Observatório Psicanalítico – OP 281/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Psicanálise Leiga 

Lucia Passarinho (SPBsb)

Historicamente, a Psicanálise foi implantada por intermédio da Psiquiatria, sendo no passado, em muitos países, como os EUA, essencialmente praticada por homens e mulheres de formação médica. À medida em que a Medicina ia sendo reconhecida como ciência, crescia a necessidade de se distinguir e regulamentar as atividades terapêuticas. A Psiquiatria, cada vez mais racional em suas classificações, se distanciava fortemente da escuta e do olhar psicanalítico. Embora Freud tenha vindo da Neurologia e da Fisiologia, construiu a sua disciplina como um ramo da Psicologia, restituindo o poder da fala e da cura ao sujeito. 

Portanto, a Psicanálise passa cada vez mais a ser vista com maus olhos pelos defensores da autoridade médica. Freud resistia à ideia da regulamentação da Psicanálise, que passaria, necessariamente, pelo seu ensino nas universidades, pois considerava que apenas aqueles que foram analisados poderiam ensinar e exercer a Psicanálise. Paralelamente, a Medicina científica promovia uma caça aos “charlatões”, e a Psicanálise tornou-se o alvo preferido. Na ocasião, Freud encaminhou para Theodor Reik um médico americano que queria se analisar. Ocorreu que o analisando se voltou contra Reik, processando-o por exercício ilegal da Medicina. Freud lutou muito pelo seu brilhante discípulo, mas Reik foi proibido de exercer a psicanálise, sua única fonte de renda. A proibição ameaçava sobremaneira as analistas mulheres, que em sua maioria não possuíam curso superior. Freud e seus aliados diziam que a riqueza do movimento psicanalítico devia muito à diversidade de seus seguidores, que dominavam os mais variados campos do saber. 

Ironicamente, a luta que os freudianos tiveram que travar para manter a integridade do saber psicanalítico foi proporcionalmente muito maior que as resistências provocadas pela teoria da sexualidade feminina e infantil.

Freud foi um defensor ferrenho da análise leiga ou profana. Segundo Roudinesco (1997), em Dicionário de Psicanálise, os adjetivos leigo ou profano dizem respeito ao fato de que na ótica freudiana a psicanálise é uma prática autônoma, laica e distinta de qualquer outra ciência. O termo não se refere àquele que a pratica, mas à psicanálise em si mesma. A psicanálise é leiga no sentido de que obedece à lei da estrutura do inconsciente, ou seja, leiga no sentido de atributo ético, que não coincide com nenhuma outra definição de categoria profissional. Leigos também somos todos nós, psicanalistas que nos aventuramos a buscar os sentidos do inconsciente e assim sustentar a nossa formação institucional. 

Em 1926, Freud escreveu seu conhecido texto “A Questão da Análise Leiga. Conversa com uma pessoa imparcial”, onde ele reafirma que a Psicanálise é uma ciência laica, autônoma, com pressupostos éticos, formativos e epistemológicos próprios. Nesse sentido, enfatiza que a formação do psicanalista não depende da formação profissional do candidato, mas sim do seu percurso em uma instituição psicanalítica, alinhada às regras de formação ditadas pela IPA e, sobretudo, da sua análise pessoal e do aproveitamento nas supervisões. 

Por fim, Reik foi inocentado, mas com a expansão do nazismo e a consequente emigração de psicanalistas europeus para os Estados Unidos, psicanalistas não médicos foram proibidos de exercerem seu ofício. 

A partir de 1945, com o desenvolvimento da Psicologia, a Psicanálise ganhou novos adeptos, passando em grande parte a ser praticada por psicoterapeutas treinados nas universidades. Segundo Roudinesco, “depois de ter sido engolida pela psiquiatria, a Psicanálise corria o risco de ser tragada pela Psicologia e suas diferentes correntes psicoterápicas”. Houve , então, uma enérgica reação das instituições psicanalíticas, que chamaram para si a responsabilidade e a capacidade de definir os critérios da formação psicanalítica, baseados na análise didática e supervisão. 

A Sociedade de Psicanálise de Brasília (SPBSB) tem como fundadora a Professora Virgínia Leone Bicudo. Primeira mulher negra, não médica e não psicóloga a tornar-se psicanalista. Dessa forma, temos o DNA da diversidade e, assim como Freud, acreditamos que a Psicanálise não é prerrogativa de nenhum curso preliminar, mas de uma experiência que se forma a partir do desejo do analista.

As Sociedades de São Paulo e Brasília, desde a sua criação, aceitaram psicólogos e pessoas de outras áreas para a formação psicanalítica, o que aconteceu mais tardiamente nas outras sociedades federadas. 

Após ser aprovado em seleção, o pretendente, mesmo graduado em medicina e psicologia, mas que não tenha experiência em clínica ou instituição de saúde mental, terá, obrigatoriamente, que fazer um estágio psiquiátrico por um período mínimo de 250 horas. 

Para atender a essa exigência institucional, a SPBSB conseguiu um estágio psiquiátrico supervisionado na clínica Anankê. Este estágio deve anteceder o início dos seminários teórico-clínicos. 

