Editorial – Observatório Psicanalítico – dezembro/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 
 
Sódepois 20 
Dezembro de 2021 
 
A imagem do mar carregando as folhas para a areia é metáfora óbvia e nada original para os processos de mudança. Depois da tempestade, um período de processamento e depósito dos detritos, e depois de reorganização. As chuvas na Bahia de fato estiaram, deixando as praias cheias de folhas e galhos. A maioria das pessoas abrandou as regras de isolamento para finalmente reencontrar suas famílias e pessoas queridas, acolher-se, chorar os mortos que não foram chorados, compartilhar as agruras passadas nos últimos dois anos e trocar esperanças. 
 
Celebrou-se a vida vivida como possível. Por aqui, houve muita, refletida em trabalho, pensamento, conversa. Foram 74 textos publicados, além dos editoriais, que agora se chamam “Sódepois”. Falamos daquilo que nos afeta a todos: a política, as causas identitárias, a pandemia. Falamos de arte. Homenageamos pessoas que vêm sendo importantes na história da psicanálise e de nossas instituições, algumas porque faleceram deixando sua marca, outras porque, vivas, precisam ser reconhecidas pelo que vêm realizando. Aqui, no OP, nós também comemoramos a virada do ano recebendo mais uma integrante para a nossa equipe de curadoria, Renata Zambonelli, da SBPSP, o que nos deixou muito felizes. Estamos crescendo. 
 
Dezembro, mês especial, teve oito textos. Começamos com “Psicanálise leiga”, de Lucia Passarinho (SPBsb). Lucia, ao descrever o modelo de formação da Sociedade de Brasília, aborda duas questões fundamentais: a primeira, sobre a importância da análise pessoal na trajetória de formação, porque é aquilo que, de alguma forma, garante a experiência do não saber sobre o inconsciente: “leigos também somos todos nós, psicanalistas que nos aventuramos a buscar os sentidos do inconsciente e assim sustentar a nossa formação institucional”. A segunda, cada vez mais em foco nas nossas instituições, é o quanto “a riqueza do movimento psicanalítico” deve “à diversidade de seus seguidores”, não apenas distribuídos entre diversos campos de saber, mas também, como cada vez mais se percebe, oriundos de diferentes trajetórias e marcas sociais.
 
Em “Psicanálise em trânsito: inclusões e exclusões na formação psicanalítica”, Dora Tognoli (SBPSP) segue na mesma direção ao falar a partir da Sociedade de São Paulo. Ela nos diz: “Temos muitos desafios: além da prática ética e consistente da Psicanálise, um desejo de modernização política, social e cultural ao modo da própria Psicanálise, que tem como princípios a ruptura dos estereótipos, a autonomia e o questionamento diante do depósito de identificações que nos constituem”. Recupera, assim, aquilo que nos faz buscar a psicanálise – nossos movimentos de expansão, por um lado, e os preconceitos e moralizações que nos prendem, por outro. Termina com uma autorreflexão que aponta para a necessidade de enfrentarmos sem medo os nossos preconceitos: “Coordenar a Comissão Virgínia Bicudo, que irá refletir ações afirmativas e desenhar um projeto para o Instituto, tem sido uma experiência perturbadora: tenho me surpreendido com minhas áreas nebulosas, com as áreas nebulosas de diferentes colegas, ouvido histórias que nunca tinham sido narradas ou que nunca procurei escutar, por inúmeras razões. E deixado muito claro que a conversa e a participação política em grupos de trabalho nos desloca do mundo confortável privado para o vasto e enigmático mundo…” 
 
Em “Política, Psicanálise e religião”, Julio H. Gheller (SBPSP) começa anunciando uma crítica ao que deveria ser um estado laico e que, de algum modo, foi tomado por religiosos que muitas vezes agem como fanáticos. Faz uma distinção cuidadosa entre fé e fanatismo para então dizer: “pergunto-me se as cenas descritas (de discursos e ações religiosas em cenas da política protagonizadas por integrantes de instituições governamentais em momentos em que exercem suas funções) não estariam mostrando pessoas crédulas, mas também  capazes de extremismos, de dar apoio irrestrito a um determinado tipo de líder, alguém que poderia perpetrar os maiores absurdos sem sofrer questionamentos no interior de seu grupo”. Propõe então e muito sutilmente uma inversão, ao terminar o texto falando não do fechamento dos fanáticos religiosos à realidade, mas do eventual fechamento dos psicanalistas: “Temos dificuldade em reconhecer nossos traços racistas, machistas, preconceituosos e elitistas, incorporados desde tenra idade. Porventura a experiência de consultório, de aprofundamento em uma relação bipessoal, característica intrínseca de nosso ofício, chega a nos alienar da realidade ampla? A neutralidade do analista, devidamente implicado no processo analítico, não significa, em nenhuma hipótese, ser indiferente em relação às questões do paciente. Analogamente, ele não deveria ser indiferente em relação ao que se passa ao redor, especialmente quando o que acontece é o prenúncio de um mergulho em direção ao mortífero”.
 
