Observatório Psicanalítico – OP 289/2022

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Com vergonha 

Celso Gutfreind (SBPdePA)

As crônicas de José Falero, reunidas no volume “Mas em que mundo tu vive?” (Todavia, 2021) forjam-se no ponto de vista da classe social desfavorecida, periférica, negra em sua maioria. Ou “assalariada”, como diz, ironicamente, em uma delas. Esse ponto de vista não é tão frequente na literatura brasileira, habitada em geral por intelectuais provenientes da classe média. 

Houve e há – é literatura, ou seja, permanece – um João Antônio, um Lima Barreto, mas se contam nos dedos aqueles que habitam esse ângulo. E vivência.

Falero entra na mão pouco cheia, mas com o dedo em riste, e pleno de qualidade. Seus textos dão um soco no estômago dos brancos (“alemães”), endinheirados e que vivem longe da periferia. O soco fica ainda mais agudo, porque há humor, lirismo e ternura, em meio à secura das explorações e preconceitos. Se você é um desses brancos, torna-se inevitável, já a partir das primeiras páginas, um sentimento de vergonha. E que segue em riste, ao longo de toda a leitura.

Freud, que se notabilizou por abordar todos os sentimentos, incluindo os mais difíceis ou indizíveis, tratava a vergonha como o deslocamento de outros temas como a sexualidade, energia vital e construtiva. Valia o mesmo para o ódio, uma espécie de outro lado do amor. Ou a véspera dele. 

A literatura de Falero morde e assopra a vida dos “invisíveis”, explorados pelo dinheiro e, logo, pelo poder, que não divide a renda. Machucados pelos brancos, pelos acadêmicos, pelos racistas, grupo ao qual pertencemos, vergonhosamente, para utilizar a expressão do Mario Quintana. Se há fabulação no que conta, parece mais a serviço de ajudá-lo a suportar a realidade do que maquiá-la: “A necessidade de fabular para não enlouquecer.” (p. 43).

Aquele mesmo Freud defendia que o mais importante, quando aparece uma arte, é o efeito que ela provoca em seu expectador. A de José Falero suscita, entre outros sentimentos mais ou menos nobres, vergonha. Que poderá vir atada, paradoxalmente, a certo orgulho, se vier como véspera de uma transformação.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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