Observatório Psicanalítico – OP 278/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

Os sete de Chicago e a violência de Estado – Vidas Negras Importam – XVI

Marcella Monteiro de Souza e Silva (SBPSP)

 “O script não mudou para espelhar os tempos, foram os tempos que mudaram para alterar o script”, declarou Aaron Sorkin, diretor de “Os Sete de Chicago” na ocasião do lançamento do seu filme, em 2020. A película, que  recria um dos julgamentos mais vergonhosos da história dos EUA, ocorrido em 1968, nos interpela por sua atualidade.

O ritmo inicial do filme é frenético, transmitindo a sensação de agitação e efervescência social do momento que, sabemos, era mundial. São  sobreposições de cenas em flashback e imagens de arquivo que dialogam entre si, revelando, inclusive, as diferenças entre os vários movimentos representados pelos réus do julgamento. Assim, somos apresentados aos personagens e ao cenário mundial. A manifestação e o  julgamento  acontecem em 1968, o mundo está em plena Guerra Fria, marcado por vários conflitos sociais, políticos e militares (a própria Guerra do Vietnã), mas também o Maio de 68 na França, a Primavera de Praga e a Revolução Cultural na China. Várias ditaduras, inclusive aqui no Brasil, ano do AI-5 e da passeata dos cem mil (a maior passeata contra a ditadura militar desde sua implantação, em 64). Um momento, portanto, em que o  mundo estava em crise; é nítida a polarização de ideias na emergência de vários protestos de estudantes, artistas e trabalhadores questionando a ordem vigente marcadamente bélica, autoritária e tradicional dos costumes. 

O julgamento acontece sob o governo Nixon, herdeiro da Guerra do Vietnã do presidente Jonhson, onde se testemunha o fortalecimento de movimentos pacifistas e por direitos civis, especialmente dos negros. O que assistimos é um julgamento com cartas marcadas, farto de dispositivos de cunho autoritário culminando na condenação dos 7 réus. Um “oitavo” réu é incluído no grupo, o líder dos Panteras Negras, Bobby Seales, como uma manobra racista na tentativa de induzir o júri à condenação do grupo, e sobre o qual o juiz age de forma extremamente desigual, violenta e sádica.  É, portanto, um julgamento político como denunciado por Abbie, líder dos hippies, quando afirma ao grupo de réus: “nós não estamos sendo julgados pelo que fizemos, mas por quem somos” ou, ainda, “nós não fomos pegos, mas sim escolhidos”.

Assistimos, no decorrer do julgamento, sua evidente manipulação, assim como vemos exposta a interferência do governo nos  tumultos ocorridos nas ruas de Chicago por meio da infiltração de trinta e sete agentes do FBI. 

Para Freud, a justiça é a primeira exigência da civilização. Sabemos que ele não tinha muitas ilusões acerca dos seres humanos. Em “O Mal Estar na Civilização”, publicado em 1930, ele retoma o conceito de pulsão de morte e afirma que o ser humano não é uma criatura dócil, gentil, que deseja apenas ser amada ou que ataca quando é agredido. Ao contrário, somos criaturas desejantes, pulsionais e portamos uma boa dose de agressividade. O outro, para nós,  pode ser objeto de amor ou de consideração; mas pode também ser usado como um meio de  satisfazer nossos desejos e nossa destrutividade: somos capazes de explorar, roubar, humilhar e torturar. Por isso é preciso um estatuto legal que regule as relações humanas, restrinja os excessos e assegure uma certa igualdade, promovendo um arranjo possível entre as reivindicações de cada um e as reivindicações da comunidade.

Porém, como nos lembra Abbie, as leis são escritas e estabelecidas por aqueles que têm o poder de vilipendiá-las – geralmente homens e brancos -, ou mesmo utilizá-las a serviço da própria pulsão, promovendo, assim, não o bem comum e a civilização, mas a barbárie, na qual o desejo de um – ou de um grupo – é transformado em lei imposta aos demais.

O filme mostra muito bem como o Estado, que inicialmente deveria legislar e garantir o Estado de Direito e a liberdade democrática, muitas vezes capitaneia essa destruição dos ideais civilizatórios e promove, de inúmeras maneiras, a própria violência do Estado.

