psicanalítico Febrapsi (OP) retoma seu gesto inaugural.
Em abril de 2017, no contexto de um mundo atravessado por violências extremas e pelo impacto recente de um atentado terrorista em Londres, a Febrapsi lançava o OP como uma aposta: a de que a psicanálise, em diálogo com outros campos do saber, poderia contribuir para a elaboração dos acontecimentos que atravessam a vida coletiva.
Roosevelt Cassorla foi então convidado a oferecer seu olhar sobre aquele momento. Seu ensaio, publicado como o primeiro do Observatório, não apenas respondia a um fato específico, mas delineava algo que se tornaria constitutivo do próprio OP: a tentativa de pensar a barbárie para além de suas manifestações mais evidentes, interrogando os modos pelos quais ela se infiltra na vida psíquica, nas massas e nas formas de organização social.
Ao republicarmos hoje este texto, além de ser um gesto comemorativo, trata-se de recolocá-lo em circulação como um pensamento que permanece atual diante das formas contemporâneas de radicalização, polarização, negacionismo e destruição do laço social.
Se, como propõe o próprio Observatório, trabalhamos sempre “só depois” dos acontecimentos, é porque reconhecemos que eles insistem, retornam e se reconfiguram. Retomar este ensaio é, portanto, também uma forma de interrogar o presente: o que, desses modos de funcionamento da barbárie, continua operando entre nós? E que lugar pode ocupar a psicanálise, em articulação com a polis, na tarefa de sustentar a possibilidade de pensar?
É com essas questões que revisitamos hoje este texto inaugural.
OP 02/2017 – Barbárie, Terrorismo e Paranóia – Excertos
Roosevelt Cassorla
Imposição sutil de ataques à capacidade de pensar e viver também constituem barbáries. Recrutam-se corações e mentes pela propaganda. Os não conquistados serão Inimigos. O suposto Justo luta pela Verdade, e a Verdade é Única. Inimigos são Maus porque não aceitam a Verdade e atacam o Justo. O Justo é Iluminado e quem o rotula como Paranoico é Mau. O Iluminado, como Schreber, faz parte da Divindade, religião, ideologia, partido. O paranoico Schreber e os Iluminados comandam mentes, espaços e tempos. A Massa é estupidificada, conjunto de seguidores que viverão no Céu, a Causa. Os Inimigos devem ser torturados num inferno eterno, na vida e no pós-morte
Schreber, Stalin, Hitler eram ameaçados pelos Maus. Imensos sistemas de espionagem buscam eliminá-los. Maus podem infiltrar-se e corromper os Iluminados. Todos são traidores em potencial. Quando as almas o atacam, Schreber as devora e elas passam a fazer parte dele mesmo. O poder de Schreber, assim como o poder político “se nutre da massa e (…) é composto por ela” (Canetti, 1960).
O nazista, o fundamentalista, se sentem, como Deuses, com poder infinito. Não têm necessidades – elas são supridas pela massa divina da qual fazem parte. O terrorista não teme a morte, e a deseja como suicida. No Reino dos Céus será tratado como herói, fundido a Deus, numa bem-aventurança eterna.
Os nervos de Schreber são purificados antes de se unirem a Deus. Os inimigos são purificados através do fogo: fogueiras inquisitoriais, câmaras de gás, bombas, incêndios, destruições de cidades e colheitas. Após a aniquilação a alma é liberada. Melhor queimar os mortos que enterrá-los – as valas poderão ser descobertas e os mortos lembrados. Pode-se purificar a própria História, contada como convém.
O paradoxo: há que noticiar, na TV, a eliminação de Maus. O terror deve atingir a Massa indiferente, porque não existem inocentes. Matar indiscriminadamente, explodir prédios e metrôs, bombas iluminadas, decapitações. Nunca cessar a propaganda que estupidifica as massas ou as mantêm aterrorizadas. A Causa é superior à vida de uma, algumas ou muitas pessoas. Fuzilados por Stalin o homenageavam antes de morrer, impregnados pela Causa, compreendendo o erro “involuntário” do Líder.
O paranoico projeta a Morte (que o aterroriza) no Inimigo. O terror será substituído pela conquista do poder Infinito. Como o Inimigo é bárbaro, há que ser mais bárbaro que ele. Por isso tudo se justifica. As fantasias de fim de mundo de Schreber decorrem da certeza que as almas, ao serem atraídas, colocam em perigo as estrelas de onde provêm. Elas podem dissolver-se. Schreber será o único sobrevivente num campo cheio de cadáveres – o sonho dos ditadores.
O Bárbaro, o Justo, não tem interesse pela psicanálise, a não ser como Inimiga. Em relação à Barbárie como fenômeno envolvendo multidões, nossa psicanálise não é potente, ainda que possamos compreender algo, desde que nos juntemos a outras disciplinas. Temos que participar da Política, no sentido de organização da convivência na Polis. Como cidadãos, psicanalistas ou não.
Palavras-chave: barbárie, paranoia, terrorismo, polarização
Imagem: Roosevelt Cassorla
Categoria: Homenagem; Política e Sociedade
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