
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Dois gestos, uma mesma sombra: apagamentos e insistências na cena esportiva mundial
Gustavo Gil Alarcão – Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
Sempre fui aficionado por esportes, principalmente pelo futebol. Cresci numa época anterior à internet, quando a chegada das primeiras televisões por assinatura ao Brasil abriu uma espécie de arquivo audiovisual inesgotável. Entre jogos, reprises e documentários esportivos, algumas imagens se fixaram em mim de maneira duradoura.
Uma delas foi a história de Jesse Owens, o atleta negro norte-americano que conquistou quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Eu assistia àquelas imagens antigas: a corrida, o salto, o estádio monumental, as bandeiras nazistas, com a impressão de que o esporte havia produzido ali alguma coisa que escapava ao roteiro previamente escrito.
Os Jogos de Berlim tinham sido organizados como uma grande exibição da força alemã e da suposta superioridade racial ariana. A cidade estava tomada pela cenografia do regime. A arquitetura, os uniformes, os corpos disciplinados e os enquadramentos cinematográficos participavam da produção de uma hipnose coletiva. Tudo deveria confirmar a grandiosidade nazista. Então Jesse Owens correu e venceu. Seu corpo negro não cabia naquela narrativa.
Quatro medalhas de ouro: era o homem mais rápido do mundo. Cada vitória introduzia uma espécie de rasgo na imagem totalitária. O regime que pretendia transformar o estádio numa demonstração da hierarquia entre as raças precisava assistir à superioridade esportiva de um homem que suas próprias leis classificavam como inferior.
Durante muito tempo, difundiu-se a história de que Hitler teria se recusado especificamente a apertar a mão de Owens. O episódio, porém, é historicamente mais complexo. Depois de ter cumprimentado alguns vencedores no primeiro dia, Hitler deixou de participar dos cumprimentos aos medalhistas. Owens afirmaria posteriormente que recebera dele um aceno e que o desprezo mais diretamente experimentado viera do presidente Franklin Roosevelt, que não o convidou à Casa Branca nem lhe enviou um telegrama de congratulações (Owens; Neimark, 1970).
A correção histórica não diminui a violência do nazismo. Ao contrário, permite localizá-la para além de um suposto gesto pessoal de Hitler. O apagamento de Owens não dependia de um aperto de mão recusado. Era estrutural. O regime não podia reconhecer plenamente a excelência que vinha de um corpo negro porque esse reconhecimento faria vacilar o edifício imaginário sobre o qual assentava sua política racial.
Owens não derrotou apenas os competidores que correram ou saltaram contra ele. Sua presença desmontou, ainda que por alguns instantes, uma gramática do poder. O corpo em movimento dizia algo que a propaganda não conseguia absorver: o saber racial apresentado como ciência era uma ficção homicida.
Noventa anos depois, a Copa do Mundo de 2026 ofereceu outra cena de captura política do espetáculo esportivo.
Foi uma edição histórica, a primeira disputada por 48 seleções, quase um quarto dos países do planeta representado. Apresentada como a Copa mais ampla e inclusiva já realizada, ela também tornou visíveis algumas das contradições de nosso tempo. O aumento da duração do intervalo da final, convertido em plataforma comercial e espetáculo musical, a proximidade ostensiva entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e Donald Trump e a transformação do torneio em vitrine política mostraram que o futebol global está longe de constituir um território autônomo.
Trump telefonou a Infantino para pedir a revisão do cartão vermelho recebido pelo atacante norte-americano Folarin Balogun. A suspensão automática foi posteriormente retirada, num episódio criticado como interferência política sobre uma decisão disciplinar esportiva (Reuters, 2026a).
Ao mesmo tempo, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, escolhido para se tornar o primeiro somali a atuar numa Copa do Mundo, foi impedido de entrar nos Estados Unidos apesar de possuir visto válido. A decisão das autoridades norte-americanas o excluiu do torneio. Torcedores, trabalhadores e integrantes de delegações de diferentes países também encontraram barreiras produzidas pelas políticas migratórias do país (Reuters, 2026b).
A Copa que celebrava a presença de quase um quarto do mundo não conseguia receber uma parte desse mesmo mundo.
