Editorial – Observatório Psicanalítico – novembro/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Sódepois, 19

Novembro 2021.

No vinte de novembro comemora-se, no Brasil, o Dia da Consciência Negra, data que marca a morte de Zumbi dos Palmares, o maior líder quilombola do país e símbolo da luta antiescravidão. Além da importante homenagem a Zumbi, a comemoração deste dia é fundamental para a reflexão sobre as desigualdades e violências que o povo negro ainda sofre em nossa sociedade. 

Em sintonia com a importância dessa data, dos cinco ensaios que publicamos  em novembro, três entraram para série Vidas Negras Importam. 

Começamos com o belíssimo texto do colega Mauro Campos Balieiro (SPBRP) intitulado “Sankofa, Cura – Para ouvir e pensar”: Vidas Negras Importam XV. O autor nos apresenta dois jovens músicos negros: Amaro Freitas e Jonathan Ferr que despontam na cena musical mundial do Jazz. Mauro descreve o ensaio dele como: “Um texto para prestigiar os artistas negros, aqueles que escaparam das balas assassinas do Estado e sobreviveram ao extermínio da população negra em nosso país (…)”. 

Marcela Monteiro de Souza e Silva (SBPSP), no texto “Os sete de Chicago e a Violência de Estado: Vidas Negras Importam XVI”, discorre sobre justiça e civilização, retomando Freud em seu célebre texto de 1930, “Mal Estar na Civilização”. A partir do roteiro do filme americano “Os Sete de Chicago” – película que recria um dos julgamentos mais vergonhosos da história dos Estados Unidos -, a autora versa sobre as injustiças do racismo e as falhas do pacto civilizatório: “as leis são escritas e estabelecidas por aqueles que têm o poder de vilipendiá-las – geralmente homens brancos – , ou mesmo utilizá-las a serviço da própria pulsão, promovendo, assim, não o bem comum e a civilização, mas a barbárie, na qual o desejo de um – ou de um grupo – é transformado em lei imposta aos demais.” 

Também integrando a série Vidas Negras Importam, temos um texto composto por um grupo de analistas da SBPdePA: Janine Severo, Rafaela Degani, Gabriela Seben, Fernanda Kilinksi e Marcelo Pinheiro, com o título de “Descolonizando o Pensamento”. Os autores relatam a experiência de fazer parte do primeiro seminário em grade curricular sobre relações raciais de sua sociedade, um momento histórico que demonstra um avanço em relação à temática do racismo dentro das sociedades psicanalíticas do Brasil. O grupo retrata com afetividade as trocas e descobertas que fizeram ao longo do semestre e afirmam: “Mais do que um seminário, foi uma experiência de vida e, criado um espaço acolhedor, pudemos entrar em contato com aspectos racistas dentro de nós que desconhecíamos”. 

“Robocop Gay” foi o nome escolhido pelo colega Ian Favero Nathasje (SBPdePA) para seu texto, título que remete à música da conhecida banda de pop rock do final dos anos 90, Mamonas Assassinas. Neste ensaio, o colega debate a polêmica em torno de uma nova edição das histórias em quadrinhos do Superman, onde o filho de Clark Kent seria bissexual. O autor discorre sobre os ideais tóxicos de masculinidade que vão passando de geração em geração, produzindo fobias, preconceitos e exclusão. Nas palavras de Ian: “(…) beijar outro homem não torna o Superman fraco ou menor, mas esse legado de uma masculinidade toda poderosa não parece ser integrado e, portanto, metabolizado, tornado próprio e com possibilidade de ser mexido, refeito, individualizado, atualizado. Isto, que fica não integrado, parece passar de geração em geração com suas regras, dogmas e fragilidades”. 

Finalizamos o mês com um texto sensível e poético da colega Carolina Freitas (SBPdePA). Em “Migrações em análise”, a autora faz um percorrido literário por alguns escritores, como Conceição Evaristo, Mário Quintana, José Saramago, dentre outros. Partindo da ideia de migrações desejáveis ou impostas no cenário mundial, Carolina discorre sobre o processo da análise, convidando a uma viagem “onde o processo analítico e os processos migratórios se cruzam.” Mais adiante a autora escreve: “Partimos da ideia de que somos todos migrantes em nosso mundo interno, desvendando nossos traumas e conectando-nos com nosso desejo (…)”, propondo que possamos pensar “o campo analítico como um campo de refugiados, onde estaremos protegidos por alguns pertences pessoais, memórias e sonhos, mas num lugar temporário(…)”. 

Antes de finalizar o nosso Sódepois deste mês, gostaríamos de trazer notícias sobre o perfil do OP no Instagram. Em novembro  publicamos dois vídeos: o primeiro da coordenadora da curadoria, Beth Mori (SBPB), onde ela conta um pouco sobre a importância e a função do Observatório Psicanalítico

https://www.instagram.com/tv/CWW6F-4gG7U/?utm_medium=copy_link 

Em comemoração ao Dia da Consciência Negra,  publicamos o segundo, um vídeo de Wania Cidade (SBPRJ), diretora de comunidade e cultura da FEBRAPSI, contando sobre a relevância desta data, sobre a história de Zumbi dos Palmares e convocando a uma reflexão sobre nosso sistema colonial e racista, inclusive dentro da psicanálise brasileira.

https://www.instagram.com/tv/CWf1zp4ARRk/?utm_medium=copy_link 

Instituímos em nosso Instagram a conhecida brincadeira do “#tbt”: “Throw Back Thursday”, ou, em livre tradução, “Quinta-Feira do retorno”, hashtag criada nas redes sociais para os usuários publicarem fotos antigas. Portanto, a cada quinta-feira trazemos à tona um ensaio já publicado anteriormente. Neste mês decidimos rememorar alguns textos da série Vidas Negras Importam, seguindo o ritmo das reflexões sobre a temática racial. Quem tiver interesse pode acompanhar nossas publicações procurando pelo perfil @observatorio_psicanalitico. 

Desejamos a todos e todas um bom início de dezembro, que possamos seguir escrevendo e compartilhando, levando nosso ofício para além dos muros das nossas salas de análise. Um abraço afetuoso.

Equipe de Curadoria

Beth Mori, Daniela Boianovsky, Ludmila Frateschi e Rafaela Degani. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

Colega, click no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página no Facebook: 

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