Observatório Psicanalítico – OP 282/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Psicanálise em trânsito: inclusões e exclusões na formação psicanalítica 

Dora Tognolli (SBPSP)

“Mundo mundo vasto mundo, 

se eu me chamasse Raimundo 

seria uma rima, e não uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

Mais vasto é meu coração”

(Carlos Drummond de Andrade, excerto do “Poema de Sete Faces”, em “Alguma Poesia”, de 1930)

O título deste ensaio refere-se a um Webinar da Diretoria de Cultura e Comunidade da FEPAL, realizado em 20 de novembro, com a participação de Bernardo Tanis (SBPSP), como moderador, e André Luiz A. Valle (IP/SBPRJ), Jorge Bruce (SPP), Maria José Tavares (IP/SBPSP) e eu como palestrantes. 

A reunião foi pautada por dois blocos de questões, listadas abaixo, enviadas aos convidados. Cada participante teve 5 minutos para expressar suas ideias em cada bloco, e depois dessa exposição, o debate foi aberto (ao final deste texto, incluímos o link do Webinar, para quem quiser acompanhar na íntegra o evento). 

• Como integramos a abertura para a comunidade na formação psicanalítica?

• O que estudamos e com quem estudamos, dada a pouca diversidade que encontramos hoje nos Institutos de Psicanálise?

VASTO MUNDO? 

Os encontros da FEPAL seguem um modelo que muito me agrada: inter-territorial, inter-geracional. O que nos une hoje é o interesse genuíno pela Psicanálise e a disposição para o diálogo, a conversa, o prazer das trocas. Os temas propostos são recorrentes e necessários, mas tudo indica que as histórias mais relatadas sobre o movimento psicanalítico silenciam seu forte elo com o social e a comunidade. 

A história das clínicas públicas (gratuitas), no período entre guerras, teve um peso significativo, abarcando mais de 10 países europeus. Movimento iniciado por Freud no Congresso de Budapeste em 1918, que defendia que os pobres deveriam ter o mesmo direito que os ricos, as clínicas gratuitas dariam acesso a todos. Freud considerava de fundamental importância a inserção da Psicanálise no campo social – garantia de sua sobrevivência. 

A partir de 1938, tudo se desmancha: a social-democracia em Viena dá lugar ao regime mais nefasto que o mundo já assistiu. Num rizoma do tempo, chegamos, 103 anos depois, ao Brasil, onde nos arrepiamos diante de tanta desigualdade, desgoverno, descaso, desproteção… Nossa Sociedade Psicanalítica não está imune às desigualdades e injustiças do mundo em que vivemos, e, sendo assim, reflete e carrega suas contradições. Penetrada pelas elites, que somos nós, muito distantes de grande parte do País. 

O ideal seria que a população da SBPSP fosse mais próxima do IBGE, contendo em si todos os perfis que nos constituem. Menos elitista, mais humana, onde fossem selecionadas pessoas de talento, afinadas com o espírito da Psicanálise. E esta não é uma característica meramente nossa, mas que permeia os equipamentos de qualidade que construímos a duras penas no Brasil: universidades públicas, salas de concertos, teatros etc. 

Temos muitos desafios: além da prática ética e consistente da Psicanálise, um desejo de modernização política, social e cultural ao modo da própria Psicanálise, que tem como princípios a ruptura dos estereótipos, a autonomia e o questionamento diante do depósito de identificações que nos constituem. 

A vitalidade dos candidatos e membros filiados que chegam, que investem na formação, chama e clama pela vitalidade de quem está na Instituição há mais tempo, e nos deixa mais preparados para entender o mundo contemporâneo, recentemente tão ameaçado por ondas totalitárias e mitologias regressivas que impedem a expansão e o convívio civilizado. 

Nas situações sociais mais críticas – por exemplo, a recente mistura indigesta de pandemia e pobreza – a Psicanálise comparece e nos encoraja a inventar novos dispositivos, diante dos quais se apequena e dissolve o argumento “isto não é Psicanálise”. Experiências recentes de atendimento amplo e vasto, como o Projeto Rede, e os Projetos SOS Brasil, SOS Amazônia, SOS ABC, bem como a atuação da DAC (Diretoria de Atendimento à Comunidade) em várias frentes, evidenciam o já sabido potencial transformador dos dispositivos clínicos. 

