Observatório Psicanalítico OP 683/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Pai Mãe Irmã Irmão.

Ligia Bruni Queiroz – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

Não resisto à escrita sobre o filme “Pai Mãe Irmã Irmão”, dirigido pelo cineasta estadunidense Jim Jarmusch. O longa se passa em três atos, três histórias ou três curtas e explora as relações familiares justamente por meio do que não é contado, mas através do silêncio, dos constrangimentos, do insondável da trama entre pais e filhos.

“Spooky”(1 ) é a música de abertura, não na famosa versão gravada por Dusty Springfield em 1968, mas uma outra, arranjada pelo próprio Jarmusch em parceria com a cantora Anika. Reinterpretação minimalista, cuja presença marcante do baixo é responsável pela atmosfera sombria e melancólica, característica da trilha sonora que acompanha a obra.

“Pai” é o primeiro ato. Os irmãos bem-sucedidos Jeff e Emily, interpretados por Adam Driver e Mayim Bialik, visitam o pai viúvo, Tom Waits, figura aparentemente distante e misteriosa, que habita uma velha e isolada casa de campo à beira de um lago em Nova Jersey. A triangulação familiar tem início no glamouroso carro, que percorre a estrada recoberta de neve, onde se trava a disputa pelo amor paterno, revelada no esparso diálogo entre Jeff e Emily: quem deu dinheiro em que momento, quem não deu, quem se manteve firme no pacto de vingança pelos precários cuidados paternos. O que encontram ao chegarem até ele é uma constrangedora falta de intimidade. O pai é um estranho, o Unheimliche freudiano(2) que os mantém como crianças nas imagens dos porta-retratos.

Alguns acontecimentos nonsense irrompem da tela, como skatistas transitando na pista em câmera lenta, o ruído insistente da água gotejando pela torneira da pia da cozinha. A presença de elementos banais no diálogo, entre eles a coincidência da cor da roupa – os três trajavam peças de roupa roxo-avermelhada –, a conversa em torno da água que bebiam e brindavam, a surpresa pela descoberta do relógio Rolex no punho do pai, aspectos a princípio desconexos, que, ao se repetirem nas próximas histórias, ganham um sentido de conexão. A repetição desses elementos nos três curtas simboliza algum tipo de permanência, uma espécie de registro que se transmite em múltiplas camadas: como elo ou fio condutor entre as histórias; como herança entre pais e filhos; como pretensão de universalidade entre distintas famílias, já que os três atos se passam em diferentes cidades do mundo ocidental, Nova Jersey, Dublin e Paris.

A atmosfera é enigmática e sombria: quem é o pai? Quem são os filhos? A aproximação com a triangulação edípica, pai, filho e filha revela as disputas pela demanda de amor. Há tensão e rivalidade na troca de olhares entre Jeff e Emily, o pai declara a predileção por Jeff e é ele quem o presenteia com dinheiro e bons produtos de supermercado, moeda de troca pelo sentimento de culpa diante do amor paterno.

O filme produz no telespectador uma narrativa identificatória, talvez pela distância inescapável entre nós e nossos filhos ou entre nós e nossos pais, que é percorrida por silêncios, ressentimentos e segredos.

A cena final do primeiro curta surpreende ao revelar um duplo: o pai em plena vida sexual ativa, à margem da consciência dos filhos.

“Bob’s your uncle”, expressão inglesa presente nos três capítulos e que significa: “pronto”, “é isso”!

“Mãe”. O segundo ato se passa em Dublin e conta com a atuação de Charlotte Rampling no papel da mãe, uma escritora bem-sucedida, e as filhas Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps). Tim e Lil visitam a mãe para o chá da tarde, encontro anual na agenda das três. Tim é a mais velha, chega contida e envergonhada pelo velho carro que quebra no caminho. A caçula é a filha descolada, mas que não consegue assumir a orientação sexual, disfarçando a namorada de motorista de Uber ao desembarcar em frente à residência materna.

A casa é impecável, há flores por todos os lados. O silêncio e a superficialidade permeiam o encontro. Mentiras preenchem o vazio e o clichê é o acento na comunicação entre elas. Filhas com percursos de vida distintos tentando disfarçar a sensação de fracasso pessoal e profissional diante do ideal materno.

O vermelho ocupa um elemento central nas vestimentas, nas blusas das filhas, no vestido da mãe, denotando o laço familiar, de sangue, que corre pelas estradas-artérias da narrativa. Há também detalhes em rosa presentes nas roupas de todas elas e na cor do cabelo de Lilith, essa coincidência estranha e familiar.

