Observatório Psicanalítico – OP – 314/2022 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo 

Café com Musk ou café sem Musk? Considerações sobre a expropriação da informação no meio digital

Eduardo Rocha Zaidhaft (SBPRJ)

O multibilionário Elon Musk, reconhecido como homem mais rico do mundo e CEO da empresa de automotivos elétricos Tesla, Inc., anunciou a compra da rede social Twitter por 44 bilhões de dólares no último mês.

Tratarei dessa “praça pública mundial” – que na verdade é privada – e de outro projeto do empresário, o neuralink – ligado a tecnologias de interface entre cérebros e máquinas de inteligência artificial – para apontar alguma potencialidade da psicanálise nesse cenário de digitalização da vida cotidiana.

Assim como a marca que Freud interpôs entre o hominídeo primitivo e o humano cultural – a marca da linguagem simbólica –, se há um elemento que me parece marcar no tempo uma nova forma de manipulação da informação e, logo, de organização social, é a criação das mídias digitais e as tecnologias de inteligência artificial. Uma vez serem gestos inaugurais de nossa civilização, por ora, ainda não foram desenvolvidos os dispositivos de regulação social necessários para a proteção frente às trocas de informação no mundo digital.

O Twitter hoje é uma rede social gigantesca, infestada por robôs e contas falsas, que interferem no debate público. É frequente que alguém ali se posicione politicamente e seja suprimido ou enaltecido por um exército de robôs vociferantes, programados ou mesmo contratados por grupos com vistas a causar esse efeito político (Bastos).

É no contexto dessa série de problemas que a plataforma está sendo comprada por Musk. No último mês, houve o anúncio de que o empresário obteve êxito em sua proposta de compra do Twitter, dependendo agora apenas de formalidades, que provavelmente não impedirão essa aquisição.

Dentre as inovações que o empresário desde já propõe, está incluída uma menor intervenção no controle dos conteúdos postados. Musk autodeclara-se um “absolutista da liberdade de expressão”. Além de uma limpeza das contas-robô que inundam a plataforma ele pretende expor a fórmula do algoritmo, revelando quais determinações fazem os tweets ganhar ou não visibilidade para outros usuários.

O megaempresário promete uma plataforma com menos moderação de conteúdo, o que pode aumentar a permissividade aos discursos de ódio e a proliferação da desinformação, assim como atividades que visam especulação financeira e manipulação política – algumas manobras que o próprio Musk já realizou por meio da plataforma, a exemplo do que fez com a criptomoeda Dogecoin e com o governo boliviano.

Por outro lado, Musk propõe que a autenticação dos usuários se torne obrigatória. O anonimato pernicioso presente nas redes seria restringido, o que poderá servir como instrumento de coerção espontânea àqueles que, por detrás das telas, infringem as leis dos diversos países em que a plataforma opera. Não por mera coincidência, desde o anúncio da compra de Musk, personalidades como Jair Bolsonaro aumentaram subitamente seu número de seguidores, possivelmente como uma forma de desfrutar da atual não-exigência de autenticação na plataforma.

Musk, que cresceu e ganhou influência a partir de sua atividade no Twitter, afirma querer garantir a liberdade de expressão, fazendo da plataforma uma arena global em que as mais diversas posições políticas possam se expressar, favorecendo, assim, a democracia. Haveria, portanto, um interesse ideológico: Musk, como ele mesmo diz, não estaria buscando lucro com a plataforma. Ora, se não o lucro, o que, afinal, o motiva? Minha hipótese centra-se sob a ideia que denominarei expropriação da informação.

Se os críticos sociais do século XX se ancoraram, em grande parte, na análise do capitalismo, hoje pensadores como Varoufakis falam sobre como duas das características fundamentais dessa forma de economia sociopolítica – a existência do livre-mercado e a busca de lucro, no lugar da expropriação – vêm sendo substituídas por outras que parecem se associar ao feudalismo. O “tecnofeudalismo” ou “capitalismo de plataforma” corresponderia, justamente, a esse novo modo de produção em que alguns poucos indivíduos se tornam, como Musk busca, os donos do mercado. “Donos” não é aqui uma hipérbole, mas uma caracterização literal, já que eles de fato são os proprietários do espaço – no caso, virtual – em que ocorrem as relações de produção e que não buscam mais o lucro contábil, mas sobretudo a expropriação da informação de seus usuários. Nesse contexto, são os donos das Big Techs – como Google, Amazon, Facebook e Uber – que se tornam o fundamento último da economia, os senhores feudais cujas fortalezas imobiliárias imateriais são capazes de decidir e depor os representantes do Estado-Nação.

Percebam: não se trata de donos dos meios de produção, de modo que, em algum sentido estrito, seria um equívoco chamá-los de “capitalistas” ou “burgueses”. Pelo contrário, eles e seus funcionários praticamente não produzem nada além do espaço virtual em que ocorrem as relações entre aqueles que, de fato, são os burgueses, os trabalhadores e os consumidores. Por se tratar de uma ágora privada, e não de uma feira pública, são os donos das plataformas, a partir dos encantamentos de seus algoritmos, quem determinam quais produtos do trabalho são visíveis ou invisíveis a cada consumidor em potencial, formando hábitos e desejos de mercado.

Desse modo, se o neoliberalismo tinha como fundamento a soberania individual, me parece cabível, assim, dizer que não é mais sob esse sistema que estamos funcionando, pois, aparentemente, mesmo as causas que mais nos são privativas, enquanto sujeitos, tornam-se capturadas e, doravante, “autenticadas”, como quer Musk, na praça “privada” global. As plataformas tornam-se os feudos virtuais, sem os quais toda a economia de um país pode vir à ruína e em relação aos quais os Bancos Centrais não dispõem de muita independência.