Fazer parte de uma instituição vibrante como a nossa, que mostra que a Psicanálise está muito viva entre nós, pode ser uma experiência transformadora, que nos aproxima do “nós”, do vasto mundo, mas, e somente se, estimularmos as brechas e a porosidade, antídoto para o modo de funcionamento “seita”, que prega verdades e dogmas. Esse perigo sempre pode nos rondar… 

Compartilho com vocês algumas questões que espero que também sejam as suas, para as quais não tenho respostas, mas sim disponibilidade para pensarmos juntos: 

• Como sustentarmos uma posição reflexiva e aberta, dentro do Instituto, caminhando em direção a uma Psicanálise menos elitista e mais humana? • Temos cuidado bem do ingresso dos novos que chegam? Temos apostado no trânsito dos diferentes, que trazem consigo sua cultura, trajetória e riqueza pessoal? • Estamos disponíveis para conversar sobre experiências diversas, que vão além do consultório privado tradicional? • Como anda nossa escuta e olhar? Ou sabemos tudo, e vamos ensinar a quem não sabe? • O quanto o vasto mundo tem invadido nossas empresas privadas, e nos inquietado e perturbado? • Visto que o analista está banhado na cultura, em que medida ele não é atravessado e cegado por suas ideologias? Nossa lente ainda tem espaço para olhar o novo, receber o que chega de fora? • Temos feito justiça à complexidade que a Psicanálise introduziu, desde seus primórdios, fazendo uso de ferramentas para tratar da alienação e reificação que caracteriza o “homem das massas”? • Como concebemos a prática dos seminários? • Além dos autores fundamentais, começando por Freud, como se passa a transmissão? • Como as leituras de textos clássicos podem ser ressignificadas e articuladas com a clínica, diante de questões que o mundo contemporâneo nos coloca? • Como pensamos os fenômenos de grupo e massa, distantes do processo civilizatório? • ……………………………..?

Atualmente, temos duas sociedades brasileiras oferecendo programas de bolsas de formação para negros/negras e indígenas. 

• Qual o preparo e a implicação que precisamos ter, para levar adiante programas como esses?

• Temos várias questões atuais que merecem reflexão, tais como racismo, gênero, violência – entre outras. O que pensamos sobre isso? 

Programas de ações inclusivas, que temos acompanhado em algumas sociedades brasileiras, estão em sintonia com diversos movimentos sociais, nas esferas pública e privada. Tais iniciativas deixam transparecer que os institutos de formação podem estar mergulhados e conectados com a realidade na qual se inserem. 

As questões sociais, processos de exclusão, silenciamento, apagamento da memória, quando tocadas, despertam paixões, resistências, muitas discordâncias. 

Se estamos pensando numa chave que nada tem de filantrópico, tais ações vão interferir diretamente no core de cada instituição. Parece mais simples propiciar atendimentos acessíveis em clínicas para pessoas da comunidade, do que abrir as portas e convidar pessoas de talento, alijadas da formação psicanalítica, o que, em geral, requer altos investimentos de tempo e dinheiro. 

Esses projetos implicam em debates com abordagem de temas para os quais estamos pouco preparados, mas dispostos a conhecer melhor as estruturas arcaicas que vivem em nós. Visitas à história, aos próprios grupos excluídos, muitas reflexões. 

Cabe a cada instituição pensar seu projeto, convocar todos seus membros para um debate necessário que está mais do que na hora de acontecer. 

Aqui, na SBPSP, estamos iniciando tal processo, e para isso constituímos uma comissão, a Comissão Virgínia Bicudo. Exemplos da universidade pós-2012 quando foi promulgada a lei de cotas, podem nos servir de norte para enfrentarmos essa tarefa necessária. O que tem ficado claro é que a instituição que se abre e se debruça sobre os restos silenciados da história só tem a ganhar. 

Deixo aqui um depoimento pessoal: Coordenar a “Comissão Virgínia Bicudo”, que irá refletir ações afirmativas e desenhar um projeto para o Instituto, tem sido uma experiência perturbadora: tenho me surpreendido com minhas áreas nebulosas, com as áreas nebulosas de diferentes colegas, ouvido histórias que nunca tinham sido narradas ou que nunca procurei escutar, por inúmeras razões. E deixado muito claro que a conversa e a participação política em grupos de trabalho nos desloca do mundo confortável privado para o vasto e enigmático mundo… 

link: https://www.youtube.com/watch?v=ay-bi7zdt9k

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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