Observatório Psicanalítico – OP 294/2022

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

A PELE DE MOISE PELO AVESSO.

Vanessa Figueiredo Corrêa (SBPSP e GEP Rio Preto e Região), Gizela Turkiewicz (SBPSP)

Esboçava-se um ensaio sobre o livro “O avesso da pele” de Jeferson Tenório, quando a notícia do assassinato de Moïse Mugenyi Kabagambe nos revira pelo avesso e nos sequestra as palavras. Diante do assombro, ainda é possível falar sobre literatura?

Surgem perguntas e indignação – o que são as palavras diante das pauladas, da tortura, da crueldade? Por outro lado, o que nos resta na luta pelo direito à vida senão nos manifestarmos  através de ações e palavras? 

A mãe de Moïse, Ivana Lay, apela para que todos se manifestem: “Mataram ele como um bicho. Eu vi na televisão que, aqui no Brasil, se um cachorro morrer, há várias manifestações. Então, eu quero que todo mundo me ajude com justiça.”

O livro “O avesso da pele” é uma manifestação, um tributo a todos os negros assassinados por tratar, justamente, do tema do racismo e da violência. Jeferson Tenório construiu um relato potente, onde o narrador, um filho tentando dar coesão à própria vida, reconstitui quem é e quem foi seu pai assassinado. Para isso, apropria-se da pele do pai e inventa, predominantemente em segunda pessoa, uma história que remonte suas origens: “o que foi dito por vocês, antes de minha memória, foi dito em retalhos. Então precisei juntar pedaços e inventar uma história”.

O autor faz com que o leitor facilmente se identifique com sua narrativa ao criar personagens carismáticos e complexos, que entre tantas demandas, sonham com o amor, sofrem com dores físicas e emocionais, submetem-se com paixão a profissões mal remuneradas, buscam análise, tentam conciliações em situações conjugais insustentáveis e, sobretudo, levantam-se todos os dias da cama para encarar uma vida que os machuca.

No entanto, tudo é permeado pela cor: até uma breve saída de casa, que no livro e na vida pode terminar em confusão, violência e assassinato. O espanto é sempre o sangue vermelho que escorre do corpo negro manchando as ruas. 

O que seria “o avesso da pele”? Algo que jamais se apresenta aos olhos: vasos, nervos, carne. Sangue e dor correm pelo avesso da pele. Pelo avesso, seriam todas as peles da mesma cor? Não. Mesmo pelo avesso, a pele sangra em cores de desigualdade. 

É na pele que as dores causadas pelo racismo ardem, sem preciosismos. Seja na ficção, seja na realidade, a violência evidencia, uma vez mais, que a ideia de que o brasileiro é um povo cordial e pacífico é uma lenda construída em benefício de poucos, que subjuga e cala negros, indígenas, pobres e mulheres. 

O narrador reflete: “quem nunca teve uma ferida de meio centímetro dentro de si, talvez pense que não seja grande coisa.” A morte de Moïse será apenas mais uma ferida de meio centímetro nesse país doente? E, “sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”?

Lutar pela vida é também lutar, em um sentido amplo, pelo direito à literatura, conforme Antônio Cândido nos propõe. Segundo ele, o direito à literatura estaria entre os direitos humanos básicos, pelo seu poderoso potencial de instrução e educação, pela possibilidade de transmitir visões de mundo e de sonhar/fabular/elaborar sobre tudo aquilo que a vida cotidiana não dá conta, o que nos tornaria menos bárbaros. Mas o que resta do direito à literatura quando faltam o direito à liberdade e à vida? 

Não é ficção que um jovem negro, estrangeiro e refugiado que, ao reivindicar seu salário, seja visto como uma ameaça e por isso seja amansado a pauladas, amarrado e morto. As raízes escravocratas não são ficção.

Nesta terra de contrastes brutais, ao mesmo tempo em que celebramos a consagração literária de Jeferson Tenório, o carioca de 44 anos radicado em Porto Alegre que venceu, com “O avesso da pele”, o Prêmio Jabuti (2021) na categoria “romance literário” – Prêmio Jabuti que, aliás, quase sempre foi branco: a primeira mulher negra homenageada foi Conceição Evaristo, em 2019, ou seja, depois de 60 anos de sua existência -, choramos a morte de Moïse Mugenyi Kabagambe, 24 anos, congolês e refugiado de guerra civil com a mãe e os irmãos no Brasil desde os 11 anos, e que foi assassinado por espancamento no Rio de Janeiro em 24 de janeiro de 2022, quando foi receber o pagamento por duas diárias de serviços prestados. 

A literatura é capaz de falar quando nos faltam palavras, ela nos escancara a realidade de raríssimos Jefersons para milhões de Moïses que permanecem sem nome para uma sociedade que não suporta seus avessos e escolhe ignorá-los. Que o assassinato de Moïse nos permita enxergar nossos avessos, porque há feridas de meio centímetro em cada centímetro quadrado de nossa pele social.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

OBS.: O escritor Jeferson Tenório também é convidado do próximo Congresso da Febrapsi: “Laços: o Eu e o mundo”, em mesa redonda que ocorrerá dia 26/03/22: “Observatório Psicanalítico: a escrita na construção do laço social”, junto com Cíntia Xavier de Albuquerque (SPBsb), Cláudio Laks Eizirick (SPPA) e Raya Angel Zonana (SBPSP), com coordenação da Maria Elizabeth Mori (SPBsb), uma das editoras do “Observatório Psicanalítico”, esse espaço que permite aos psicanalistas pensar e se manifestar, sob a própria pele, na pele do outro.

Colega, click no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página no Facebook:

 

Tags:
Share This