Se no feudalismo era a expropriação da produção material dos vassalos que guiava o modo de produção, hoje os suseranos buscam a expropriação da informação, com vistas a hook (“fisgar”, “capturar”) os usuários das plataformas por meio de armadilhas (Seaver) que, em sua própria concepção, buscam estimular a compulsão à repetição de seus usuários. Tal expropriação da informação não busca a coerção, mas a persuasão e a servidão voluntária via design de comportamento, que nos compele a sermos cada vez mais expropriados das causas privativas de nosso psiquismo conforme nossa própria escolha.

Transversalmente à questão do Twitter, o projeto da Neuralink de Musk vai mais direto ao ponto. As tecnologias de interface cérebro-computador desenvolvidas sob a batuta de Musk buscam, alegadamente, auxiliar pessoas com injúrias neurológicas severas. Portadoras de alguma deficiência motora, por meio de um chip implantado em seus cérebros, elas poderiam, por exemplo, emitir sinais capazes de coordenar um veículo.

O neuralink e as plataformas digitais colocam a questão sobre que parte de nossa existência não é passível de ser expropriada pelas tecnologias informacionais e, portanto, modelada pelo design de comportamento dos algoritmos de Musk e seus pares. Penso que é neste resto inexpropriável de nossas informações que a psicanálise encontra hoje o seu terreno de obras.

A esse respeito, Slavoj Žižek, herdeiro direto da influência da psicanálise em suas ideias – em especial a que se refere à importância da negativa e do inconsciente para a constituição do psiquismo -, cético a quão absoluta seria a capacidade de implantes cerebrais capturarem na totalidade o que se passa em nossa mente, cita uma anedota: “um sujeito entra no restaurante e solicita ao garçom: ‘eu gostaria por favor de um café sem creme’. E o garçom lhe responde: ‘me desculpe, senhor, nós não temos creme, nós apenas temos leite, então eu não posso lhe dar um café sem creme, mas apenas um café sem leite’”.

Com essa fala humorística, Žižek procura demonstrar a importância da negativa para o inconsciente freudiano e, então, complementa: com certeza, nós não somos capazes de mudar se ontem bebemos ou não café, mas com certeza hoje nós somos capazes de mudar o fato de se ontem bebemos café sem creme ou café sem leite, sendo a partícula “sem” justamente o espaço fundamental do que costumamos chamar de liberdade.

Desse modo, com essa anedota, Žižek busca caracterizar o aspecto negativo e a posteriori de uma dimensão que nós psicanalistas habitualmente chamamos de subjetividade: objetivamente, o café sem creme é o mesmo que o café sem leite; ambos são cafés simples sem nada adicionados; mas, no sentido subjetivo, esses dois cafés não são o mesmo. Influenciado por Žižek, penso que é devido a essa dimensão negativa da subjetividade que há um aspecto absolutamente irredutível à expropriação informacional. Os algoritmos poderão ser capazes de codificar, modelizar e emular uma enormidade, quiçá a totalidade, do que se passa objetivamente em nossos cérebros, mas jamais eles serão capazes de levar em conta o que não se passa em nossos cérebros e que nos faz sermos nós mesmos, o que não postamos nas redes e que nos faz ser o que somos, sentir o que sentimos e desejar o que desejamos. Essa dimensão absencial do “sem” (sem creme/sem leite) é, para mim, como para Žižek, tanto o que marca o papel da psicanálise desde que esta inferiu o inconsciente, como o antídoto último para interditarmos os grandes suseranos que buscam nos expropriar de nossas informações mais individuais – as que se referem à liberdade de pensamento – e que muitas vezes nem nós mesmos sabemos que temos.

Portanto, a perda dos limites da soberania individual ligada ao tecnofeudalismo me parece encaminhar a discussão para o lado da psicanálise. Parece-me que o lugar social dessa ciência tão cara a nós é o de apresentar uma superfície da realidade em que todas as tecnologias de captura altamente desenvolvidas pela revolução informacional se mostram incapazes de alcançar e que apenas o vivente, como o conhecemos, até hoje é capaz de fazer: uma dimensão negativa, absencial, formulada sempre segundo a lógica a posteriori.

Por fim, poderia dizer mais sobre Musk e atribuir a ele uma quantidade maior de atributos narcísicos e tirânicos, o que me parece algo tão óbvio de ser verdadeiro que não haveria por que um psicanalista escrever a respeito. Para isso, acredito que o personagem, CEO da BASH Cellular, Peter Isherwell, interpretado por Mark Rylance na ficção recente “Não olhe para cima”, é suficientemente representativo do que Musk, em sua pior faceta, representa. Mas, apesar de considerar que bilionários não deveriam existir até que pelo menos grande parte da fome humana fosse erradicada na Terra – lembrando que as estatísticas da ONU indicam que 7,5 bilhões de dólares seriam suficientes para tal –, não gosto de imagens totais. Como psicanalistas, devemos ver o que Musk é e, até aí, ele é de fato um narcísico superpoderoso, irresponsável para com os efeitos nocivos de seu próprio poder, mas, como a ética psicanalítica nos lega, não podemos deixar de considerar o que ele ainda não nos mostrou que ele não é – e, por ora, cabe considerar que, apesar do anúncio, ele ainda não é, de fato, o dono do Twitter. Para essa confirmação, teremos que aguardar mais algum tempo.

Vídeo do Neuralink: https://www.youtube.com/watch?v=rsCul1sp4hQ

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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