Observatório Psicanalítico – OP 279/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Descolonizando o pensamento – Vidas Negras Importam – XVII

Janine Severo, Gabriela Seben, Rafaela Degani, Fernanda Soibelman Kilinski e Marcelo Pinheiro (SBPdePA)

Em agosto de 2021 demos início ao primeiro seminário sobre relações raciais da história da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre- SBPdePA. Consequência do trabalho realizado em 2020, dentro da instituição, em direção a uma maior tomada de consciência sobre as questões raciais. Sob a diretoria da gestão 2020/2021 e em conjunto com os integrantes do projeto UBUNTU, formou-se um movimento que pôs em marcha intervenções antirracistas dentro da instituição. 

Em meio ao cenário mundial de denúncias às crueldades e discriminações, as instituições psicanalíticas (IPA, FEPAL e FEBRAPSI) vêm apresentando seus manifestos de repúdio ao racismo, à violência e à discriminação, bem como apresentando propostas de ações afirmativas e reparatórias, saindo, desta forma, do silenciamento que vinham até o presente momento. A SBPdePA, através de atividades científicas, lives, projeto Ubuntu e grupo de estudos, se coloca em movimento antirracista e anti-epistemicida, sendo exemplo para outras sociedades. 

​O seminário, dialogando com estes movimentos, tem como objetivo promover o estudo sobre o tensionamento existente nas relações inter-raciais, que na maioria das vezes, acontece subliminarmente. A psicanálise surge como possibilidade de explicitar, tornar consciente e assim poder trabalhar estas questões. Para compreensão do colonialismo, do racismo estrutural, da branquitude e da negritude, serão evocados autores clássicos e contemporâneos. 

Freud nunca pensou a psicanálise afastada do contexto sociocultural, portanto acreditamos ser fundamental que a psicanálise no Brasil – país formado por uma população de maioria não branca – seja pensada à luz das relações raciais. Do contrário, exerceremos nosso ofício de forma alienada do cenário que nos cerca. 

O grupo é composto por quatro colegas, membros do instituto da SBPdePA, mais a coordenadora, que se reúnem todas as quartas-feiras (virtualmente e afetivamente) para estudar obras de autores até então desconhecidos por nós. Com empolgação, surpresa e por vezes dor, debatemos os textos de Frantz Fanon, Aimé Césaire, bell hooks, Grada Kilomba, Lélia Gonzales, Silvio Almeida, Maria Aparecida Bento, Lia Vainer Schucman, Sueli Carneiro, Neusa Santos Souza, dentre outros. 

Mas há algo a mais que nos une, para além do amor pela psicanálise e pelo conhecimento: fomos acometidos por um espanto coletivo após a tomada de consciência de nossos privilégios como brancos em um país onde a democracia racial não passa de um mito mal contado. Não cansamos de nos surpreender com nossa ignorância a respeito de um tema tão fundamental. Autores importantíssimos, obras geniais que nunca haviam sido lidas por nós, psicanalistas em formação, leitores assíduos, curiosos, entretanto alienados a respeito desse assunto. 

O silenciamento epistemológico fica evidente ao revisarmos a vasta literatura de autores negros que sempre estiveram ao nosso alcance, mas que nunca enxergávamos. A cada quarta-feira reforçamos a certeza de que não há mais como pensar a psicanálise sem compreender, minimamente, os horrores causados pelo racismo. 

Mais do que um seminário, foi uma experiência de vida e, criado um espaço acolhedor, pudemos entrar em contato com aspectos racistas dentro de nós que desconhecíamos. 

Através das leituras e discussões, véus foram caindo, ficou impossível olhar as relações inter-raciais da mesma maneira ou deixar de ver as formas sutis, mas igualmente violentas, do racismo. Fica o sentimento de que um novo universo se abriu e muita vontade de conhecer mais profundamente os autores estudados (e os que não puderam ser estudados), já que descobrimos obras com um valor imenso, e que dificilmente conheceríamos se não fosse essa oportunidade.

Em meio às leituras cuidadosamente escolhidas pela coordenadora, suscitam  questões de toda ordem. 

Exemplos não param de surgir, da clínica e da vida, do cotidiano. Lembramos de um passado não tão distante, em que sequer pensávamos sobre o racismo, brancos que somos. Afinal, “não era problema nosso”: um racismo à brasileira do qual, felizmente, buscamos nos desvencilhar. Perguntamo-nos, consternados, como é que não nos ocupávamos desse assunto em nossa prática clínica. Não costumávamos refletir, mais a fundo, sobre os impactos da violência do racismo cotidiano e sobre a forma como se constituem subjetividades em um contexto cultural de modelo colonial, que perdura até os dias de hoje em nossa cultura, ainda que sob novas roupagens. 

Ainda são poucos os negros que chegam em nossos consultórios. Certamente existem componentes socioeconômicos e de exclusão, por exemplo, que inviabilizam o acesso à formação psicanalítica e ao tratamento psicanalítico, mas não será esse também um problema relacionado à nossa escuta? Qual será a nossa escuta quando não estamos cientes do racismo estrutural que nos habita? 

Como interpelamos o traumático que invade o outro que sofre o racismo na pele se não sabemos de seus impactos subjetivos? Por mais empáticos que sejamos à dor do outro, a dor do racismo requer um outro trabalho, que consiste em colocar no centro da análise e das discussões nas instituições psicanalíticas a problemática racista . Para tanto, é imprescindível a nossa desalienação através do debate e do pensar crítico, algo que este seminário tem nos proporcionado. 

Diante da complexidade do racismo no Brasil, onde a maior parte da população acredita haver preconceito contra negros e ao mesmo tempo a imensa maioria desta mesma população não se reconhece como racista, facilmente podemos nos deixar enganar e seguir perpetuando esse ciclo perverso, no qual a população negra permanece à margem da sociedade, sem acesso a direitos básicos. 

Neste sentido é fundamental que possamos, além de progredir em nosso próprio processo de letramento racial, fazer com que um número cada vez maior de pessoas ao nosso redor também possa se engajar nesse processo, o qual envolve a percepção da própria branquitude e dos privilégios a ela atrelados. 

Entendendo a Psicanálise, desde sua origem, um sítio de branquitude e mentalidade colonizada, faz-se necessário um trabalho profundo em direção à descolonização do pensamento. Nossos institutos, quando promovem a transmissão do conhecimento psicanalítico baseando seus programas em autores brancos e estrangeiros, reproduzem sem ter consciência, uma atitude racista. 

A ruptura desta reprodução pode se dar em todos os níveis dos espaços institucionais, através da inclusão de membros no instituto (através de bolsas/cotas), professores convidados, autores e temas, nos seminários, representantes das nações indígena e afro-brasileira, promovendo, assim, o resgate da cultura e da ancestralidade que compõem  as raízes do povo brasileiro, bem como reconhecer a sua qualidade epistêmica para além da já conhecida eurocentrada.

Cada vez mais têm-se enfatizado as importantes contribuições que a psicanálise pode oferecer à sociedade , para muito além do que se passa dentro dos consultórios e sociedades psicanalíticas. Psicanálise ampliada e implicada, estudos que vão além de autores homens, brancos e europeus, ineditismo que tem nos servido de bússola em nossos encontros de quarta-feira.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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Os ensaios do OP são postados no site da Febrapsi. Clique no link abaixo: 

https://www.febrapsi.org/

 
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