Observatório Psicanalítico – OP 280/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

MIGRAÇÕES EM ANÁLISE

Carolina Freitas (SBPdePA)

CREMOS

Cremos

Quando as muralhas desfizerem-se

Com a mesma leveza 

de nuvens- algodoais,

os nossos mais velhos

vindos do fundo

dos tempos

sorrirão em paz.

Cremos.

O anunciado milagre

estará acontecendo

e na escritura grafada

da pré-anunciação

de um novo tempo,

novos parágrafos

se abrirão.

Cremos.

Na autoria

desta nova história

E neste novo registro

a milenária letra

grafia dos mais jovens.

(Conceição Evaristo)

Cremos que as escolhas estão ligadas por redes inconscientes, algumas vezes latentes, outras já reveladas. No manifesto, minha admiração a esta escritora mineira e contundente. Uma poeta contemporânea. Vibra na luta pela construção da própria subjetividade, abarcada por vivências de sua condição mais humana, de ser mulher, negra, numa sociedade onde as verdadeiras origens são roubadas por colonizadores ou por nós mesmos, furtando-nos o nosso real valor.

O tema das migrações necessárias, desejáveis e/ou impostas sempre foi e será de grande relevância no cenário mundial. Crenças religiosas, confrontos políticos, diversidades culturais, intolerâncias entre povos, e também as familiares, são alguns dos entrelaçamentos geradores dos processos migratórios. Ressaltamos a importância das migrações naturais para o desenvolvimento do planeta, de forma ampla e múltipla, tomando a migração como um deslocamento humano de um lugar para outro, dentro e fora do país de origem, criando uma mudança territorial. Afinal, estamos condenados a compartilhar a biosfera, sabendo que ela vive em constante modificação e que somos parte fundamental desse ecossistema. Estamos, portanto, intrinsecamente ligados a seu processo de equilíbrio, e é aqui que nos encontramos em rotação com o universo, influenciando e sendo influenciados, mesmo nos processos imperceptíveis.

Em uma mesma lógica, estão as relações humanas. Elas são repensadas, apaziguadas, confrontadas e afetam umas às outras, como numa reação química, gerando ações e reações singulares, de acordo com cada encontro, assim como nos traduz o poeta gaúcho Mario Quintana: “A arte de viver é simplesmente a arte de conviver… Simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!”.

A poesia dá nomes, significados, palavras e símbolos valiosos na narrativa de nossa própria construção.

Convido-os a uma viagem, onde o processo analítico e os processos migratórios se cruzam e se compõem, possibilitando novas versões da história, caso haja espaço para o lúdico. Topariam essa aventura às cegas? Imaginar esse processo como um voo migratório, iniciando acompanhado, logo em bandos e, enfim, libertar-se para desejar, traçando o próprio rumo. Partimos da ideia de que somos todos migrantes em nosso mundo interno, desvendando nossos traumas e conectando-nos com nosso desejo, sem negligenciarmos a construção de nossa cultura e origem na miscigenação.

Sensação sentida na carne, tanto como analista e analisanda. Para ilustrar, recorro ao livro da escritora Italiana, com família de origem na Somália, Igiaba Scego, intitulado “Minha casa é onde eu estou”. Ela nos faz viajar pelos seus lugares de origem, e junto com ela, vamos construindo um mapa afetivo recheado de histórias de nossos antepassados, tecendo uma rede onde vamos nos constituindo pela palavra, reconhecendo o valor dessa rede e dos contextos da atualidade.

Nosso mapa pessoal vai sendo traçado através da narrativa e escuta em nosso processo analítico ou daqueles que nos procuram. Passamos por lugares geograficamente delimitados. Assim, as primeiras fronteiras implicam na língua de origem materna, cultura do país, tribo, sabores, cheiros, laços afetivos e o tempo, crendo que as primeiras impressões vão gerando nossos mais singelos registros. E assim o fazemos embalados pela melodia do tempo, esse que nos é tão valioso e que não se mede de nó em nó, parafraseando José Saramago.

Freud, em A Transitoriedade (1915), refere-se às estações do ano e à eternidade frente ao humano e sua efemeridade. Um belo exemplo é usufruirmos da primavera: hoje os Jacarandás vão florindo e colorindo a cidade, onde, outrora, no inverno, os mares foram berçários de baleias. As quatro estações, tão bem demarcadas por aqui, simbolizam a passagem do tempo; sentir o perfume delicado e forte do jasmim propicia novas experiências emocionais, podendo articular-se com marcas mnêmicas.

