Observatório Psicanalítico – OP 260/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Fake news, um olhar psicanalítico

Cíntia Xavier de Albuquerque (SPBsb)

Fake news não são rumores, boatos ou fofocas. São armas de guerra. É crime. Nada tem de passageiro ou inofensivo. E mais: esse tema se tornou linha de pesquisa acadêmica. De acordo com os primeiros resultados, são as seguintes as suas características: surgiram em 2016 (Brexit e as eleições de Trump), em tempos de hiperpolarização política e do avanço da direita conservadora digital no mundo; dependem da hiperconexão que existe hoje, há uma geração de pessoas que jamais desliga seus celulares; dependem de disseminação digital, têm uma capilaridade sem precedentes, sem barreiras geográficas ou de classe social; hoje ganham qualquer forma, não apenas a imitação de notícias da mídia; são fabricadas, inventadas, são distorções de notícias, falsificações; têm malignidade intencional, não é jornalismo, é a chamada política suja.

Por que será que esse fenômeno tomou tal proporção? De onde isso parte, quem faz, para que e para quem? 

Vamos começar por aqui: somos muito frágeis. Pouco sapiens e muito emocionais. Desamparados e desinformados nos tornamos ainda mais frágeis, sem capacidade de pensar, de avaliar a realidade, de fazer críticas e ter opinião própria. Já sabemos que o desamparo acentua a necessidade de idealização. Falando assim, até parece que estou me referindo a bebês, mas não. Na verdade, me refiro ao infantil no adulto.

O bebê nasce completamente necessitado de cuidados e, dependendo da maneira como os recebe – cuidados materiais e emocionais, numa troca contínua e infinita com a mãe, vai se dando a formação do eu, de maneira mais ou menos adequada, dependendo também de fatores herdados e constitucionais e do meio em que está inserido. Se o andar do início da vida se der razoavelmente bem, ali pelo sexto mês de vida o bebê já percebe que a mãe não é uma extensão dele mesmo, ele não a cria magicamente: ela se afasta, volta, atende, frustra. E, além dos primitivos sentimentos de ódio e inveja, surge a consideração pelo outro, que tem a ver com amor e gratidão. O bebê que se sente amado e acolhido vai desenvolvendo confiança em si mesmo. Quando isso falta, teremos uma criança, um adolescente e um adulto frágil, inseguro, facilmente capturável por um grupo, ou mestre, ou seita, ou causa. Quando nosso bebê chega à adolescência, fase turbulenta por natureza, o fanatismo pode se instalar: em função da força das pulsões e das demandas da cultura, o jovem busca a proteção do objeto idealizado. Há a crença de ter alcançado a Verdade única, imutável, e esta deve ser disseminada. 

Mas, e se a Verdade é mentira? Bion, em seu artigo “Mentiras e o pensador”, diz que mentir dá trabalho psíquico, pois a mentira demanda um pensador. A verdade, não. Ela pode ser pensada com a chegada do pensador. Se ele não chegar, ela permanece inalterada. O mentiroso contumaz não considera a existência do outro internamente, este é apenas um obstáculo para saltar. Imaginemos isso em escala industrial no problema das fake news.

Então, vamos juntando as coisas: grupos de indivíduos que não abrem mão de atingir seus objetivos encontram a mais incrível tecnologia, que pode ser usada por profissionais brilhantes de empresas poderosíssimas. Esses geniais técnicos conseguem acessar milhares de dados de milhões de pessoas e passam a manejá-las como joguetes, marionetes que farão precisamente o que eles pretendem. Mas por que não se consegue acabar com isso? Porque as pessoas querem esses produtos, pois têm a impressão de terem encontrado as confirmações de seus pontos de vista, de terem conquistado um pertencimento grupal, uma existência. Sites com notícias falsas recebem três vezes mais acessos. Se pensarmos no nosso Brasil campeão de desigualdade, na necessidade de educar e informar para tornar os indivíduos verdadeiros cidadãos, é assustador percebermos o quanto estamos longe disso. 

E os grupos que estão no comando dessas operações, evidentemente, são caracterizados pelo autoritarismo ou, dependendo do caso, pelo totalitarismo. O problema das fake news é um sintoma do nosso tempo. Para compreendermos tamanha complexidade, precisamos nos unir a outras disciplinas, como História, Sociologia, Direito, Ciência Política etc. Por enquanto, o que se sabe é que o combate às fake news é uma tarefa desoladora. Nosso Código Penal, por exemplo, precisará ser modificado para incluir um tipo de crime que não existia. 

Concluindo: o fanático, o mentiroso e o líder autoritário não procuram os psicanalistas. 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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