Observatório Psicanalítico – OP 263/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Talibã e Afeganistão: História recente em região milenar

Sylvain Levy (SPBsb)

É muito comum quando se inicia um texto que não se enquadra em nosso conhecimento habitual, tentar se contextualizar o assunto com dados gerais, para situar o leitor. Vou fazer isso em relação ao Talibã e ao Afeganistão, mas não tenho esperanças que vá contribuir muito para a compreensão. Mas, inicio com um ditado árabe: “Eu brigo com meu vizinho. Meu vizinho e eu lutamos contra nosso primo; Eu, meu vizinho e meu primo guerreamos contra o estrangeiro.” 

Essa parece ser a sina do Afeganistão, país que começou a ser desenhado no início de 1700 como império, a partir da união de diversas tribos que guerreavam entre si, por tudo e por nada. 

O primeiro Império foi o Hotaqui, em seguida o Durrani, depois Emirado, Reino, República, Emirado Islâmico e depois, mas não finalmente, República Islâmica. Se for por riquezas, as lutas são inexplicáveis. País rochoso em sua maior parte, tem nas papoulas sua plantação mais conhecida. Os idiomas dominantes são o árabe e o pashto, que na sua tradução agrícola (pasto) é quase inexistente. 

Recorrendo a Wikipédia, encontramos que o Afeganistão (em persa e pastó: افغانستان, Afġānistān) é um país sem litoral, montanhoso, localizado no centro da Ásia, estando na encruzilhada entre o Sul da Ásia, a Ásia Central e a Ásia Ocidental. Faz fronteira com o Paquistão ao sul e ao leste, com o Irã ao oeste, com o Turcomenistão, Uzbequistão e Tajiquistão ao norte e com China no nordeste. O território foi um ponto essencial para a rota da seda e para a migração humana. Arqueólogos encontraram evidências de presença humana remontantes ao Paleolítico Médio (c. 50 000 a.C.). A civilização urbana pode ter começado entre 3 000 e 2 000 a.C.. 

O país fica em uma localização geoestratégica importante que liga o Oriente Médio à Ásia Central e ao subcontinente indiano, tendo sido a casa de vários povos através dos tempos. A terra tem testemunhado muitas campanhas militares, desde a Antiguidade: as mais notáveis feitas por Alexandre o Grande, Chandragupta Máuria, Gêngis Cã, pela União Soviética e, mais recentemente, pelos Estados Unidos e OTAN. 

Ou seja, as brigas internas ou externas configuram o espírito guerreiro desse povo e sua luta por uma integração: “Puxe sua espada e mate qualquer um, que diz que Pachtum e Afegão não são um! Os Árabes sabem e assim fazem os Romanos: Afegãos são Pachtuns, Pachtuns são Afegãos. Extraído de “Passion of the Afghan” de Khushal Khan Khattak; em tradução de C. Biddulph in “Afghan Poetry Of The 17th Century: Selections from the Poems of Khushal Khan Khattak”, London, 1890. 

Após a revolução marxista de 1978 e a invasão soviética em 1979, teve início uma guerra entre as forças governamentais apoiadas por tropas soviéticas e os rebeldes mujahidin, apoiados pelos Estados Unidos, Paquistão, Arábia Saudita e outros países muçulmanos. Nesse conflito, mais de um milhão de afegãos perderam a vida, muitos deles vítimas de minas terrestres. Após a vitória dos rebeldes, em 1992, teve início uma guerra civil entre diversos grupos rebeldes, vencida pelos talibãs. 

Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, um novo conflito se iniciou, decorrente da intervenção de forças norte-americanas no país. Em dezembro de 2001, o Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizou a criação da Força Internacional de Assistência para Segurança para ajudar a manter a segurança no Afeganistão. A guerra de vinte anos entre o governo e o talibã, atinge seu clímax em 2021, com a retirada das forças americanas e a consequente queda de Cabul. 

