Observatório Psicanalítico – OP 296/2022 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Mal estar na civilização – Um depoimento ou terra brasilis em transe

Sylvain Levy – SPBsb

O mal estar da civilização atual é um incômodo às vezes indizível, e por vezes brutalmente evidente. 

É um homem que é “justiçado” a pauladas por cobrar o que lhe era devido, por estar no lugar errado, na hora errada, pouco importa. O que importa é que foi assassinado a pauladas, sem chance de defesa.

É outro homem, por acaso tão negro como o precedente, que é assassinado a tiros por um sargento da Marinha do Brasil por haver sido confundido com um assaltante. Nos dois casos, indivíduos travestidos de cidadania implacável tomaram a “justiça” nas próprias mãos e executaram dois homens indefesos. 

Cotidianamente indivíduos negros são ameaçados, escorraçados e/ou mortos pelo simples fato de seu fenótipo ser mais escuro que o de “gente de bem“. Um jovem negro foi preso ao comprar pão, e mesmo tendo sido “inocentado” pelo delegado responsável pela sua prisão, reconhecendo o erro cometido, está sendo mantido sob observação pelo juiz de instrução. Aos amigos (brancos, provavelmente), tudo. Aos demais (os outros, os diferentes) a letra fria da lei. 

Sou branco, louro, de olhos claros. E judeu. Desde criança convivi com famílias religiosas judaicas e com amigos e famílias católicas, espíritas, batistas, entre outras, e muitas vezes precisei me explicar porque seguia “uma religião que matou Cristo” e por que não adotava outra fé, “muito mais brasileira”. Mas nunca me senti discriminado, até o dia em que em viagem profissional pelos Estados Unidos, numa lanchonete de beira de estrada no meio oeste, li num cartaz: no nigers nor jews, e mais explicitamente, abaixo, we do not serve blacks or jews

Esse mal estar nunca me abandonou. Pertenço sim a um grupo que é excluído por parte de uma população. Que o vê não só como diferente, mas como ameaçador. Eu carrego em mim o Holocausto e os preconceitos de milhares de anos e de centenas de diásporas. 

Todos os discriminados somos um único quando a discriminação nos alcança, e de um somos a soma de todos quando a discriminação alcança qualquer um. Seja por etnia, raça, cor, idade, orientação sexual ou gênero. 

Esse é outro mal estar indizível, inefável, quando a ameaça vem como uma epidemia, pelo ar, pelo olhar, pelo pequeno gesto de afastamento, de recuo, de dúvida ao estender a mão para um cumprimento. Como se algo de pegajoso e nocivo estivesse no outro diferente, cuja diferença não é vista como característica, mas como uma agressiva e inelutável “marca de Caim”. 

Somam-se a isso outros fatos que contribuem para um estado de angústia generalizada em todos nós, levando a imaginar que a única terapia possível seria um ansiolítico em aerossol ou pulverizado por avião. Já há alguns anos o clima de “nós contra eles”, exacerbado nos últimos quatro anos, não tem contribuído para o alívio das tensões e, pelo contrário, tem ajudado a cristalizar as diferenças e separações. 

Observado por dentro, o processo discriminatório é, na realidade, de indiscriminação. Nesse processo, não é considerada a existência de preto bom e preto mau. Assim como não é identificado um judeu bom ou outro mau. Todos são vistos e classificados como maus, sem nenhuma nuance. Indiscriminadamente. 

Dois episódios recentes denotam como as ideias nazistas encontram guarida entre parcela da população e nos remetem à memória dos horrores do Holocausto e dos regimes de exceção. Refiro-me ao apresentador de podcast que sugeriu a legalização do partido nazista no Brasil (que de tão absurda foi justificada como feita em estado de embriaguez) e à infame saudação hitlerista feita por jornalista no encerramento de seu programa. As duas recebendo rechaço imediato e consistente dos ouvintes, dos respectivos empregadores e do povo em geral. 

Porém, nos últimos anos, tem havido uma proliferação de clubes e agrupamentos nazistas, assim como têm aumentado muito os casos de feminicídio, de assassinatos de integrantes do grupo LGBTQIA+, de “corretivos” em travestis, de profanações de estátuas e  símbolos de religiões espíritas e de terreiros de umbanda e quimbanda. São agressões vazias de sentido, pois não trazem nenhuma proposta de reconversão, “cura” ou mudança de pigmentação. É evidente que não considero que isso as legitimaria, mas fica mais transparente o seu caráter de pura eliminação do outro. 

São apenas e tão somente manifestações de ódio e de incapacidade de suportar a diferença e de conviver com aquele que não professa um credo e um comportamento estabelecido por grupos que se julgam dominadores e dominantes da/na sociedade. 

Mas as maiores segregações que enfrentamos no Brasil são, ainda, a da pobreza e a da falta de oportunidades, representadas pela favelização, prática urbanística, sociológica e socioeconômica construída, estimulada e solidificada pelas elites brasileiras ao longo de 140 anos. 

É um momento delicado que nos provoca, por mais atordoados que nos encontremos, a estar atentos e conseguir contribuir para a compreensão do que está acontecendo e a influenciar, na medida do possível, a cada um de nós na modificação dessa realidade. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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