Adeus às armas: Eu quero uma metralhadora

Observatório Psicanalítico – OP 229/2021

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

 

Adeus às armas: Eu quero uma metralhadora

Cesar Augusto Antunes (SBPdePA)

 

Talvez existam relações inconscientes, para além da mera fatalidade, que fizeram coincidir uma pandemia viral com um novo decreto sobre a liberação de armas de fogo, na legislação brasileira.  

Aqui em meu esplêndido confinamento e de mãos desarmadas, contemplo a marcha da insensatez e busco refletir sobre a tragédia que se abateu sobre o país no dia 28 de outubro de 2018, quando evidências cada vez mais claras, vistas a partir do momento atual e contemplando ao que já passamos, revelam que pulsões autodestrutivas tomaram conta da nação.

 

A população brasileira, como lemingues (pequenos roedores da Escandinávia que em determinadas épocas correm em direção as falésias), parece estar correndo aceleradamente para o abismo. O correr é um ato voluntário, o abismo é um fato da natureza, ou seja, o abismo sempre esteve ali, já a corrida é uma escolha. E tende a se agravar; a corrida, não o abismo. Cabe então tratar de entender por que corremos.

 

Freud seguidamente chamava-nos a atenção para o paralelo existente entre os conflitos relativos às pulsões de vida e pulsões de morte; desejos amorosos e destrutivos no interior do indivíduo e sua ocorrência a nível social. Lutas intestinas entre a realização alucinatória, ou alucinada, dos desejos, insanas e destrutivas, e ímpetos amorosos que se oporiam a destrutividade. Para cada ódio mal escondido no fundo da alma, uma conduta piedosa, para cada inveja uma compaixão tentando aplacar as terríveis forças disjuntivas da original pulsão de morte. Lembrava ele, então, como igreja e exército expressam os sintomas desta ambivalência na sociedade. Por um lado, temos uma estrutura construída por ideais de amor e piedade, com a necessária contenção e união; por outro, expressões destrutivas, marcadas pelo ódio e intolerância com o próximo. O estrangeiro à minha cultura ou a meus pensamentos deve ser afastado, cancelado e morto. Para isto, as armas.  

 

Resgato os fatos narrados a seguir para aventar a possibilidade de sermos uma nação que se aproxima perigosamente de comportamentos semelhantes a aquelas pessoas que Freud chamava de arruinados pelo êxito, onde o predomínio de impulsos destrutivos desfaz, de tempos em tempos, as conquistas até então alcançadas.

 

Escrevo então para, ao dividir minha ignorância com vocês, abrigar a pálida esperança de encontrar compreensões para fatos incompreensíveis.

 

Correndo para o abismo ou a nau dos insensatos

 

Para muitos o dia 28 de outubro parecia auspicioso. Agora vai, diziam muitos, agora vamos atingir nosso ideal, diziam eles, o sempre sonhado desejo de ser os “Estados Unidos da América” (do Sul). Então, como o admirado Grande Irmão do norte, “The real Big Brother”, começamos por liberar a aquisição de armas, sem muita burocracia, afinal, assim não seríamos mais ameaçados por facínoras nem vítimas indefesas de estrangeiros que cruzavam nossas fronteiras para se apossarem de riquezas infindáveis.

 

Deste momento em diante Rambos pacatos e orgulhosos da força e da destreza com armas de fogo. O dia 26/06/2019 marca este dia, o decreto dizia mais, poderíamos adquirir 4 armas. Confesso que não entendi direito porque quatro? Porque limitarmos a “somente quatro”? Queremos o direito de granadas, metralhadoras, talvez uma bombinha… atômica, por suposto. Esta seria a forma do Brasil, varonil, corrigir as leis da natureza observadas por Darwin. Nosso novo e intimorato presidente buscava retomar um velho conceito sobre a vida animal que acreditava que o mundo era dos fortes e não dos mais adaptados. Pobre Darwin. Não bastava mais ser maior e mais forte, teria que ser o mais armado.

