
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Eu não perdi uma cozinha. Eu perdi minha filha.
Margareta Hargitay (Asovep – Associação Venezuelana de Psicanálise)
“Com isso de que a guerrilha teve 115 mortos, você não entende nada… Isso não lhe diz nada. Apenas que foram 115 mortos.” Jean-Luc Godard, Pierrot le Fou
Há frases que nos comovem enquanto as ouvimos e depois desaparecem, deslocadas por outras notícias, por outras urgências, pelo ritmo inevitável da vida. Outras permanecem. Voltam quando menos esperamos, como se ainda buscassem um lugar onde pudessem ser
compreendidas.
Esta frase me acompanha há três semanas. O tempo parece ter perdido sua medida. Há dias que transcorrem com uma lentidão insuportável e outros que desaparecem sem deixar quase nenhuma lembrança. A terra deixou de tremer há poucos dias, mas algo continua se movendo dentro de nós.
Eu a vi nas notícias. Um funcionário percorria La Guaira, onde a devastação havia sido total. Era necessário avaliar a magnitude do desastre, organizar a ajuda, começar a pensar em como reconstruir.
Então apareceu uma mulher. Chorava, e não era um choro contido — era o choro de alguém a quem a dor havia roubado qualquer possibilidade de escolher cuidadosamente suas palavras. E, no entanto, entre aquelas lágrimas encontrou uma clareza que ainda hoje me comove. Aproximou-se e gritou, interpelando-o: “Eu não perdi uma cozinha. Eu perdi minha filha.”
Ela não respondia a uma pergunta. Precisava dizê-lo, como se naquele mesmo instante tivesse sentido que, além de perder sua filha, corria também o risco de que o sentido dessa perda se perdesse.
Não deixei de retornar a essa cena. No início pensei que fosse a dor daquela mãe que me comovia. Depois acreditei que fosse a desproporção entre uma cozinha e uma filha, tão evidente que se tornava insuportável ouvi-la pronunciada em voz alta. Hoje penso que aquela mulher falava de um lugar onde a dor e a raiva já não podiam ser separadas. Ela não estava corrigindo um funcionário: estava protegendo sua filha de uma segunda perda — a de transformar-se em mais um dano material entre tantos outros.
As catástrofes nos obrigam a agir rapidamente, quase em estado de mania. É preciso resgatar sobreviventes, procurar desaparecidos, organizar abrigos, distribuir alimentos. Mas, enquanto essa linguagem tenta organizar o caos, outra linguagem começa a ficar sem lugar: a linguagem da perda. Porque os danos materiais podem ser inventariados. Mas, como se nomeia uma filha?
Ela protegia algo infinitamente mais frágil: o lugar irrepetível que uma vida ocupa para aquele que a ama. O luto não consiste apenas em perder. Consiste também em proteger o significado daquilo que foi perdido.
Durante essas semanas também vivi atravessada por uma inquietação que não encontrava facilmente onde se alojar. Dormia pouco. Não conseguia apagar as luzes. Conferia as réplicas. Já não sabia se era a terra que tremia ou se eu alucinava. Fomos tomados, como por uma traição, por um medo do qual ainda não conseguimos nos desprender.
Eu não sabia o que fazer com essa angústia. Não encontrava palavras suficientes. Ainda não as encontro. Aos poucos, comecei a estar disponível para escutar, para distinguir o que era do outro do que era meu. Não porque acreditasse ter respostas, nem porque imaginasse que existissem palavras capazes de aliviar uma dor semelhante. Pensei simplesmente que muitas pessoas precisariam de um lugar onde pudessem contar o que haviam vivido antes de tentar compreendê-lo. Eu também.
Escutar e escrever acabaram tornando-se esse lugar, junto aos outros e também na solidão. Há experiências que primeiro atravessam o corpo. Só depois alcançam a alma. E apenas muito mais tarde, quando encontram um espaço onde possam ser recebidas sem pressa, começam lentamente a tornar-se pensamento. Por isso, nunca considerei a escuta e a escrita como um gesto menor. Escutar é estar com o outro.
Mas, nestas semanas, também experimentei o quanto pode ser difícil estar com o outro quando a própria dor ainda não encontrou onde se alojar. O alívio que eu sentia quando algum paciente cancelava uma sessão confrontava-me com desconforto, com meus próprios limites e com a impossibilidade de estar sempre disponível para conter a dor do outro.