Sylvain Levy (SPBsb), em “Covardia suprema”, trata do episódio em que o Presidente da República, Jair Bolsnonaro, solicitou “os nomes das pessoas (funcionários da ANVISA) que autorizaram o uso de imunizantes em crianças de 5 a 11 anos”. Sylvain parte da ideia de que “quem governa com ódio não consegue governar bem” e busca mostrar como “neste governo não existe a coisa pública, mas sim coisa pública a serviço do privado” e também como a lógica da responsabilização individual de alguém por um ato coletivo de caráter público, médico, é perigosa. 
 
Renata Inecco Bittencourt de Carvalho (SPBsb), ao comentar a vida de bel hooks, que faleceu no último dia 15 de dezembro, responde a Sylvain. Seu texto, “Gloria Watkins deixa bell hooks como herança” conta como a autora feminista negra oferece referências fora de nosso campo (mas em diálogo com ele) e como ela, “transitando com maestria entre o individual e o coletivo, entre o particular e o público exaltava e valorizava a diversidade e a alteridade”. Assim como “na busca pelo amor nas relações com os outros, ela enfatiza a necessidade do cultivo ao amor-próprio, mesmo que o processo cause feridas. Segundo bell hooks, a base de toda prática amorosa é o amor-próprio, sem o qual falham todos os outros esforços em busca de amar. Assim como Pierre Fédida associa a pluralidade da palavra amor a um buquê de flores enfeixadas, bell hooks escreveu sobre as diversas possibilidades de amar”. Talvez um modo de arejar a discussão e abrir novas questões, justamente pela diversidade…
 
Rossana Niconiello Pinheiro (SBPMG), em “O dobrado dos sinos”, faz uma costura associativa delicada a partir do sono, da gripe, do som de sinos e de outras lembranças musicais e da literatura. Seu texto embala, e somos levados a fazer uma espécie de balanço, como se a experiência dela nos abrisse para a nossa: como chegamos ao fim do ano? Como pensamos a solidariedade e as causas humanitárias? Como costumamos ouvir os sinos, sejam eles os da missa do galo que marca a data natalina, sejam os que servem ou serviam, nas cidades, para anunciar a morte de alguém? Sentimos o outro como parte da nossa humanidade?
 
Terminamos o ano com duas homenagens. “Oswaldo, psicanalista singular” é um texto em que Gustavo Gil Alarcão (SBPSP) celebra a vida de Oswaldo e, de algum modo, sua sobrevivência. A um procedimento cardíaco chato, embora simples, mas também a sobrevivência de suas ideias e de seu modo de fazer psicanálise, “à contracorrente”. “Oswaldo, psicanalista singular, amigo inesquecível, soube construir e preservar bússolas potentes. Sua apreensão e sua transmissão da psicanálise não se corromperam e nem se acomodaram, seja pelo poder em suas diferentes moedas, seja pela conivência em suas diferentes economias, seja pelo bom-mocismo em seus diferentes disfarces. Esse coração-leviano, de pulsações intensas, ainda tem muitas aventuras por viver”. Não deixa de ser uma maneira de convocar-nos como analistas a encontrar e seguir com nossos próprios movimentos: “Amigos e colegas, vamo q’vamo!”.
 
E, por fim, em homenagem a Nelson Freire, morto no último dia 01 de novembro, Daniel Seno (SBPRJ) retoma em “O estranho piano de Nelson Freire” sua relação com o músico naquilo que sua obra fomenta: a vida. “A arte de Nelson alimenta a alma e provoca singular inquietação, pela sua genialidade e originalidade. Entre o mistério das teclas que ressoam harmonias que engrandecem a vida, renovamos nossos votos de boa esperança para um futuro que, ainda que incerto, insiste em se manifestar. A arte não garante apenas a sanidade, como ensinava Louise Bourgeois, mas também é grande responsável pela nossa existência”. 
 
Chegamos ao fim de 2021 em uma sexta-feira. É verdade que gostaríamos que a virada do ano marcasse de fato uma transformação, um fim definitivo para as tragédias. Mas se tem algo que ficou mais tangível que nunca nos últimos tempos foi a tal da transitoriedade – inclusive dos momentos de calmaria. Melhor ficar então com a expressão popular destinada à chegada dos finais de semana: “Sextamos” a maior das sextadas, encerrando um ano com uma pausa merecida, mas sabendo que logo teríamos uma nova segunda-feira e novos e enormes desafios. E ela chegou.
 
O escritor José Eduardo Agualusa, em coluna do Jornal O Globo, defendeu que 2022 seja o ano da reconciliação, entre as pessoas e do homem com a natureza. Certamente ele será um ano da política, no melhor sentido da palavra – do macro ao micro. O ano de recuperar a pólis, se tudo der certo e a pandemia minguar, depois desse período de novo difícil que se anuncia para janeiro e fevereiro. De travar o debate público para que as eleições não sejam repetições mortíferas. De batalhar para que, no movimento infinito da vida (e do mar), avancemos. Como num meme de Instagram em que se lia “para trás, agora, nem para pegar impulso”.
 
Equipe de Curadoria
Beth Mori, Daniela Boianovsky, Ludmila Frateschi, Rafaela Degani e Renata Zambonelli
 
(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 
 
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