Observatório Psicanalítico – OP 295/2022

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Eutanásia indireta 

Luiz Meyer (SBPSP)

Entre as atrocidades praticadas pelo regime nazista, figura com relevo a prática da eutanásia.  O decreto secreto de Hitler autorizando seu início é datado de 01/09/1939, mesmo dia da invasão da Polônia. Não há aí acaso, mas uma ação confluente destinada a igualar dois trunfos almejados pelo regime. Hitler planejava uma solução final não apenas para a “questão judaica”, mas também para todos os problemas sociais que pudessem comprometer seu projeto de purificação do sangue alemão.

As ordens para sua organização e execução partiam do próprio prédio da Chancelaria do Reich onde os encarregados do programa tinham sua base. 

As justificativas eram várias, como as de base econômica que protestavam ser esta população uma sobrecarga para a máquina de guerra nazista, ou, ainda, de que haveria a necessidade de, igualmente, livrar leitos para tratar os feridos. Muitas tinham base “científica”, de cunho eugênico. O livro de Alexis Carrel, “O homem este desconhecido”, muito em voga naquele momento, encontrável em nossos sebos, recomendava que os criminosos fossem executados em pequenas instituições de eutanásia por meio de gás. 

Grande número de médicos alemães colocou-se a serviço da ideologia do Füher trabalhando de forma contínua e maciça na eliminação de idosos, doentes mentais, doentes “incuráveis” e pessoas suspeitas de serem portadoras de doenças hereditárias. As crianças que nasciam com alguma deformidade eram naturalmente encaminhadas da maternidade para os centros de extermínio (asilos, hospitais, “lares” de idosos), sendo ali, juntamente com outras vítimas, executadas por gás ou injeção letal. Entre outubro de 1939 e abril de 1945 o programa T-4, sigla secreta desta operação, assassinou 5.000 crianças (e cerca de 70.000 adultos). 

Os encarregados afirmavam que não faziam mais do que aliviar o sofrimento desses pacientes. No caso das crianças, apenas atendiam ao desejo dos próprios pais. Suas ações seriam mesmo motivadas por um certo clamor popular. 

Mais tarde, ao serem interrogados, alegaram que apenas cumpriam ordens e, quando questionados, retrucavam que “todo médico em pessoa era responsável pelo que ele fazia ao longo das medidas que conduziam à eutanásia. Cada médico era absolutamente responsável por seu julgamento. Portanto, os médicos não podiam ser questionados”. “Isto seria um ultraje”. 

As atas do tribunal de Nuremberg deixam, pois, patente não só a brutalidade da eutanásia como também a hipocrisia dos acusados, que se apresentavam como “idealistas” e “realistas” defensores e protetores da ciência. 

A eutanásia foi, sem dúvida, o passo preliminar em direção ao genocídio. Os médicos que a promoveram são os mesmos que depois participaram ativamente dos programas de extermínio dos campos de concentração. 

Evidentemente, não é por acaso que evoco esse fato histórico, mesmo porque ele não é extemporâneo. Até aqui, descrevemos a eutanásia programada, um projeto radical e organizado. Acredito que ele está ativo e presente entre nós, porém ajustado às atuais práticas políticas: refiro-me à eutanásia indireta patrocinada pelo governo federal. 

Seus aspectos mais gritantes são o incentivo à aglomeração, o desestímulo ao uso de máscara, a guerra contra a vacina, o desprezo pelas orientações cientificas. Agora, com a oposição extremada à vacinação de crianças, pondo em risco suas vidas, a eutanásia indireta chega à sua forma mais expressiva e transparente. 

Examinada em perspectiva, a percebemos atuante no experimento de Manaus, que aliava à asfixia a indicação de Cloroquina, mimetizando as práticas nazistas da “morte piedosa” de pacientes considerados já condenados pelo vírus; está presente na assim chamada “consulta popular”, manobra diversionista que evoca o argumento nazista de que a prática da eutanásia destinara-se à proteção da população. 

A eutanásia indireta, tal como sua antecessora, também se escuda em argumentos econômicos (manter a produção) para justificar a desproteção da população. E reparem como autoridades da área da saúde, basicamente do Conselho Federal de Medicina, endossam em seus pronunciamentos o argumento da “autoridade médica” para justificar as atrocidades patrocinadas pelo Governo. 

Bem observado, percebe-se um paralelismo entre as atividades dos escritórios de planejamento da eutanásia que operavam na Chancelaria do Terceiro Reich e os gabinetes “paralelos”, sediados no Palácio do Planalto, que ditavam a política sanitária do país. 

Nossa eutanásia vai muito além da área médica. Dela faz parte a pregação “eugênica“ que “bandido bom é bandido morto”, justificando-se assim o excludente de ilicitude. Ela é simbólica de uma corrosão ética generalizada: políticos amorais e truculentos, secundados por militares oportunistas, controlam e dão sustentação a um governo voltado para o desmantelamento de tudo que é valioso no país. 

A Alemanha perdeu a guerra. Para além do julgamento dos indivíduos indiciados, o Tribunal de Nuremberg expôs conjuntamente o modo de funcionar do regime nazista.

Precisamos acreditar que um dia teremos o nosso tribunal.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Imagem : foto – Cemitério de Manaus (AM) – gavetas para corpos devido à alta demanda de mortes por Covid – Michel Dantas/ AFP

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