Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Comentário sobre o livro póstumo de Roosevelt Cassorla “Fanatismo, negacionismo, mentira”.
Carmen C. Mion – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
Vou iniciar pela expansão feita por Rafael Monteiro Smeke, na orelha do livro, à citação de Borges de que “um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também”. Rafael acrescenta: “no caso dos artistas e escritores essa morte demora bem mais. Ainda bem.”
Ouso dizer que, no caso de Roosevelt, assim como alguns que o antecederam, ela nunca chegará. Roosevelt Cassorla nos deixa um legado valioso, inúmeras publicações científicas, palestras, cursos, conferências, frutos de sua apaixonada dedicação à Psicanálise e à sua transmissão, para a qual possuía um dom muito especial, que se evidencia claramente ao longo deste seu último livro. Sua inteligência brilhante e bem-humorada, o seu profundo conhecimento psicanalítico e sua generosidade refletiram-se em sua capacidade para transmitir a Psicanálise de maneira criativa e amorosa. Sua memória, seu legado, continuará inspirando a comunidade psicanalítica através dos seus trabalhos que expandem a obra de Freud e Bion e dialogam com inúmeros autores; dos seus conceitos de enactment, não-sonhos, sonho-a-dois e não-sonho-a-dois; sua releitura preciosa sobre narcisismo e a triangularidade edípica; seus trabalhos sobre suicídio e sobre a clínica de adolescentes; e projetos como o Working Party, “Microscopia da Sessão Analítica”, entre outros.
Minha relação com Roosevelt remonta às nossas origens, um bairro de São Paulo em que Roosevelt e meu pai tinham consultórios próximos. Sentíamos um profundo afeto mútuo. E, da minha parte, uma profunda admiração pela sua inestimável contribuição psicanalítica e pela sua imensa generosidade. A observação do Rafael me remeteu a uma de nossas conversas, quando ele me enviou uma crônica do meu pai, que lhe tinha sido apresentada por um residente de cirurgia que participava em um grupo coordenado por ele, perguntando se eu a conhecia. Contou que, desde então, ele adotara essa crônica como parte da bibliografia em seus grupos de residentes de medicina e psiquiatria. Fiquei muito comovida com seu gesto. Sim, eu conhecia o artigo. O que nos surpreendeu foi que, quase 30 anos após a morte do meu pai, um jovem residente aparecesse com essa crônica escrita por um gastrocirurgião que ele nunca conheceu, nem de quem tinha ideia da trajetória. Meu pai foi professor livre-docente na FMUSP e desenvolveu duas técnicas cirúrgicas inovadoras, sendo por este motivo até hoje citado como um pioneiro em Congressos de Cirurgia Gastroenterologia, mas nunca imaginávamos, que ele pudesse “estar vivo”, circulando por aí através do seu livro de “crônicas” muito pessoais, baseadas no atendimento de casos reais em seu consultório…
Penso que seu último livro, Roosevelt está inteiro nele. Foi quase possível vê-lo falando seus textos enquanto eu lia. Aqui, além da sua capacidade psicanalítica, se manifesta seu humanismo, sua preocupação com a saúde mental em geral, especialmente entre os jovens e adolescentes, e sua convicção sobre as contribuições que a Psicanálise pode trazer para a evolução das relações humanas, o social, para além da microscopia das nossas sessões em nossos consultórios. Pois como ele bem expressou, fanáticos, plenos de certezas, não procuram a psicanálise.
E Roosevelt ousou uma aproximação teórica entre os fenômenos grupais de fanatismo, negacionismo e mentiras, que observamos, um tanto atônitos, recrudescer nos tempos atuais, e as teorias que desenvolvemos a partir de fenômenos que encontramos na clínica nossa de cada dia, como ele diz, uma psicologia do particular.
A partir da observação de que no fanatismo estão em jogo fenômenos em que a percepção da alteridade não se constitui ou é deficitária, Roosevelt encontra um alicerce para aproximar-se ao tema na experiência clínica e desenvolver suas hipóteses, a relação intrapsíquica sempre dinâmica entre Narciso e Édipo, com seus inevitáveis desdobramentos. Na verdade, um caminho que eu penso há muito tempo vem sendo percorrido pelo autor.
Roosevelt revisita temas já investigados e publicados por ele em diferentes períodos da sua trajetória, porém, utilizados agora como um estímulo para uma nova reflexão em um novo contexto, temporal, social, político e principalmente pessoal, em que se acrescenta ao seu olhar a maturidade, a sabedoria que se origina da experiência e a perspectiva de uma finitude que se aproximava… A meu ver, este livro adquire a dimensão de um legado. Não para alcançar causalidades lineares ou circulares, como ele bem alerta, mas com a finalidade de ampliar o campo de investigação do psicanalista.
Roosevelt parte do fanatismo tal como se revela no campo social (cap. 1): em meio a uma complexidade de definições e conceitos filosóficos, antropológicos, psicológicos, e das ciências sociais, ele realiza um trabalho de discriminação fina no campo psicanalítico, pontuando conceitos, crenças, fantasias que caracterizam os comportamentos fanáticos. Desde a origem latina da palavra fanus (templo), quando o termo fanático se referia ao porteiro que velava pelo santuário, e que passou a designar, com o tempo, aquele que possui a verdade, uma característica central nos diferentes fanatismos contemporâneos e suas manifestações (cap. 4), inclusive na barbárie contemporânea que, em suas palavras ironicamente, tornou-se “civilizada” (cap. 7).