Enquanto tudo isso acontecia, as imagens das notícias começaram a mudar. No início, eram as equipes de resgate, as ambulâncias, os helicópteros, as listas de desaparecidos que sabíamos estar crescendo com uma lentidão desesperadora, embora nos fossem mantidas ocultas; ainda hoje só conhecemos esses números por registros privados. O governo continua negando essa cifra de desaparecidos.
Depois começaram a aparecer outras cenas, menos espetaculares e, no entanto, profundamente comoventes: uma mulher recém-resgatada dos escombros preparando arepas para pessoas que jamais havia visto; vizinhos organizando abrigos improvisados; chegaram inclusive até a celebrar o aniversário de um socorrista vindo de El Salvador; médicos atendendo sem descanso; pessoas abraçando-se sem precisar saber o nome umas das outras.
Não quero idealizar o sofrimento. Nada se ganha com a perda de uma filha, de uma casa ou de uma parte da própria história. A dor, por si mesma, não melhora as pessoas — sabemos disso muito bem. Muitas vezes ela as endurece, torna-as desconfiadas, fecha-as em uma solidão da qual é muito difícil sair. E, no entanto, também algo surgiu em meio à desolação dos escombros: uma comunidade que, ainda atravessada pelo medo, continuava encontrando forças para cuidar.
Por tempo demais falamos de nós mesmos a partir daquilo que perdemos. Pessoas amadas, projetos, a tranquilidade com que antes imaginávamos o futuro. Aprendemos a conviver com despedidas sucessivas, com ausências que foram se acumulando quase sem percebermos. Talvez por isso tenha me comovido tanto ver surgir essa imensa rede de solidariedade, que não nascia da abundância, mas precisamente de ter conhecido a fragilidade, a carência — como se aqueles que um dia precisaram ser sustentados reconhecessem imediatamente o gesto de sustentar.
Uma sociedade não se reconstrói apenas levantando edifícios. As cidades podem voltar a ser construídas, os caminhos podem abrir-se novamente, as escolas voltarão, com o tempo, a receber crianças. Mas existe uma outra reconstrução, muito mais lenta, que não depende do cimento nem das máquinas: a reconstrução da confiança.
A confiança de que não estamos completamente sozinhos, de que, quando a vida se rompe, ainda pode surgir uma mão estendida. Essa confiança não é decretada. Constrói-se silenciosamente, no encontro com outro ser humano, no vínculo.
Talvez por isso eu sentisse a necessidade de escutar e escrever. Era a única forma que encontrava de permanecer, de dar testemunho; não porque acreditasse que escutar ou escrever fossem suficientes — nada o é diante de uma perda dessa magnitude —, mas porque aprendi que há sofrimentos que se transformam quando encontram um lugar onde podem ser ditos sem serem interrompidos, corrigidos ou apressados.
Há experiências que precisam ser contadas uma e outra vez, não porque a memória falhe, mas porque a mente tenta, lentamente, encontrar uma forma de dar lugar àquilo que a transbordou.
E então surgiu uma pergunta que há dias não deixa de me acompanhar.
Como dar lugar a tanta perda?
Todos os dias ouvimos novas cifras — milhares de mortos, milhares de desaparecidos — e cada número parece tornar a tragédia ainda mais imensa. Não consigo representar milhares de vidas. Não consigo chorar milhares de pessoas. Não porque elas não me importem, mas porque sou invadida pelo silêncio que seca tudo.
Talvez por isso eu continue retornando, uma e outra vez, àquela mãe. Ela fez um movimento inverso ao que inevitavelmente fazemos todos diante de uma catástrofe: enquanto nós tentávamos compreender uma cifra impossível, ela resgatou uma única vida do anonimato.
Uma filha.
Toda vida merece conservar sua singularidade, mesmo quando a dor coletiva ameaça tornar indistinguíveis umas perdas das outras.
Não sei se uma sociedade pode elaborar uma tragédia dessa magnitude. Penso que nenhuma sociedade consegue fazê-lo completamente: há perdas que excedem nossa capacidade de representação. Talvez o luto coletivo não consista em compreender tudo, mas em aceitar que jamais poderemos abarcar tudo e, ainda assim, recusar que cada uma dessas vidas desapareça na indiferença.
