Os cinquenta anos da associação dos membros filiados: entre tradição e inquietações

Observatório Psicanalítico – OP 236/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo. 

 

Os cinquenta anos da associação dos membros filiados: entre tradição e inquietações

Gizela Turkiewicz, Cibele Pires Rays e Paula F. Ramalho da Silva (SBPSP)

 

“Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu.”

(Goethe apud Freud em Totem e Tabu, 1913)

 

A Associação dos Membros Filiados (AMF) foi fundada em 1970 pelos analistas em formação no Instituto de Psicanálise Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), sendo a primeira associação de candidatos em sociedades ligadas à IPA de que se tem notícia. Em âmbitos internacional e nacional, a IPSO (International Psychoanalytical Studies Organization) foi fundada em 1971, a OCAL (Organización de Psicoanalistas em formación de América Latina) em 1980, e a ABC (Associação Brasileira de Candidatos) em 1993.

 

Para contextualizar, a fundação da SBPSP data de 1927 (reconhecida pela IPA em 1951), a partir de um movimento de vanguarda liderado por Durval Marcondes, na esteira da Semana de Arte Moderna de 1922, mas houve na instituição um fechamento ideológico e científico nas décadas de 1960 e 1970. Em contrapartida, iniciou-se um movimento impulsionado pelos candidatos da época, que buscava promover alguma abertura à formação psicanalítica.

 

Em 1967, foi criado o Jornal de Psicanálise voltado a publicações sobre a formação psicanalítica, questões culturais e institucionais, o que propiciou um solo fértil para a criação do Centro Acadêmico Sigmund Freud em 1968, e dois anos depois, da AMF, fundada sob o nome de Centro de Estudos Luiz Vizzoni, em homenagem a um candidato bastante ativo institucionalmente, mas que faleceu durante sua formação, antes que se formalizasse a Associação.

 

No contexto nacional, a AMF surgiu na esteira dos movimentos estudantis do final da década de 60, durante a ditadura militar e pouco depois da instauração do Ato Institucional número 5 (AI-5), de 1968. Havia entre os analistas em formação a necessidade de se criar uma organização entre pares em busca de uma voz coletiva, que marcasse um posicionamento crítico frente ao contexto em que estavam inseridos, tanto intramuros quanto extramuros.

 

Em 2020, a AMF completou 50 anos de existência. Quando nos propusemos a celebrar esta data, retomamos o caminho percorrido por outros antes de nós, tanto por registros históricos, quanto por entrevistas aos ex-presidentes. Este trabalho, norteado pelo questionamento: “Qual o sentido de nossa Associação?”, resultou na produção de um documentário, que será lançado em evento que ocorre dia 6/4/2021, e ficará disponível para esta e para as futuras gerações.

Estas entrevistas mostraram de modo vivaz como o lugar do membro filiado (outrora candidato) foi se modificando e se consolidando no Instituto Durval Marcondes e na SBPSP ao longo do tempo, e como em grande parte isso se deve às lutas que em cada época a AMF promoveu.

 

Aos 50 anos, pode-se considerar que já alcançamos certa maturidade, e que há muito das lutas heroicas do passado que hoje são fatos consumados. Houve um tempo em que não havia analistas didatas em número suficiente para nos atender. Houve um tempo que não podíamos participar de reuniões científicas. Depois, podíamos participar, mas não tínhamos voz. Houve um tempo em que o analista didata tinha o papel de avaliar o analisando perante a instituição. Houve um tempo em que os analistas em formação eram, ou sentiam-se, infantilizados, tratados como alunos nos bancos da escola, e não como profissionais. Ainda há muito que poderia ser listado entre as conquistas que os membros filiados já tiveram, somos uma instituição viva, em constante mudança e, talvez a história possa nos servir para dar o tom do nosso porvir. Afinal, segundo propõe Mahler: “a tradição não é o culto às cinzas, mas a manutenção da chama viva.” Se pararmos no tempo, satisfeitos com as conquistas de outrora, a chama se apaga.

 

Nos anos 2000, foi a partir do incômodo dos analistas em formação pela SBPSP com a palavra “candidato” (afinal, candidato a quê?), que a Associação promoveu uma extensa pesquisa e discussão, o que resultou na mudança de denominação para “membro filiado”, termo que ainda é uma solução de compromisso, mas indica pertencimento. Filiado significa aquele que faz parte de um grupo; nos remete à palavra “filho”, o que carrega a memória e as tradições das gerações anteriores, mas a quem também cabe conquistá-las para delas se apropriar.

 

Ao nos debruçarmos sobre a história da AMF que, em certa medida, acompanha o percurso da formação psicanalítica em nosso Instituto, percebemos que ela é construída a partir das inquietações dos membros filiados, em seus diferentes tempos, e talvez seja esse o sentido de nossa existência como associação e de sobrevivência por tantos anos.

 

Passemos às nossas inquietações da atualidade, colocamos aqui algumas que nos ocorrem: nossa formação possibilita que cada analista desenvolva nome próprio e fale por si, em vez de tornar-se réplica de outros que o antecederam? O grupo de membros filiados é representativo da sociedade em que vivemos? Por que a formação psicanalítica segue sendo cara e para poucos? A formação nos põe em contato com quais aspectos da clínica contemporânea dos consultórios e dos serviços de saúde mental nos quais muitos de nós trabalham? O modelo clássico de atendimento psicanalítico é factível na contemporaneidade? Se é ou não, em que ele depende de resistências ou disponibilidade do analista e em que ele depende das características dos pacientes e do mundo em que vivemos? Como dialogamos com nossos colegas não psicanalistas, numa linguagem acessível?  Como nos posicionamos no cenário sócio-político atual? Estamos interpretando sob bombardeio?

 

Fábio Herrmann, que foi presidente da AMF em 1974, propunha que nos momentos de crise é que fica evidente a importância de estarmos reunidos como grupo, em associações. Pensamos que, hoje em dia, com a pandemia que se estende a perder de vista e com crise sócio-política que nós, brasileiros, atravessamos, esse pensamento se faz necessário e muito atual.

 

A AMF, e as associações de candidatos em geral, ocupam o lugar de um terceiro nas relações institucionais, entre o membro filiado e a instituição psicanalítica. Esta terceiridade pode ser entendida tanto no sentido de uma relação triangular, em que a entrada de um terceiro possibilita o surgimento e o reconhecimento da alteridade, quanto no sentido de um espaço intersubjetivo, que possibilita movimentação psíquica e o surgimento da criatividade.

 

Para tanto, é necessário que as associações se mantenham como espaços independentes, que possibilitem a reflexão e o diálogo a respeito da formação e da psicanálise, inseridas no mundo e na cultura em que vivemos. E se este diálogo entre pares não puder nos trazer respostas, que ele nos permita levantar novas questões.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

 

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