Observatório Psicanalítico OP 682/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Parque Lezama

Eliane de Andrade – Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ)

Descobrir um filme em uma plataforma é sempre uma experiência inusitada. É muito diferente de ir a um cinema, entrar em uma sala escura e se entregar à fruição de uma história.

As plataformas lhe dão o conforto da sua casa, o poder de interromper a projeção, a sensação de ser dona da exibição. Escolher os títulos nas plataformas sem prévia informação é uma experiência que tanto oferece a sensação de roleta-russa quanto a de ser um exímio chofer de dedo verde!

Parque Lezama entra, para mim, neste segundo grupo. Eu já tinha visto o título algumas vezes, mas nunca tinha me interessado. Um dia, resolvi checar. E … surpresa! Que belo filme!

Baseado na peça teatral de Herb Gardner e dirigido por Juan José Campanella, o mesmo do impressionante “O segredo dos seus olhos”, é um filme necessário para se entender em que mundo vivemos. E como estamos vazios e abandonados de ideias sobre o outro!

Encenado pelos excelentes Eduardo Blanco e Luis Brandoni, é mais que um filme: é uma experiência de vida.

Começa nos contando que a história a ser narrada é uma história universal ocidental. A música de fundo faz menção a algo singelo…

São dois senhores idosos, em uma praça de Buenos Aires. Com a indumentária que se faz obrigatória, a elegância portenha. A praça leva o nome do escritor, poeta e ensaísta cubano José Lezama Lima.

Logo no início, ficamos sabendo que o personagem de Eduardo Blanco, é o mais atirado, mais fantasioso, mas também mais cheio de avaliações sobre a vida. Logo de início, nos informa que tem conhecimentos de biologia e psicanálise: “Que sábia é a natureza, que faz algo tão vulgar como eliminar resíduos possa ser tão prazeroso”, diz ele ao personagem de Luis Brandoni, ao voltar de uma descarga urinária. O outro se mostra irritado, esperando sempre ser interrompido em sua leitura, mas nos informando que já conhece as artimanhas do companheiro de praça. E o personagem de Eduardo Blanco acrescenta que o prazer mictório o faz pensar que a lenda de Deus pode ser verdade!

A história começa a se desenrolar, sendo o primeiro personagem aquele que sustenta a continuidade da narrativa. E o faz com talentos de Sherazade: nada tem uma lógica finita, mas tudo pode acontecer no seu reino de fantasia.

O segundo personagem, embora proteste contra a submissão feminina aos encantos do primeiro, está francamente apaixonado e dependente do romance proposto pela vivacidade inesgotável do outro.

E a história segue: o primeiro seria um agente secreto, com apenas um primeiro nome diferente do seu, e que tem que procurar a obra social dos espiões. O outro se enfurece, pois sabe perfeitamente que são lorotas, mas estas dão a possibilidade existencial de também ter um papel: o de quem busca a verdade, mas usando as artimanhas da época da juventude. Assim ele faz o seu “protesto masculino”, embora se entregue cada vez mais às mãos do primeiro.

A história do segundo personagem é a de quem é real. Quer parar a fantasia do primeiro, quer lutar com ele, mas já é ele mesmo quem faz um outro personagem, também cheio de fantasias de poder (boxeador, caldeireiro), que o primeiro finge acreditar também.

O que nos chama a atenção são as tiradas políticas do primeiro personagem. Quando o segundo diz que ele invadiu seu lugar na praça, o primeiro lhe pergunta onde está a escritura. Como o filme se passa em uma praça, nos convoca a refletir sobre a fantasia da propriedade privada. Este segundo personagem, encorpando o status quo, quer duelar por sua propriedade do banco da praça. Então entra em cena a solidariedade do primeiro: mesmo tendo sido ameaçado por uma ameaça de uma ideologia vencida, quando o ameaçador cai no chão, o ameaçado providencia seu socorro. Há pessoas que não acreditam na propriedade privada e que se preocupam com os outros.

Mas, para além das ideologias que não funcionaram, como o comunismo, a solidariedade do velho comunista aparece até quando tenta poupar o orgulho ferido do, podemos dizer, burguês estirado no chão. Ele cita suas próprias quedas todos os dias!

Com passagens preciosas, tanto históricas quanto psicanalíticas, o primeiro personagem, ao ser alcunhado de mentiroso, replica que não são mentiras, que são verdades alteradas, um pouco para um lado, um pouco para outro lado… até que fiquem impecáveis! “Se fui uma única pessoa nos últimos 86 anos, por que nos próximo não posso ser 100 e não posso ser 5?”

E ele mesmo questiona se o companheiro vai viver deixando as emoções caindo no chão…

Este se apresenta: Antônio Cardoso, aposentado, que há dois anos não recebe aumentos em sua pensão. Ri da  expressão do outro, “agitar as coisas”, e afirma que não agita nada, que poderia ter se aposentado há 20 anos, mas não: com muito orgulho, continua trabalhando. Apresenta todos os desrespeitos trabalhistas como algo normal, por ser um bom trabalhador. O outro diz que ele está morto!