A mais explícita é a do juiz Hoffman, que personifica o Estado e se arvora o direito de legislar segundo o seu desejo: se não quer levar em conta os direitos constitucionais que Seales reivindica, ele o amordaça; se não quer ouvir a defesa que denuncia as suas arbitrariedades, ele a acusa de desacato;  se não quer que o júri  tenha acesso a determinadas narrativas, ele as anula. São atos autoritários e arbitrários (por sinal, essa é uma das características do autoritarismo: a pessoa não se vê como um representante da lei, ao contrário, considera-se como aquele que faz a lei), dignos de ditaduras, chegando até à profunda desumanização do outro: Seales apanha, é algemado nos pés e nas mãos e amordaçado. Cena que nos remete às máscaras de silenciamento dos escravizados e nos mostram a atemporalidade do racismo.

A própria lei Hap Brown, a partir da qual os réus foram julgados, foi uma lei construída pelos brancos sulistas dos EUA, juntamente com o objetivo de limitar a expressão de ativistas negros.  Ela nos faz lembrar as leis segregacionistas Jim Crown (vigentes até 1964 nos EUA), que, além da interdição do casamento interracial, proibiam aos negros o acesso a lugares públicos, à educação e à universidade; leis que organizavam a sociedade separando as pessoas por raça, essa criação fictícia, para justificar a exploração e opressão. É o Estado, através das leis, produzindo a discriminação, ou seja,  um racismo de Estado. 

Silvio Almeida, filósofo e advogado brasileiro, nos alerta que o racismo é um tipo de racionalidade que vai se adaptando aos sistemas vigentes, adquirindo outras roupagens. O racismo colonial aparecia na escravidão como um processo político de contínua desumanização,  o racismo científico justificava-o a partir das “teorias científicas” da época e o racismo de estado (lei segregacionistas, justiça discriminatória) dá continuidade a ele, como mostra o filme. Podemos lembrar, também, da tentativa aqui no Brasil de criminalizar o samba e a capoeira no Código Penal de 1890.

Sabemos que depois da Guerra de Secessão, se produziu uma representação negativa do negro no imaginário social estadunidense como aquele que vai estuprar a moça branca, que vai roubar, facilitando, assim, a criminalização, o encarceramento, a violência policial e até a morte. Vidas sem valor, vidas “matáveis”. E Seales, o líder dos Panteras Negras, sabia que não gozava do mesmo estatuto de humanidade que os demais réus. A vida dele, assim como a de Fred Hampson, que foi executado – ambos negros -, valia menos, eles eram mais “matáveis” que os demais. Isso aparece num dos diálogos mais marcantes do filme quando, na cadeia,  Searles relembra Hayden dos negros que foram  mortos e pendurados nas árvores pela Klu Klux Kan no sul do país.

O que assistimos, então, é a perpetuação da lógica colonial racial de violências raciais naturalizadas. Lógica que se assenta no “reducionismo europeu” (Aimé Césaire): a tendência que uma civilização prestigiosa tem de reduzir a noção de “universal”  às suas próprias dimensões e características. É quando se elege o homem branco, heterossexual como o padrão, a norma, a partir do qual os demais, diferentes, são “o Outro”, os inferiores: os não brancos, as mulheres, os não heterossexuais.

Freud, no seu texto “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, de 1923, que trata sobre os processos identificatórios nos grupos, afirma que o sentimento de pertinência no grupo e o vínculo entre seus membros tende a aumentar se existe um “não grupo”, os de fora, a quem se dirige o ódio. Esse parece ser o interesse do governo Jonhson quando ele tenta criar uma imagem dos manifestantes e da esquerda como incendiários, “destruidores da sociedade americana e do governo”, como escrito na carta do FBI, associando-os a obscenidades, drogas, sexo, promiscuidade, em uma tentativa de “produzir” um inimigo do país e do povo. Bem como Nixon, que, ao prender os réus, expõe o que poderia acontecer com aqueles que ousassem protestar em seu governo.

O filme, portanto, explicita como o autoritarismo relaciona-se ao ganho de terreno das minorias. O medo do avanço dos direitos civis dos negros – mas poderíamos dizer também, atualmente, das mulheres e da população LGBTQIA+ –  apavora o patriarcado branco heterossexual, que se vê ameaçado com a luta por igualdade racial, igualdade de gênero e igualdade de classe, reagindo, tal qual o script, autoritária e arbitrariamente.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

*Este texto é baseado em fala realizada no Museu de Imagem e Som (MIS), dentro do ciclo Cinema e Psicanálise, coordenado por Luciana Saddi, representando a diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP. 

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