Diante do relato dos monges budistas, que sobreviveram à perseguição chinesa de tentativa de exclusão do Tibete, ou melhor, com a tomada do território tibetano pela China, proponho pensar que, mesmo sem território próprio e com a queima de seus livros ou mantras escritos, e sob as piores torturas, a transmissão foi mantida através dos mantras e da história contada, de geração em geração. Após fugas das cadeias chinesas, monges e monjas tibetanos buscaram refúgio na Índia. A cultura foi mantida pela palavra oral e constante protesto pacífico. Exemplo disso é a conduta de Dalai Lama, em Darmasala (Índia), mantendo o seu legado de não se deixar levar pelo terrorismo alheio, com a resistência ao uso da violência contra o povo. Após receber refúgio, pode incentivar a arte como uma crença do prosseguimento da cultura. Mais uma vez, essa arte surge como uma forma de elaboração, tal qual nos acalenta Conceição Evaristo, em seu poema “Cremos”, e o Lama, que tanto nos ensina, através de sua conduta de reterritorialização e protesto pacífico.

Pensando, como propõe Deleuze, o conceito de desterritorialização: “não há território sem um vetor de saída do território, e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte” (entrevista em vídeo). Ou seja, estamos implicados no processo de reterritorialização e busca de nossa própria querência.

Trago outro relato, agora da escritora e analista Betty Milan, em seu livro “Lacan Ainda”, que narra a sua própria análise com o “doutor” (como ela se refere ao analista), reiterando a importância de sabermos quem somos, quais processos migratórios atravessamos e quais ainda desejamos atravessar. Com toda a sua leveza, Betty Milan descreve seus sentimentos transferenciais por Jaques Lacan e compartilha um pouco de seu olhar e escuta. Declara ter-se apropriado de sua origem libanesa – não que a tivesse negado -, mas agora percorrendo o percurso transgeracional. Ela sentiu na pele, muitas vezes, o preconceito, a segregação e o desrespeito pelo estrangeiro, pelo estranho, pelo desconhecido.

Lembremos que, para Freud (1919), “nem tudo o que é novo e não é familiar é assustador, a relação não pode ser invertida. Algo tem de ser acrescentado ao que é novo e não familiar, para torná-lo estranho”.

Voltando ao nosso voo teórico-clínico, proponho pensarmos o quanto estamos implicados, como analistas e analisandos, na construção desse mapeamento interno, utilizando alguns conceitos da filosofia, como o pensamento rizomático, movendo-se, abrindo-se em todas direções, pulsando, construindo-se e desconstruindo-se, enlaçando-se com alguns e desenrolando-se com outros.

Metaforicamente, pensemos o campo analítico como um campo de refugiados, onde estaremos protegidos por alguns pertences pessoais, memórias e sonhos, mas num lugar temporário, onde não temos nenhuma inscrição territorial e real de nossa história, mas onde encontraremos recursos internos para nosso processo individual de reterritorialização. Esse lugar é transicional, necessário para nos manter sonhando, mas ainda não é nossa querência.

Aprendi um pouco dos Quilombolas no livro de Itamar Vieira Júnior, “Torto Arado”, e fiquei perplexa com a proibição de construir casas de material duradouro e plantarem legumes de raiz. Tudo porque a terra era emprestada para moradia e plantio- assim pensavam seus proprietários. Eles esquecem e negligenciam aqueles que trabalham nela, conhecem seu valor e vivem de seu sustento. Ali constroem famílias e sonhos, onde as raízes são ancoradas nas vivências e na esperança.

A literatura nos fornece histórias romanceadas, ou não, de como vamos nos tornando quem somos. Alguns mais livres, outros mais enrolados em tramas alheias e/ou próprias, dependendo de cada sujeito. Lembrei-me daquele jogo “War”, o nome traduz-se por guerra. Que guerra é essa? Quem é o inimigo? A estratégia do jogo é ir dominando territórios. Não seria este o intuito de uma análise: desvendar, conhecer, sentir esses territórios internos, jamais visitados, saber-se, e então vir a ser?

Isso tudo, incluindo a cultura de cada povo e territórios desconhecidos, externa e internamente, propondo o aceite das pluralidades que tanto enriquecem nossa construção e Identidade de Psicanalista. 

O processo analítico é tomado desde um plano de voo onde migraremos tanto internamente, em busca de nosso lugar de desejo, quanto externamente, contextualizando-nos em nossa subjetividade, através da multiplicidade, além do voo pelas migrações de nossos antepassados, com a crença de que, após essas viagens, poderemos, talvez, ousar um voo livre: “Minha casa é onde desejo estar”.

Aterrisso – ou vou além – com a crença de chegar na minha casa, sabendo que traçarei outros mil planos de voo, feliz de ser uma eterna viajante neste universo de esperança no encontro. Viva a Transferência, a Transitoriedade e a Miscigenação!                   

SOMOS UMA ESPECIE EN VIAJE

NO TENEMOS PERTENECIAS

SINO EQUIPAJE

 (Jorge Drexler)

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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