Tudo leva a crer que as brigas internas vão continuar, sempre em detrimento da segurança da população e, em favor de quem acredita estar mais certo no domínio da sharia – a lei islâmica – e consequentemente mais perto do Deus. 

A cultura do Afeganistão tem seu registro traçado pelo menos até o tempo do Império Aquemênida em 500 a.C. É bastante influenciada pelo Islamismo, porém, recebeu, ao longo dos séculos, influências do budismo e do zoroastrismo. Os monumentos históricos do país foram muito danificados por anos de guerra, e um exemplo disso foram as duas gigantescas estátuas de Buda, existentes na província de Bamiã, que foram destruídas pelos Talibã por serem consideradas idólatras. 

Recorrendo a Freud, no “Futuro de uma Ilusão” (1927), encontramos: “cada individuo é virtualmente um inimigo da cultura, embora seja esta um interesse da comunhão humana”. E, mais adiante, “as criações humanas são de fácil destruição; a ciência e a técnica que as construíram podem ser aplicadas também ao seu aniquilamento”. 

Depois dessa peregrinação, chegamos ao talibã, palavra emprestada do árabe que passou a significar, em persa moderno e em afegão, “estudante”. Talibã é um movimento fundamentalista islâmico nacionalista que se difundiu no Paquistão e, sobretudo, no Afeganistão, a partir de 1994 e que, efetivamente, governou cerca de três quartos do Afeganistão entre 1996 e 2001, apesar de seu governo ter sido reconhecido por apenas três países: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Paquistão. Seus membros mais influentes eram ulemás (isto é, teólogos) em suas vilas natais. O movimento desenvolveu-se entre membros da etnia pachtun, porém também incluía muitos voluntários não afegãos do mundo árabe, assim como de países da Europa e da Ásia, principalmente do Sul e Sudeste da Ásia. As bases de seus conceitos e predicados são encontradas nos próprios textos do profeta Maomé, mas é sempre bom lembrar que eles foram escritos nos anos 600 d.C., na vigência de uma sociedade eminentemente patriarcal, onde as mulheres tinham poucos direitos e muitos deveres. É oficialmente considerado como organização terrorista pela Rússia, União Europeia, Estados Unidos da América, Canadá, Emirados Árabes Unidos e Cazaquistão. 

Como toda organização terrorista fundamentalista, seus alicerces são o ódio, a destruição e a morte. Esse impulso tanático não consegue ser contrabalanceado pelo impulso de vida identificado na tentativa de integração dos povos afegãos numa única tribo. Esse movimento vital é compreendido pelo talibã mas desvirtuado na direção do fanatismo religioso e da imposição de uma fé única e implacável. 

Pode-se especular porque começou apenas em 1992, enquanto outros movimentos fundamentalistas se iniciaram 30 anos antes. A falta de um estímulo externo, como existiu em Israel com a OLP e o Hamas, na guerra dos palestinos contra Israel; o atraso tecnológico do país que dificultava as comunicações internacionais e a ocidentalização das grandes cidades como Cabul e Kandahar, empurravam a criação do movimento para a área rural, onde o predomínio sempre foi dos chefes religiosos, que evitavam se imiscuir em assuntos mundanos. 

Porém, seus alunos, os estudantes que se autodenominaram talibãs, precisavam descortinar oportunidades que, num país atrasado e com fortes dificuldades de ascensão social e econômica, não eram possíveis. Como em todo movimento transformador, sabe-se como começa, mas não se sabe como termina. É lícito se indagar qual o interesse econômico que daria suporte a uma luta pelo poder no país. Noticias sobre provável presença de minérios circulam nos jornais, mas o que é certo mesmo, é a existência de milhares de plantações de papoula, insumo básico para produção de heroína e ópio, e que o país é um entreposto do tráfico dessas drogas. 

