Observatório Psicanalítico – OP 313/2022 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo 

Parabéns, Sigi

Daniel Delouya (SBPSP) 

Há alguns dias você completou 166 anos de nascimento, e obviamente não pôde saber disso. Quando completou o seu último ano de vida, em 1939, provavelmente já desejava se retirar da vida, embora já estivesse, há quase um ano, em uma nova terra, a Inglaterra. Ali respirava o ar da liberdade, segundo seu testemunho, longe da barbárie nazista que acometeu o país em que passou a maior parte de sua vida. 

Nos quinze meses que viveu em Londres, não parou de trabalhar, usufruindo sua liberdade, inclusive para concluir o seu “Moisés” e submetê-lo à publicação, entre vários outros ensaios. Alguns inacabados, infelizmente. É admirável ver o quanto soube explorar o seu tempo, fazendo-o em grande agonia, como na Primeira Grande Guerra, quando os seus estavam correndo sérios perigos de vida. 

Celebramos, a cada ano, o seu nascimento, assim como festejamos os centenários de cada um de seus textos que marcaram sua fascinante trajetória de pensamento. 

O que significam afinal os aniversários? Talvez a ideia seja reafirmar o ‘seja bem-vindo’ dos inícios, ‘você faz uma diferença’, ‘fique conosco’… 

Querido Sigi, me desculpe essa excessiva intimidade, mas deixe-me perguntar: você já se considerou um grande homem, tal como o definiu em uma célebre seção sobre o Moisés? Você o definiu pelo efeito de seu aporte e, sobretudo, pela sua personalidade, a independência de seu pensamento e ação. Não sei, talvez não se considerasse inteiramente assim, mas eu, e, muitos outros, certamente o consideramos como tal! Quanto à sua pessoa, sabemos o quanto se expôs, e o quanto se arrependeu em certos momentos. Temos em mãos uma vasta correspondência sua e outros numerosos relatos de outros próximos que abrem, em grande medida, uma janela para o seu mundo. E mesmo assim, a nossa curiosidade continua grande e inesgotável. 

Falando dessa recepção de início, de seu nascimento, o que teria sido o encontro dessa jovem mãe com seu primogênito, assim como do pai, já em terceiro matrimônio com uma esposa 21 anos mais jovem?  Havia algo ali, nesses primeiros encontros, que fez de você, para nós, um grande homem? Não duvido. Alguns de seus herdeiros designam esse período como sendo “pré-verbal”, e paradoxalmente, soltam o verbo sobre essa fase de vida, até encontram formas de ‘comprovar’ uma série de coisas. Você nos alertou inúmeras vezes sobre a dificuldade de compreendermos os bebês e as crianças, seguiu insistindo para a importância de se detectar os seus apelos em cada fala e gesto de nossos pacientes, chamando-os de transferências, assim como flagrá-los em nós, psicanalistas, nossas contratransferências. Você a descobriu em suas memórias de infância de quando tinha dois anos, a excitação com a mãe nua e nas águas avermelhadas de sua feia e “idosa” babá. Assim como recordou a criança feliz que você foi nas ruelas de Freiberg, cidade que deixou antes de completar três anos de idade, e a qual não parou de visitar até o final de sua adolescência. Descobertas que se fazem sempre depois, de algo inatual, mas que está presente, que faz toda a diferença, que faz sofrer, que faz viver e que somente o ato da fala pode tirar seu proveito para a vida. 

Você descobriu o infantil, a sua sexualidade, e o aparelho da alma. Começou a construir um arcabouço estrondoso desse aparelho bem cedo, aos trinta e nove anos, no seu “Projeto” que tentou destruir e, felizmente, não conseguiu, pois ele continua nos deixando perplexos diante de suas riquezas escondidas. Não descobriu apenas o infantil, mas aquilo que se opõe a ele no interior do aparelho psíquico e que o faz se “ajustar” a seu meio, à sua cultura. Você foi um pensador da cultura e nos mostrou como esta nos cobra tanto. Trouxe-nos a pulsão de morte, que pode estar a favor da vida, conduzindo-a, mas até certo ponto, quando se mostra destrutiva sob a tutela da vida cultural. 

Dedicou grande parte de sua vida para o pensamento sobre a cultura, seus benefícios, mas sobretudo a respeito de nossa destrutividade. Deixou-nos uma prática, além de certa missão com finalidades ainda obscuras quanto ao modo de lidar com tudo isso enquanto psicanalistas e cidadãos do mundo atual. Deixou o mundo diferente, ou nos fez, ao menos, vê-lo de um modo inusitado, dotando-nos de uma prática com grande responsabilidade. Foi um grande homem, insistindo sobre a verdade histórica, a do assassinato do pai dos primórdios, apontando que estamos sós no mundo e que devemos nos haver com o desconhecido sem recorrer às soluções finais da salvação e da felicidade, prometidas por parte das religiões, da ciência ou da política. Uma verdade que a cultura atual tenta escamotear ou se evadir. Com a sua esperança de que a verdade tende a ressurgir, deu-nos esperança. 

Parabéns, Sigi! 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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