Na final, disputada em 19 de julho, a Espanha venceu a Argentina. Trump entrou em campo ao lado de Infantino sob vaias, participou da entrega das medalhas, tocou a taça e permaneceu no pódio enquanto os jogadores espanhóis se preparavam para celebrar — não fora recusado, ao contrário, estava excessivamente presente.
Nas fotografias divulgadas posteriormente pela FIFA e pela seleção espanhola, entretanto, sua figura foi cortada ou deixada à margem do enquadramento. A Casa Branca reagiu difundindo imagens e vídeos nos quais Trump reaparecia como personagem central da cerimônia.
Em Berlim, a imagem de Owens era incompatível com a fantasia racial do poder. Em Nova Jersey, a imagem do governante sobrava na cena de uma vitória que não lhe pertencia. De um lado, um corpo que o poder precisava diminuir; de outro, um líder que não tolerava ocupar uma posição secundária.
Não se trata, evidentemente, de estabelecer uma equivalência entre Hitler e Trump, entre o Terceiro Reich e a democracia norte-americana contemporânea. Qualquer comparação que apagasse as diferenças históricas, institucionais e, sobretudo, a dimensão genocidária do nazismo seria intelectualmente irresponsável.
Mas não estabelecer equivalências não significa renunciar à comparação e, principalmente, à reflexão crítica. Comparar pode ser justamente um modo de discernir diferenças e reconhecer certas continuidades formais: a necessidade narcísica de capturar a cena, a fabricação de uma imagem, a dificuldade de suportar aquilo que contradiz a narrativa do poder e a tentativa de converter acontecimentos coletivos em atributos pessoais do líder.
A psicanálise conhece essa operação. O narcisismo não deseja apenas ser visto. Pretende determinar de onde todos devem olhar e o que poderá ser visto. Não basta ao líder ocupar a fotografia: é preciso que a fotografia pareça ter sido organizada em torno dele. Quando a realidade não confirma essa centralidade, recorta-se a realidade, republica-se a imagem, produz-se outra versão da cena, de modo que a fotografia não funciona aqui apenas como registro, mas se torna território de disputa psíquica e política.
É nesse ponto que “A carta roubada”, conto de Edgar Allan Poe retomado por Lacan, pode oferecer uma imagem esclarecedora. A carta está escondida precisamente porque permanece exposta diante dos olhos de todos. Não se trata de descobrir um segredo enterrado nas profundezas, mas de conseguir enxergar aquilo que a própria evidência tornou invisível.
Em sua leitura do conto, Lacan chama a atenção para os efeitos produzidos pela circulação da carta. Mais do que seu conteúdo, importa a posição que ela confere a cada personagem e as transformações que seu deslocamento provoca. Aquele que acredita possuir a carta termina também possuído pelo lugar simbólico que ela lhe atribui (Lacan, 1998).
As imagens esportivas circulam de maneira semelhante. Não apenas mostram personagens e acontecimentos: distribuem posições, organizam olhares e determinam quem aparece como protagonista, intruso, vencedor ou ameaça. O poder não deseja somente entrar na fotografia. Deseja controlar o lugar a partir do qual a fotografia será contemplada.
A psicanálise não pode deixar de apontar reiteradamente essa carta roubada: a imagem da tirania diante de nossos olhos.
Talvez uma das tarefas públicas da psicanálise seja interromper a naturalização das imagens. Perguntar quem foi colocado no centro, quem foi empurrado para as bordas, quem não pôde entrar no estádio e quem não consegue sair do pódio. Não para oferecer diagnósticos fáceis de governantes à distância, mas para examinar os mecanismos de identificação, fascinação, recusa e submissão que tornam possíveis determinadas formas de poder — o que exige, também, que a psicanálise interrogue sua própria história.
Freud viveu sob o crescimento do antissemitismo europeu, viu seus livros serem queimados pelos nazistas em 1933 e permaneceu em Viena mesmo depois de a ameaça ter-se tornado evidente. Após a anexação da Áustria, em 1938, sua casa e sua editora foram invadidas, seus bens foram confiscados e Anna Freud foi detida e interrogada pela Gestapo. Somente então, aos 82 anos e gravemente doente, ele aceitou partir para o exílio em Londres.