A aplicação surda e cega da lei islâmica atraiu simpatizantes e consolidou estruturas sociais seculares, se não milenares, como a castração social, econômica e emocional das mulheres. Esse é o aspecto mais visível, porém, o subjacente é o paulatino desprezo pela individualidade e o apagamento do sujeito, submetido a condutas humilhantes onde a degradação do individuo é o caminho para se apropriar de sua alma e de sua vitalidade. Essa estrada é muito conhecida nas técnicas de interrogatório sob tortura, tão elogiada por Bolsonaro. 

Quando tomaram o poder pela primeira vez, em 1996, o talibã obrigou aos homens a usar barba e proibiu as mulheres de sair de casa sem a burca (traje que cobre todo o corpo, incluindo o rosto), de frequentar escolas e de trabalhar. Cinema e televisão foram proibidos. 

Aproveitando-se da desagregação causada pelos conflitos, os talibãs, que regressavam das madrassas no Paquistão, acabaram por banir praticamente todas as manifestações culturais que considerassem contrárias à religião. Freud, ainda no “Futuro de uma ilusão”: “Os deuses conservam seu tríplice papel: o de eliminar os pavores da natureza; o de operar a conciliação com a crueldade do destino, principalmente na eventualidade da morte, e o de compensar ao homem os seus sofrimentos e privações, que lhe advém da vida coletiva na civilização”. 

A esses deve ser acrescentado mais um, o de instrumento de dominação. Provavelmente Freud não citou esse último em razão de que as teocracias, até então, eram exercidas por dirigentes não religiosos, mas prepostos pelas bases sacras. 

Não se tem elementos para imaginar que algo possa ser diferente nessa segunda tomada do poder, exceto se os instrumentos do fundamentalismo venham a sofrer modificações ou que os países limítrofes se sintam de tal modo ameaçados que consigam impor restrições ao talibã. 

Ao ver nas fotos e filmes os fundamentalistas portando armas automáticas moderníssimas e registrando tudo com celulares de ultima geração, podemos pensar que eles não se sentem ameaçados nem pela modernidade nem pela ciência e tecnologia. É muito mais o negacionismo ao que percebem do que àquilo que não entendem, é muito mais uma conduta defensiva das suas oportunidades, das suas vantagens e de seus espaços que podem vir a ser ameaçados pelas mulheres, pelos estrangeiros ou por aqueles que já têm algum preparo ou habilidade. 

Nesse sentido, não pode ser considerado um governo teocrático dirigido por clérigos, mas um governo que faz uso da religião e da aplicação da sharia para benefício de um determinado grupo.

É impossível não fazer um paralelo entre o movimento talibã para chegar novamente ao poder e o atual governo brasileiro. O talibã, durante vinte anos, solapou a democracia afegã, sorrateiramente através das prédicas religiosas dos ulemás e mujahidins, e abertamente mediante o uso do poder armado, da força e da intimidação. Desde que assumiu o poder, Bolsonaro e seu grupo de crentes vem trilhando o mesmo caminho, ora sorrateiro, mediante o uso da internet, de fake news e de fake facts, ora abertamente arrotando poder e conluio com as forças armadas e ameaçando abertamente a democracia brasileira. 

Numa alegoria antropológica, talvez não politicamente correta, pode-se traçar um esboço de percurso desde que o homem desceu das árvores há cerca de 4 milhões de anos. As primeiras leis foram surgir em 6.000 a.C., entre os Sumérios (Código de Talião). Portanto, as regulações até então existentes eram exclusivamente individuais e relacionadas aos instintos básicos de luta e fuga, de sobrevivência e preservação, e não àquelas relativas ao comportamento social propriamente dito. 

Como diz Freud (1930), em “Mal-Estar da Civilização”, pode-se caracterizar uma civilização como tal quando as leis são constituídas para defender o individuo do estado, o estado do individuo e um individuo do outro. Pelo menos, no Afeganistão dos talibãs, essas três premissas podem ser questionadas, assim como o estágio atual de civilização.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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