Os skatistas transitam pela rua, em câmera lenta, na cena do carro quebrado de Tim. O ruído repetitivo é do relógio de parede e a discussão sobre a água fervida para o chá ganha estatuto de disputa de saberes entre as irmãs: Lil discorre sobre a contaminação da água de torneira, motivo pelo qual compra somente garrafas da Escandinávia, ao passo que Tim não se importa com essas bobagens. O Rolex falso pertence à Lilith. A câmera apreende a tensão entre mãe e filhas e revela os laços tolhidos de liberdade a partir dos gestos travados de Tim, sob a austeridade do olhar materno.

Sete minutos e um abismo entre elas. Tempo para a chegada do Uber de Lil. As três mulheres em pé, caladas, aguardando no hall de entrada. Sete minutos de uma constrangedora espera que relógio nenhum dá conta de aliviar.

“Irmã. Irmão”. O terceiro e último ato é vivido pelos irmãos gêmeos Billy (Luka Sabbat) e Skye (Indya Moore) e é uma espécie de reparação aos dois primeiros. Os silêncios são entrecortados por diálogos de ternura, revelando um laço fraterno capaz de sobrepujar as rivalidades e disputas pelo amor parental. Os irmãos se reencontram em Paris para a despedida do apartamento onde viveram na infância após a morte dos pais, vítimas de um suspeito acidente aéreo. Neste curta, a relação triangular se dá entre os irmãos e a própria casa, como se ela fosse um personagem, um narrador da história familiar, à semelhança de “Valor Sentimental”, filme norueguês dirigido por Joachim Trier, que também trata das complexas relações familiares. A cena dos irmãos adentrando o apartamento vazio e suas imagens refletidas no espelho, preenchendo os cômodos, é de uma beleza sutil, evocando a dimensão tempo-espaço da narrativa no duplo registro simbólico: os gêmeos espelhados.

Neste ato, os objetos dos pais representam em si mesmos o paradoxo da narrativa familiar: conservam a memória e são guardiões daquilo que não foi possível transmitir por meio da história, revelando as lacunas sobre o mito de origem de Billy e Skye. Caixas fechadas desde os tempos dos avós representam o enigma geracional ou a noção de traumático, aquilo que não se inscreve e não cessa de não se inscrever.

Billy se ocupou gentilmente de esvaziar o apartamento e guardar os móveis e as caixas no depósito. Sobraram algumas fotos, os desenhos de quando eram crianças, os óculos escuros da mãe e o relógio Rolex do pai, que ele fortuitamente não portava no momento do acidente. A mãe era uma mulher branca, e o pai, um homem negro, como se vê nas fotos. A certidão de casamento é falsa, assim como os múltiplos documentos de identidade. É só o que se sabe sobre eles.

Os gêmeos aninhados no chão da casa vazia, o silêncio e as lacunas preenchem a cena, conduzindo o telespectador a um corredor de ausências. É por meio da repetição dos elementos das três histórias que os personagens criam algum lastro de pertencimento ao longa-metragem. A blusa vermelha de Skye e o lenço vermelho pendurado nos dreads de Billy. Os skatistas transitando em câmera lenta pelas ruas de Paris. A água que acompanha o café servido aos irmãos na cafeteria. Aqui, a “água é como remédio”, termo mencionado pela amiga indígena de Billy, evocando a água como fluidez da vida.

Quando Skye encontra no porta-luvas do carro a fita com a música preferida da mãe, transparece a cumplicidade fraterna. A música é Spooky, agora na famosa versão de Dusty Springfield.

Bob’s your uncle!

NOTAS:

1. “Spooky” foi composta por Buddy Buie, Harry Middlebrooks Jr., James B. Cobb Jr. e Mike Shapiro.As versões mais conhecidas são dos Classics IV (1967) ou de Dusty Springfield (1968).

2. O texto de Freud “Das Unheimliche” é publicado em 1919, em interlocução com o campo da estética.

Palavras-chave: Resenha, Cinema, Jarmusch, Relações Familiares.

Imagem: Foto-Divulgação do Filme

Categoria: Cultura

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

Os ensaios são postados no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:

https://www.facebook.com/share/p/18EryK9Yn5/?mibextid=wwXIfr

No Instagram: @observatorio_psicanalitico

E segue-nos na plataforma Substack

https://substack.com/@observatoriopsicanalitico?utm_campaign=profile&utm_medium=profile-page

Se você é membro da FEBRAPSI/FEPAL/IPA e se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, inscreva-se no GG (grupo de e-mails) do OP enviando uma mensagem para [email protected]

Categoria: Cultura
Tags: Cinema | Jarmusch | Relações Familiares | Resenha
Share This