 

Se alguém tem duas armas e seu vizinho quatro, então ele é mais forte. Isto era suficiente para os que pensam, melhor, os que não pensam e resolvem tudo pela força. Nelson Rodrigues dizia, num passado recente, “os idiotas um dia vão dominar o mundo, não por suas capacidades, mas porque são muitos”. Finalmente tinham conseguido. Não somente aqui, mas também em muitos outros países. Eles tinham agora com quem se expressar e grunhir.

 

O incremento dos fatores destrutivos, a lei do mais forte ou mais armado, no seio da sociedade passou a ser usado contra minorias. Conquistas de direitos e igualdades foram esquecidas ou abolidas. As mulheres se transformaram nas principais vítimas, crimes contra a honra de um macho humilhado e submetido aos poderosos, voltaram a se fazer presente. Relatos de feminicídio passaram a ser constantes e a cada dia mais banal.

 

Então, como costuma acontecer com escolhas mal pensadas, a coisa piorou. No dia 26/02/2020 surgiu o primeiro caso de COVID no país. A reação do governo foi imediata. É uma “gripezinha” (sic), “quem tem histórico de atleta tá salvo”, “se usarmos remédios para outras doenças estamos salvos” e por aí vai.

 

Quando as autoridades médicas e cientificas passaram a recomendar o distanciamento social e o uso de máscaras contra o vírus, ouvimos do pai da horda primitiva que “isto é coisa de maricas”. Praticamente um manifesto contra se proteger e levar o outro em consideração. O que pensar? Seriam estas, palavras de incentivo e apoio, de coragem e determinação? Isto dividiu o país de maneira tão radical que observamos, a partir deste momento, na vida diária, rupturas entre famílias e irmãos; e um país dividido é mais fácil de governar.

 

As pessoas dizem: Tenho ódio, ou seja, a pessoa não mais sente ódio, mas é possuída por ele, não tem como escapar, pois, este está no cerne do seu ser, inibindo, portanto, a capacidade de pensar. Diante da incapacidade reflexiva, o ato impensado é mais prontamente atendido pelas armas, sejam elas de que tipo for.

 

Psicanaliticamente podemos afirmar que neste momento predominam, no país em chamas, fracionado e sem amparo social, aspectos destrutivos, encobertos por marcantes formações reativas com semblantes de cuidados, que na verdade escondem somente um ódio à humanidade mal disfarçado.

 

Depois da liberação de armas de fogo uma nova arma foi acrescentada ao arsenal do delírio paranoico, uma arma biológica, o uso político da pandemia. Não que ela tenha sido criada para este fim, mas foi utilizada para isto. Como dizem os defensores do uso de armas, a arma é passiva, é o uso que a torna perigosa.

 

A pandemia trouxe sua carga destrutiva, mas o uso que se fez dela tornou-a mais letal. Por isto coloco sua chegada como um segundo momento da corrida armamentista nacional. Neste momento temos, no Brasil, os valentes, com armas e sem máscaras, que lotam hospitais, ameaçam os profissionais da saúde e exigem uma cura impossível, pois sabemos que estupidez não tem cura; e os assustados que se mantém em casa, se preocupam com seus semelhantes, mas que infelizmente, são eventuais vítimas dos valentes que não se cuidam, mais do que do vírus.

 

Para culminar nossos governantes tomam nova decisão. No dia 12/02/2021 diante do agravamento da pandemia, quando os hospitais não possuem mais vagas e as pessoas morrem por causa do vírus e da falta de equipe de atendimento, quando o caos e o pânico se instauram de forma irreversível, decretam uma alteração sobre a pose de armas.

 

Quando ansiamos por vacina eles nos brindam com uma mudança na lei. A partir desta data, termos SEIS armas.

 

– Agora vai, o covid, vai ter medo da gente. Diz o valente sem máscara.

– Mas gente, a arma contra o vírus é a vacina! Exclama o sensato.

– Deixa de bobagens, tu te apegas a detalhes. Com seis armas em casa podemos matar o vírus a tiro. O decreto permite também mais munições. E começa a cantar:

 

“Eu sou terrível, vou lhe contar

Não vai ser mole me acompanhar…

Eu sou terrível e é bom parar

De desse jeito me provocar…”

 

Fecham-se as cortinas.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

 

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