Entre os documentos pedidos na inscrição dos pretendentes, destaco a autobiografia, onde o avaliador pode ter um conhecimento prévio do candidato. A avaliação é feita por Comissões de Seleção, constituídas por três analistas ligados ao Corpo Docente, sendo dois professores titulares, um dos quais analista didata, e um professor assistente. As entrevistas são realizadas individualmente. É fundamental investigar qual a verdadeira motivação envolvida na busca da formação. Outro aspecto importante é perceber como é a experiência de análise pessoal do candidato. Importante verificar se a pessoa está ciente de que deverá começar a análise didática com o analista didata da SPBSB. Em minha experiência como membro da comissão de avaliação, muitas vezes percebo a surpresa e desapontamento quando abordo essa questão. Não são poucos os que acreditavam que a sua análise poderia ser considerada como didática. Deve-se também procurar esclarecer sobre o processo de formação, custos, disponibilidade de tempo, etc. Obviamente, tentar captar como está o momento emocional do candidato e a disponibilidade para o investimento, tanto emocional como financeiro. 

A diretoria da SPBSB tem discutido a importância de se aprimorar o método de seleção. Pensamos na necessidade de rediscutir e definir critérios relacionados ao perfil de nossos candidatos, buscando mais clareza e transparência no processo seletivo, com critérios definidos que precisam ser cada vez mais repensados, tendo em vista, sempre, o mundo interno, os seus aspectos intra e intersubjetivo, bem como o profundo respeito à tradição e à história do movimento psicanalítico. 

Selecionar pretendentes para a formação em Psicanálise, sejam eles de outras áreas de formação, ou mesmo psicólogos ou médicos, é um exercício que requer do entrevistador abster-se de quaisquer esteriótipos ou preconceitos relacionados às diversas atividades profissionais, classe social, religião, idade, sexo, raça, cor, etnia ou procedência. 

Em relação ao parecer, se ele for positivo para o mínimo de dois dos três membros da comissão, o pretendente será aprovado ou recomendado com dúvidas, deixando que se confirmem os acertos ou erros no período posterior, durante a formação, considerando que as condições, ponto central para aceitar ou não um pretendente à formação analítica, é um aspecto a ser desenvolvido durante a formação. Importante ressaltar que o pretendente continuará a ser avaliado durante todo período de formação e terá o seu tempo do vir a ser psicanalista. Tempo que não pode ser contabilizado em dias, meses, ou anos, mas sim o tempo da experiência individual e particular de cada um, vivenciado na experiência de analise pessoal. 

O pretendente recusado terá, se assim o desejar, uma entrevista devolutiva conduzida por um dos membros da comissão que o avaliou, podendo recorrer a uma outra seleção, transcorrido o período mínimo de dois anos. O pretendente selecionado terá o prazo de dois anos para iniciar sua análise didática, e após um ano de análise didática poderá se matricular no curso teórico-clínico. 

O número mínimo de pretendentes selecionados para a abertura de uma nova turma do curso teórico-clínico é de seis, e as seleções são realizadas, em média, de dois em dois anos. 

Nosso Curso de Formação se fundamenta no conhecido tripé, calcado no modelo Eitingon: 

1) Análise Didática;

2) Seminários Teóricos e Clínicos; 

3) Supervisões Clínicas 

A análise didática será feita por um período mínimo de cinco anos, com frequência de três a cinco sessões semanais, com duração de 45 a 50 minutos. Ela deverá se estender, no mínimo, até o término dos seminários teóricos e clínicos e da primeira supervisão oficial, mesmo tendo sido completado o período de cinco anos.

Os pacientes para supervisão deverão ser adultos, atendidos com frequência mínima de três sessões semanais, em diferentes dias da semana. 

A frequência mínima de quatro sessões semanais foi diminuída para três, desde 2011, por solicitação dos candidatos, que alegaram dificuldade  em ter pacientes naquela frequência. 

A SPBSB possui um Centro de Atendimento em Psicanálise e Pesquisa (CENAPP) que atende à comunidade. O candidato pode se inscrever nesse centro a partir do  segundo ano do curso teórico. 

A avaliação das supervisões oficiais será feita pelo supervisor, que encaminhará seu parecer à Comissão de Ensino. Os relatórios das supervisões serão avaliados por uma comissão de três professores titulares, um dos quais com a função didática, designada pela Comissão de Ensino mediante sorteio. 

Durante a formação, de acordo com o artigo 56 do regulamento do Instituto, o candidato poderá ser afastado provisoriamente ou desligado definitivamente pela Comissão de Ensino, homologando decisão tomada pelo Corpo Docente, por maioria simples de seus membros, quando for considerado sem as condições éticas, emocionais, de personalidade ou de aproveitamento no curso teórico-clínico e nas supervisões oficiais. 

Conforme a minha experiência e dos professores do Instituto com quem conversei, não há diferença no aproveitamento dos seminários teóricos ou clínicos entre os colegas que não são médicos ou psicólogos. 

O percurso do vir a ser psicanalista e a formação da identidade do psicanalista é uma construção que acontece a partir do momento em que se inicia a análise pessoal. Afinal,  como bem disse Freud em 1926, a análise pessoal é a condição essencial para se exercer a psicanálise. É na análise pessoal que pode ou não estar nascendo um psicanalista. Mas, como sabemos, esse é um caminho interminável.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Obs.: Este texto é baseado em fala apresentada na reunião do Conselho Profissional da Febrapsi, no dia 20/11, coordenada pelo Diretor Carlos Frausino

Foto: Virgínia Leone Bicudo

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