28.06.21 Observatório Psicanalítico – OP 253/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

Só não vale dançar homem com homem , nem mulher com mulher

Ian Favero Nathasje, homem cis e homossexual (SBPdePA)

Cinquenta e dois anos nos separam da revolta de Stonewall Inn, quando algumas centenas de pessoas se insurgiram contra a repressão policial e a ordem moral cisheterossexual conservadora. Stonewall era um bar, onde se formava um espaço seguro para drag Queens, pessoas trans e homossexuais em uma Nova York onde, não estar usando “três peças de roupas adequadas ao seu gênero” era considerado crime. Com a justificativa das vestimentas e na proibição de venda de bebidas alcoólicas, mais uma ação policial fez com que 13 pessoas, entre funcionários e frequentadores, fossem detidas naquele dia. Foi no caminho para as viaturas que os outros frequentadores, cansados das batidas policiais, da criminalização e marginalização, insurgiram-se jogando pedras e encurralando os policiais dentro do próprio bar. Stonewall não inaugurou, nem foi o fim da violência e repressão que as pessoas LGBTQ+ vivem, mas deu início a uma série de movimentos organizados, passeatas e protestos pela libertação LGBTQ+.

No país da música de Tim Maia, de fato vale tudo. Vale presidente homofóbico, vale influencer dando seu aval de como as pessoas devem lidar com as sexualidades divergentes, vale que pessoas trans não tenham seu  nome social  respeitado, vale viver em um país em que não basta sair do armário – o que não é uma tarefa simples -, é necessário resistir para viver. Seguimos sendo o pais que mais mata pessoas trans no mundo, com uma expectativa de vida de apenas 35 anos.

Dentro da IPA, a história não é muito diferente. Circulava uma norma não escrita impedindo o acesso de homossexuais à formação analítica até o fim do século passado, uma decisão atrasada em relação ao seu tempo e à sociedade. Os gays eram vistos como perversos que negavam a diferença sexual, o que me faz questionar: quem de fato tomou como atitude política institucional a negação das diferenças e possibilidades sexuais? Quem determinou a cisgeneridade e a heterosexualidade como únicas saídas possíveis para uma sexualidade madura? 

Até hoje não é difícil encontrar textos de analistas brasileiros e internacionais que defendem o retorno da homosexualidade como sintoma ou que a transexualidade é uma expressão da histeria de nossos tempos. Mas o que está proposto então para substituir a metapsicologia cishetero? 

Termos como função paterna e materna são usados amplamente para designar funções que não são essencialmente ligadas ao gênero com que os pais se identificam. Excluem-se famílias que não sejam formadas por um casal heterossexual e, mesmo nestas famílias, esses termos engessam e reproduzem normas sociais de papeis de gênero. 

A revolta de Stonewall e os diversos movimentos que surgiram desde então delimitam e dão forma à necessidade da população de construir outro mundo, que não seja unicamente cishetero, que questione essa construção, mas que também crie relações, culturas e lugares próprios. A ideia do orgulho é potente porque marca a não aceitação da vergonha, do pedido para existir, do não lugar na sociedade. Marca, na minha opinião, a diferença radical, a aceitação da diferença de forma inegociável, a aceitação daquilo que faz parte de cada um de nós.

É difícil encontrar palavras para escrever esse texto que não o façam parecer um protesto. Talvez porque, ainda que festejados nas Paradas LGBTQ+, o mês do orgulho é o representante de quem vive o ano tentando ocupar espaços que estão constantemente ameaçados. As conquistas existem, são amplas, porém mal aplicadas e não atingem toda a população, que poderia se beneficiar de forma homogênea. Outras formas de opressão como as de gênero, classe e racial são definidoras do acesso a essas conquistas. Mas a intenção desse texto é a de ser um convite. Um convite para que se pense mais sobre a diversidade sexual e de gênero. Que se possa pensar a teoria a partir das apresentações da sexualidade e de gênero que sempre estiveram presentes, mas que hoje não aceitam mais serem deixadas de lado.

Entendendo que a arte representa, mas também produz nosso mundo, gostaria de abandonar as proibições desse vale tudo LGBTQfóbico. Vou então terminar com o pedaço de uma entrevista da travesti e cantora Linn da Quebrada: 

“Disputo ocupar o espaço de ser travesti e de reinventar o imaginário social, para que quando eu diga travesti o que surja na sua cabeça sejam outras imagens. Se antes as imagens que vinham acompanhadas do termo travesti estavam ligadas à prostituição, à violência e à morte, eu proponho para além disso que quando eu diga a palavra travesti vocês consigam pensar em ter filhas travestis, eu quero que vocês pensem, quando alguém nascer e tiver no braços de vocês ‘awn, já pensou se for uma travesti? Que coisa linda!’ (…) Eu quero que quando digitem o nome Travesti no google, eu quero que apareçam várias de nós em diversos cargos e posições. Eu acho um absurdo quando eu leio ‘ah mas agora toda novela tem que ter… uma travesti. Que absurdo, toda novela tem que ter uma pessoa cis, uma não, tem que ter… todas as pessoas têm que ser cis!’

Muito prazer, sou a nova Eva filha das travas, obra das trevas.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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