Apresenta-se para nós a saga de um senhor que sabe quais são as artimanhas do capitalismo, e outro, que se sente um “empreendedor”!

A invisibilidade dos idosos e o desejo dos menos velhos de lhe usurparem o lugar são apresentados de maneira singela, mostrando que a ideologia pode ser uma vingança!

O idoso fala falhando… está encurvado… ri sem graça quando o homem mais jovem vem lhe sondar a situação trabalhista.

É como se ele dissesse “Bem, sei que estou fazendo algo errado: ainda estou vivo e desejo… “

Mas o filme tem tiradas ótimas: o corredor, professor de comunicação, diz que “se perde muito tempo para ser imortal”. O idoso caldeireiro: “você ensina a conversar” (sobre os vários tipos de comunicação que o professor diz ensinar). “Dizer que se é desnecessário é absurdo.”

A inteligente saga do filme mostra que a inteligência da vida inteira, aos 80 anos, não se esvai porque o corpo se acaba. O personagem mitômano faz uso de sua ideologia socialista e sua integridade crítica para mostrar ao espectador como a história se encontra com o presente, fazendo do que era palavra de ordem uma trágica crônica. O choque dos tempos, em que todo conhecimento social não tem mais valor e o homem foi reduzido a uma existência de descarga simples de suas aflições, é encenado na valentia dos dois idosos, que se orgulham do que viveram e são, embora não consigam vencer ou comunicar as deformidades do tempo atual. “Eu lhe vou explicar de igual para igual que estamos na mesma confusão”, diz o comunista ao jovem que lhe quer extorquir dinheiro. Ele se vê igual, mas não se dá conta de que não é visto assim. Antônio Cardoso, o outro, negocia com o fascismo, numa posição de barganha, mas não se afasta do velho comunista. Este, com sua grande coragem e imaginação, impõe à filha o lugar de testemunha. O Dr. Engels, Friedrich, do Instituto Freudiano, é uma de suas fantasias.  Mas ela trocou Marx e Engels por Dolce & Gabbana.

Do que se vive, afinal? Onde se habita no ocaso da vida? Pode ser nas memórias das quais nos orgulhamos. Mas também pode ser na capacidade de criar memórias para alguém.

O mundo da luta ideológica, socialista, o mundo do grupo de proletários que buscam a melhora das condições sociais.

Mas o sonho do velho comunista é sustentado por uma filha que, apesar de compartilhar a emoção do pai, perdeu seus amigos de infância porque, ao saber que a amiguinha de escola acreditava em Deus, muito assustada, havia perguntado ao pai o que fazer, e este lhe responde: diga a ela que isso passa. Ela fez e perdeu seus amigos.

“Tem visto suas adoradas massas atualmente?”, lhe pergunta a filha, impaciente com um pai que continua achando que pode fazer piquetes até no açougue. As massas não estão nem aí para nada, é o que ela responde ao pai. E tudo ornado pela “Internacional” tocada orquestradamente.

Um ser humano que teve uma vida de busca e lutas, e que guiou seus investimentos pulsionais, ou seja, suas organizações psíquicas, para sempre ter uma saída encantadora e encantada para as dificuldades da vida. Um grande contador de histórias. Histórias com as quais sabia seduzir e confundir seus interlocutores, pelo teatral de suas interpretações. E assim conseguia se safar de grandes golpes que a vida iria lhe dar, mas que acabavam sendo descobertos.

Era Sheherazade quem adiou a morte contando mil e uma noites de histórias que impediam que o sultão lhe atirasse aos leões. E, de tanto contar histórias, histórias fabulosas, interpretadas com teatralidade e entonações cinematográficas, transformava os interlocutores em apaixonados espectadores, que lhe acreditavam ao menos por um período de tempo. Quando a filha não lhe crê sobre a existência de uma irmã, ele percebe que seus recursos mágicos estão funcionando menos.

Da idade, nos mostram que as armas que se deve usar são desiguais com os mais jovens: a força bruta não funciona mais. A velhice nos coloca frágeis corporalmente, mas nem sempre psiquicamente. E sempre há alguma pitada de sabor em alguns funcionamentos … criativos! Viva a fantasia que pode nos criar sempre grandes histórias da nossa inquebrantável valentia!

“Fui garçom… exceto por um breve período na indústria cinematográfica…” . E toca novamente “A Internacional”!

Palavras-chave: idoso, comunismo, fantasia, A Internacional

Imagem: Foto-Divulgação do Filme

Categoria: Política e Sociedade; Cultura

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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Tags: A Internacional | comunismo | Fantasia | idoso
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