Observatório Psicanalítico – OP 261/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

JOGOS ONÍRICOS

Ariana Marinho da Silva (SBPSP)

Há um ano e meio acordo mal, aliás, acordo e durmo mal. É difícil pra dormir, difícil pra acordar, a cabeça saturada de pesadelos e devadelos (não sei como nomear um devaneio ruim). Há duas semanas eu continuo a acordar mal, mas surpreendentemente passei a dormir bem. Durmo bem e acordo mal, sintomas novos, curiosidade atiçada, comecei a investigar. Como psicanalista aprendi a observar e ouvir meus sonhos mas, como fazia tempo que não sonhava, demorei pra pegar o jeito. 

O primeiro sonho que me lembro foi com uma fada, ela não tinha asas, se movia agilmente através de uma pequena tábua de madeira com rodas.  O sonho ocorria em um local muito grande, que parecia apropriado para receber muitas pessoas, mas que estava escandalosamente vazio. Me lembro da angústia do vazio, mas do redescobrimento de uma sensação antiga, há muito não sentida, e ainda inominável. 

Ao acordar mal, me deparei com sons novos no bairro e, ao sair de meu apartamento / cativeiro, me deparei com uma nova construção em frente ao meu prédio. Há algumas semanas havia um burburinho, um mistério sobre o que seria feito do antigo estacionamento. Olhos curiosos o cobiçavam – “Será um novo bar, um novo restaurante?” – e naquele dia eu a vi pela primeira vez. Uma pista de Skate! Imediatamente me lembrei do sonho e comecei a devanear, como há muito não fazia. “Será que é muito tarde pra aprender a andar de skate? Minha cervical aguentaria? Tem limite de idade para skate?”. E de repente me vi sorrindo em meus devaneios, imaginando uma legião de homens e mulheres de todas as idades e cores se apropriando daquela pista, preenchendo os espaços. 

O segundo sonho veio logo após o primeiro, eu estava começando a pegar o jeito. Nesse havia vários seres saltitantes, muitos de lugares tão distantes que só a imaginação consegue alcançar. Com peles e roupas coloridas, faziam um espetáculo há muito não visto em meus sonhos. Lembro da excitação e vibração sentidas por mim, pelos seres e pelos poucos expectadores. Dentre esses seres, uma se destacava, me sentia estranhamente familiarizada com ela, e vibrava a cada salto. Ela usava um colar prateado muito lindo e que, de tão brilhante, refletia o que estava ao redor. Me aproximei dessa luz refletora e, de repente – um susto – me vi refletida com os olhos marejados, um choro que há muito não saía, e que aproveitou a aridez do meu rosto e se esparramou, fertilizando uma emoção que ainda não conseguia nomear, mas sentia perto.   

Ao acordar mal, mas confesso que dessa vez um pouco melhor, me deparei com um vídeo de uma ginasta brasileira muito importante para a história desse esporte no Brasil, Daiane dos Santos. Ela chorava como eu no sonho, e pude ver seu rosto também se nutrindo daquela água salgada, fruto das nascentes mais profundas que uma pessoa pode ter. E o que ela disse – ah, o que ela disse –  me tocou tanto que preciso transcrever por completo, não posso parafrasear : “…Na Ginástica Artística, durante muito tempo, as pessoas disseram que não poderia ter uma ginasta, que as pessoas negras não poderiam fazer alguns esportes…e a gente vê hoje, a primeira medalha, pra uma menina negra. Tem uma representatividade muito grande atrás de tudo isso.  É uma mulher, uma mulher negra, uma menina, uma menina que veio de uma origem muito humilde, foi criada por uma mãe solo, como a Dona Rosa, porque o pai da Rebecca é vivo, mas não é presente na vida dela. Aguentou tudo que ela aguentou, todas as lesões…e tá aí hoje, pra ser a segunda melhor atleta do mundo… uma brasileira… olha, eu não tenho… eu não consigo me expressar direito, porque é muito difícil, sabe?…”. 

Com lágrimas nos olhos, e as tenho agora novamente nessa tentativa de elaboração, a encontrei. A emoção perdida. Velha companheira que há muito não dava notícias, que parecia ter se mudado para um país distante. A esperança. A abracei como um amigo que não vejo há muito tempo, e não quero largar, não quero que vá embora. Recomeço a fazer planos, os devaneios ficam mais constantes, mais ricos, mais vivos. 

Tive outros sonhos desde então, e no meio de um, acordei com um devadelo. Sonhei com gigantes que remavam por mares turbulentos, mas deslizavam como se estivessem descendo um morro de areia sobre um pedaço de papelão. Sorriam, e eu também, agora embalada pela nova/velha emoção. De repente, os rostos deles paralisaram em uma expressão de pavor e agonia, a canoa parou, um vento frio chegou e arrepiou todo o meu ser. Acordei do sonho com uma voz conhecida, inseguramente confiante, gravemente estridente, que ameaçava novamente nossa esperança, dizia que não haveria jogo se ele não pudesse ganhar. Que a bola era dele, as regras eram dele, que ele estava para acabar com tudo o que está aí. Com tudo, com a democracia, a esperança, a vida…as mais de 560 mil vidas…perdidas, assassinadas. 

Acordei mal novamente, e sei que ainda terei muitos dias assim, eu e toda uma população. Mas, eu voltei a sonhar, e espero (agora reaprendi a usar esse verbo) que mais brasileiros também. E quando a gente reaprende a sonhar, dá pra voltar a cantarolar uma velha canção: “ Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…”. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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