Observatório Psicanalítico – OP 262/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

O Brasil na Olimpíada: da náusea à flor

Mário Barcellos (SPPA)

Nossa memória se constrói com a argamassa da emoção. O salto de Rebeca. A velocidade de Alison. O nocaute de Hebert. A magia de Rayssa. O radical de Pedro. A manobra de Kelvin. O improvável de Laura e Luisa. A força de Isaquias. O ippon de Daniel. A braçada de Ana Marcela. O fôlego de Fernando. A estratégia de Martine e Kahena. O ritmo de Bruno. A abnegação de Abner. O soco de Bia. A volta de Thiago. O verde do vôlei. A amarela do futebol. O Ítalo ao Norte. A Mayra ao Sul.

O  Brasil dos últimos dois anos e meio – vê bem: ainda antes da tragédia pandêmica – é uma superfície escura, áspera, hostil. Mas nos Jogos Olímpicos, como por encanto, somos um tecido luminoso, suave, aprazível. Com os sentimentos esportivos e humanos que ouvimos, assistimos e compartilhamos, compomos registros particulares de beleza incomum, que aliviam o amargor que a realidade tem nos decretado.

N’O Globo, o jornalista Alexandre Alliatti, como um arqueiro, acerta o centro do alvo na alusão à poesia: a Olimpíada foi a flor que brotou em nosso asfalto. Sobrarão, escreve ele, as lembranças de um Brasil que sobrevive à náusea. Que resiste à tentativa perversa de nos convencer de que a mentira pode imperar. De que a força bruta (e brutal) é poder maior. De que as nossas vontades precisam ser impressas para serem válidas.

Os Jogos Olímpicos são pregoeiros da verdade, inimigos do embuste. O treino prepara. O pensamento engrandece. O esforço compensa, nem que seja pelo orgulho de fazer parte de algo monumental. A complexidade é da vida: o mundo é das diferenças. Somos tantos corpos e cores e traços e desempenhos.

Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera. Desde Itabira, Drummond nos salva. Na emoção que a arte acorda, no coração que a literatura acalenta e acelera.

Sábado de manhã, último dia de Olimpíada, meu filho de cinco anos me diz: “Pai, eu consigo sonhar qualquer coisa, mesmo que eu esteja acordado”. Seus sonhos, acho eu, são desejos que se realizam. Em tempos olímpicos, todos nós podemos sonhar assim: impossível não há. O nome do meu filho é João. De João Gilberto. De João Guimarães Rosa. Do Brasil – forma insegura – que, nessa estranha Tóquio 2020 que se passa em 2021, fura o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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