Ressalto aqui uma das suas observações preciosas que geralmente passa despercebida para quem se aprofunda neste tema: por trás da certeza inabalável do fanático, existem terríveis inseguranças e aspectos frágeis. “Terroristas são, na verdade, pessoas aterrorizadas”. O fanatismo surge mais facilmente em uma pessoa, grupo ou sociedade, quando estes se sentem fragilizados ou ameaçados No entanto, a capacidade contagiosa do fanatismo pode afetar a capacidade de pensar do observador, com efeitos desastrosos. E Roosevelt não deixa de fora o fanático “próximo”, em nossa família ou grupo social ou psicanalítico, que pode nos habitar.
O autor prossegue seu mergulho na tentativa de compreensão do fanatismo, (cap. 2, 3) realizando uma aproximação entre os campos social e psicanalítico. Investiga configurações clínicas similares a comportamentos fanáticos, introduzindo a importância dos processos de dessimbiotização e de relações simbióticas para o nascimento psicológico, um campo ao qual se dedicou e que deu origem a conceitos como o não-sonho, sonho-a-dois, não-sonho-a-dois e enactment crônico.
Processos que ressurgem na adolescência, em meio à turbulência de pulsões sexuais e agressivas, quando a passagem à triangularidade edípica é vivida como ameaça. Este seria o momento em que o adolescente vulnerável pode ser capturado por grupos fanáticos. Situações que remetem ao mito de Édipo, especificamente ao enigma da Esfinge, em que o desfecho final será sempre assassinato ou suicídio, reais ou simbólicos. Organizações defensivas narcísicas, coloridas por ressentimentos, que atacam e deformam a percepção da realidade, e a alteridade.
Roosevelt apresenta algumas ilustrações clínicas ficcionais, que nos ajudam no exercício da difícil discriminação entre os aspectos fanáticos, as dimensões perversas da mente e a psicose, ou parte psicótica da personalidade.
Nestas ilustrações, assim como em outras situações clínicas apresentadas mais à frente, ao abordar as convicções, mentiras e negacionismo, ele destaca a falha de relações continente/conteúdo, vividas na infância, e suas consequentes organizações narcísicas defensivas que se articulam com inoculações precoces de elementos fanáticos. Seguem-se consequentes falhas nos processos de simbolização, podendo resultar em ressentimentos e transformações em alucinose, assim como negação, recusa da realidade e a criação de fetiches idealizados, fenômeno já assinalado por Freud. Certamente os fatores que desencadeiam estes processos se relacionam com variáveis sociais que dependem do funcionamento de cada Sociedade. Os fanatismos contemporâneos são reedições dos fanatismos do passado. Como por exemplo, a atual negação do holocausto, a que assistimos estupefatos.
Ao longo do livro, Roosevelt faz incursões na política e religiões, transita pela mitologia, literatura e autores psicanalíticos que se dedicaram ao tema, oferecendo ao leitor uma rica bibliografia. Não resisto a pontuar apenas mais um exemplo da capacidade de Roosevelt em transmitir conceitos complexos, quase como uma poesia: “A complementaridade entre Narciso e Édipo e a cegueira existente em ambas as configurações emocionais faz lembrar que, em todo ser humano, há um Narciso que deseja continuar Narciso; um Narciso transformando-se em Édipo que, assustado com a triangularidade, tenta voltar a ser Narciso; um Édipo que vive na triangularidade, mas sente medo e tem saudades de ser Narciso; um Narciso que anseia por ser Édipo, mas se assusta com isso; e assim por diante. Essa oscilação faz parte da vida.”
A certa altura do livro, Roosevelt revela que a frustração de não ter conseguido compreender de forma suficiente os sentimentos grupais foi um fator para debruçar-se sobre os temas presentes neste livro. Embora tenha a clareza de que ao lidar com psicanálise aplicada, o sonho do analista não poderá ser cotejado ou confirmado pelo outro, o autor acredita que a imaginação do analista poderá ampliar a capacidade de outras pessoas sonharem o sonho sonhado por ele e dessa forma amplia-se a capacidade de pensar: “Esta é a função da psicanálise aplicada: ampliar a capacidade de sonhar e pensar, e não “compreender ou explicar” o estímulo do sonho”.
Não poderei me deter aqui sobre suas reflexões sobre a curiosidade como fato clínico e o aprofundamento que realiza sobre suas relações com a estupidez e a arrogância, a tríade proposta por Bion como anúncio da catástrofe psicológica. Roosevelt faz uma releitura preciosa do mito de Narciso e Liríope, partindo de sua prática clínica com pacientes limítrofes; retoma o mito edípico, a questão do olhar, da verdade, e do fazer vista grossa. Destaca nestes textos a percepção necessária de que a cada abertura para o conhecimento, o desconhecido se amplia.
O tempo é curto para apresentar um livro de tamanha densidade e profundidade. Uma vida foi muito curta para o tanto que Roosevelt Cassorla teria ainda a nos transmitir como psicanalista e como pessoa.
Ars longa, vita brevis.
Palavras-chave: fanatismo, negacionismo, mentira, organizações defensivas narcísicas, não-sonho.
(*) Nota: Este texto foi apresentado por Carmen Mion no evento realizado pela SBPSP, no último dia 11, em homenagem a Roosevelt Cassorla e lançamento de seu livro póstumo Fanatismo, negacionismo, mentira.
Imagem: Fotomontagem. Divulgação do evento (SBPSP)
Categoria: Homenagem; Instituição Psicanalítica
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