Historiadores e biógrafos têm debatido a demora de Freud em deixar Viena e sua esperança, mantida por algum tempo, de que sua idade, sua notoriedade internacional e certas relações pessoais pudessem protegê-lo. Também chama a atenção o caráter predominantemente indireto de suas respostas intelectuais ao nazismo. O regime quase não aparece nomeado frontalmente em sua obra tardia, embora seus textos abordem a agressividade, a violência das massas, a fabricação dos inimigos, o antissemitismo e as origens da identidade judaica (Gay, 1989).
Em vez de transformar esse silêncio relativo em acusação retrospectiva, talvez devamos tomá-lo como advertência. Nem mesmo a descoberta do inconsciente imuniza alguém contra o desmentido histórico. Podemos compreender os mecanismos da recusa e, ainda assim, não reconhecer inteiramente aquilo que se passa diante de nós. Podemos formular uma teoria sobre a psicologia das massas e, ainda assim, subestimar a multidão que se organiza à nossa porta.
A experiência não ensina automaticamente, e muitas vezes repetimos justamente aquilo que acreditávamos ter aprendido; desaprender, nesse sentido, não significa esquecer a história, mas desfazer nossa adesão aos enquadramentos que nos impedem de percebê-la. O saber pode tornar-se uma defesa contra a experiência quando o utilizamos apenas para confirmar o que já pensávamos. É por isso que a repetição não constitui um simples retorno do mesmo. Ela é a insistência de alguma coisa que ainda não encontrou escuta.
Entre Berlim e Nova Jersey, o que se repete não é uma identidade entre regimes ou personagens. Repete-se a disputa pelo enquadramento: quem possui o direito de organizar a imagem, que corpos podem representar uma nação, e sobretudo que presença transforma uma vitória coletiva em cenário para a exibição pessoal do governante, ao passo que certas ausências são apresentadas como meros incidentes administrativos.
Em 1936, a presença de Owens fez vacilar a ficção nazista. Em 2026, a presença excessiva de Trump fez aparecer o esforço de transformar uma celebração esportiva em confirmação narcísica do poder. Owens venceu e não pôde ser plenamente reconhecido por seu próprio país; Trump permaneceu numa celebração que não era sua e depois disputou as imagens que tentaram deslocá-lo, revelando com isso que o poder não desaparece quando é cortado da fotografia — cortar uma figura da imagem não basta para desfazer as relações políticas que a colocaram ali.
Owens venceu e não pôde ser plenamente reconhecido por seu próprio país. Trump permaneceu numa celebração que não era sua e depois disputou as imagens que tentaram deslocá-lo. Entre aquele corpo que o poder desejava apagar e este poder que não aceita deixar a cena, encontramos uma mesma advertência: aquilo que uma época decide mostrar, e aquilo que decide não ver, revela mais sobre seus fantasmas do que sobre seus heróis.
A psicanálise não destrói o poder pela simples denúncia, mas pode recusar-se a colaborar com seu enquadramento, apontando a carta que permanece exposta e sustentando o olhar sobre aquilo que a hipnose coletiva nos convida a não perceber. Talvez seja esse um dos sentidos políticos do desaprender: deixar de repetir a imagem que o poder preparou para nós.
Referências
GAY, Peter. *Freud: uma vida para o nosso tempo*. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
LACAN, Jacques. O seminário sobre “A carta roubada”. In: LACAN, Jacques. *Escritos*. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
OWENS, Jesse; NEIMARK, Paul G. *The Jesse Owens Story*. Nova York: G. P. Putnam’s Sons, 1970.
REUTERS. “Boos as Trump and Infantino enter the field for World Cup trophy ceremony”. 19 jul. 2026.
REUTERS. “‘Inclusive’ World Cup falls short as some fans shut out, rights groups say”. 17 jul. 2026.
Palavras-chave: Psicanálise, Esporte, Narcisismo, Propaganda política, Totalitarismo
Imagem: Montagem a partir de duas imagens: Acme Newspictures, Inc., 1936. New York World-Telegram & Sun Newspaper Photograph Collection, Library of Congress; Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, junto com a seleção da Espanha na premiação da Copa do Mundo – Foto: Carl Recine/Getty Images/AFP
Categoria: Política e Sociedade
Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.
Os ensaios são postados no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:
https://www.facebook.com/
No Instagram: @observatorio_psicanalitico
Se você é membro da FEBRAPSI/FEPAL/IPA e se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, inscreva-se no grupo de e-mails do OP para receber nossas publicações. Envie uma mensagem para: [email protected]
