Observatório Psicanalítico – OP 288/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

O estranho piano de Nelson Freire

Daniel Senos (SBPRJ)

Desde cedo eu olhava com um misto de respeito e temor a imponência do piano, este misterioso e complexo instrumento que transita pelas cordas e pela percussão. Talvez por essa razão eu tenha sido levado ao estudo dos instrumentos de cordas como o violão e o bandolim, mas sempre habitado pelo impacto que esse gigante de teclas exercia em mim e que aumentou ainda mais quando mergulhei na obra de Glenn Gould, em especial as suas célebres interpretações das famosas Variações Goldberg, de Bach. O piano se tornou um companheiro dos ouvidos e uma usina de ideias, a qual recorro até hoje em diversos momentos da vida. Gould me ensinava uma arte visceral e muitas vezes atormentadora, refletida em seus fabulosos registros que acompanham doces e sinuosas memórias.

Então, veio Nelson Freire.

O berço mineiro embalava um pequenino rebento, de saúde frágil, que preocupava a família. Envolto da pacata esperança, que ressoava no verdejar das árvores e da tranquilidade mineral que envolvia Nelson e seus familiares, seu corpo gritava por socorro e lutava para não sucumbir à moléstia. Os pais se mobilizavam para buscar tratamento e salvar o pequeno, que resistia e insistia em viver. Talvez para colorir a esperança com a bondade que os artistas gentilmente fazem, mesmo que sem saber, ao alimentar a nossa alma. O sotaque do sul de Minas Gerais marca o corpo do jovem pianista, antecipando sua incrível trajetória. Em minha torpe compreensão poética, acredito que Nelson adoeceu por já nascer pianista e não poder executar seu ofício desde o nascimento, limitado pelo corpo biológico e em busca do exercício de sua vocação, impossível de ser comportada pelo invólucro diminuto de um ser humano recém-chegado. 

Os mistérios do dom e da genialidade acompanham a aura mística das terras mineiras, que pariram Milton Nascimento e Carlos Drummond de Andrade, Lygia Clark e Amílcar de Castro, João Bosco e Otto Lara Resende. Nelson Freire prescinde de professores locais, que recomendam que a família se mude para o Rio de Janeiro para que continue seus estudos no piano. Coleciona destaques em jornais e sua fama logo atravessa fronteiras nacionais e internacionais, sendo reconhecido mundialmente pelas suas interpretações de Bach, Brahms, Mozart, Villa-Lobos, Shostákovich. No entanto, nas palavras do próprio Nelson, é no Rio de Janeiro que ele se sente mais nervoso em se apresentar, por considerar sua casa. Estranha sensação de se apresentar aos conterrâneos, aos familiares, aos próximos, sem a plateia randômica habitual dos grandes concertos internacionais. Entre o torresmo e a moela existe espaço para a finitude e para a insegurança.  

Nosso pianista bambeava entre a tensão e a maestria técnica. Em entrevista, Nelson uma vez falava sobre o prazer em tocar piano e evoca as palavras play (inglês), jouer (francês) e spielen (alemão) que possuem conotações semelhantes pois se referem ao brincar que envolveria o fenômeno artístico. A arte do encontro em suas mãos, em ligeiros atos remidos das marteladas nas teclas conectam o pianista em uma frequência exclusiva com o seu público. Entre a tensão da proficiência técnica e a espontaneidade do ato criativo, Nelson expressava a potência de suas interpretações únicas e ovacionadas mundialmente. O documentário de João Moreira Salles possui uma importante função nesse sentido, ao enfatizar o estado emocional de um dos maiores pianistas da história prestes a se apresentar com um piano com o qual não simpatiza, ou mesmo tocar uma peça russa para os próprios russos, fatos que revelam apreensão de Nelson e nos aproxima ainda mais do artista, que desce do universo apolíneo para transitar pela dimensão exusíaca. 

Retorno aos meus próprios tormentos e ao meu encontro musical com a obra de Nelson Freire, em especial dois aspectos que, pessoalmente, me marcaram de uma forma inefável. A primeira delas é a sua interpretação única de um trecho da ópera de Cristoph Gluck “Orfeu e Eurídice”, provavelmente uma de suas mais famosas contribuições à música, com o arpejo despretensioso e impactante que geram um sentimento de expectativa e comoção, preparando para o restante do desenvolvimento da peça. O outro aspecto, diretamente relacionado ao dedilhar do mestre, refere-se exatamente a sua forma bastante particular de tocar o piano. Em meio aos trechos complexos de Serguei Rachmaninoff e de Johannes Brahms, Nelson subitamente esticava os dedos de forma inusitada e, em seguida, continuava a execução da obra. Não faço ideia do que significa tal gesto, bizarro e, aparentemente sem sentido. Mas, quem se importa? Entre a técnica e o afeto, o que prevalece será sempre o coração.

A arte de Nelson alimenta a alma e provoca singular inquietação, pela sua genialidade e originalidade. Entre o mistério das teclas que ressoam harmonias que engrandecem a vida, renovamos nossos votos de boa esperança para um futuro que, ainda que incerto, insiste em se manifestar. A arte não garante apenas a sanidade, como ensinava Louise Bourgeois, mas também é grande responsável pela nossa existência. 

Que os dedos de Nelson Freire empurrem a urgência em existir rumo à boa esperança permeada de potencialidades que nos recorda a importância da vida enquanto ato de resistência, entre a tensão e a criação.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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