Já se passaram quatro semanas. Ainda seguimos procurando, ainda seguimos esperando notícias, ainda pronunciamos nomes. Muitas famílias ainda não sabem onde estão seus mortos e outras que ainda guardam uma esperança que dói, porque talvez já não possa se realizar.
Ainda estamos aprendendo a respirar dentro desta realidade, que sufoca e rouba as palavras.
Eu buscava uma forma de permanecer, de não desviar o olhar, de não me acostumar rápido demais, de não permitir que a repetição das imagens terminasse anestesiando minha capacidade de comover-me.
Escrevo porque preciso manter viva a voz daquela mãe. Não para transformá-la em um símbolo nem para convertê-la em uma lição. Simplesmente porque, em meio a todo o ruído dessas semanas, foi ela quem conseguiu dizer, com uma clareza dilacerante, aquilo que muitos de nós sentíamos sem conseguir nomear.
Há perdas que não admitem comparação. Há ausências que não podem ser reduzidas a um inventário. E há palavras que, pronunciadas entre lágrimas, acabam sustentando algo de nossa humanidade quando tudo ao redor parece desmoronar.
Não sei por quanto tempo essa frase permanecerá dentro de mim. Talvez por toda a vida. O que sei é que, enquanto eu puder continuar escutando aquela voz, continuarei perguntando-me como dar lugar a tanta dor sem permitir que ela se transforme apenas em uma cifra. Não tenho, nem espero, uma resposta. Já não somos manchete. Passaram-se apenas quatro semanas.
Palavras-chave: Luto coletivo; Trauma; Escuta; Representação; Singularidade
Imagem: @Ipaniza – fotógrafo venezuelano
Categoria: Emergência climática; Política e Sociedade
Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.
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——Texto escrito originalmente em espanhol
Observatorio Psicoanalítico – OP 703/2026
Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo
Yo no perdí una cocina, yo perdí a mi hija
Margareta Hargitay – Asociación Venezolana de Psicoanálisis (Asovep)
«Con eso de que la guerrilla ha tenido 115 muertos no entiendes nada… No te dice nada. Sólo que son 115 muertos.» Jean-Luc Godard, Pierrot le Fou
Hay frases que nos conmueven mientras las escuchamos y luego desaparecen, desplazadas por otras noticias, por otras urgencias, por el ritmo inevitable de la vida. Otras se quedan. Regresan cuando menos las esperamos, como si todavía buscaran un lugar donde ser comprendidas.
Ésta lleva conmigo tres semanas. Me sorprende escribirlo: el tiempo parece haber perdido su medida. Días que transcurren con una lentitud insoportable y otros que desaparecen sin dejar apenas un recuerdo. La tierra dejó de temblar hace pocos días, pero algo continúa moviéndose dentro de nosotros.
La vi en las noticias. Un funcionario recorría La Guaira, donde la devastación había sido total. Era necesario evaluar la magnitud del desastre, organizar la ayuda, empezar a pensar cómo reconstruir.
Entonces apareció una mujer. Lloraba, y no era un llanto contenido — era el llanto de alguien a quien el dolor le había arrebatado cualquier posibilidad de elegir cuidadosamente sus palabras. Y sin embargo, entre esas lágrimas encontró una claridad que todavía hoy me conmueve. Se acercó y le gritó, increpando: *«Yo no perdí una cocina, yo perdí a mi hija»*
No respondió a una pregunta. Necesitaba decirlo, como si hubiera sentido, en ese mismo instante, que además de perder a su hija corría el riesgo de que también se perdiera el sentido de esa pérdida.
Yo no he dejado de volver a esa escena. Al principio pensé que era el dolor de esa madre lo que me conmovía. Después creí que era la desproporción entre una cocina y una hija, tan evidente que resultaba insoportable escucharla pronunciada en voz alta. Pienso que aquella mujer hablaba desde un lugar donde el dolor y la rabia ya no podían separarse. No estaba corrigiendo a un funcionario: estaba defendiendo a su hija de una segunda pérdida, la de convertirse en un daño material más entre tantos otros.
Las catástrofes obligan a actuar deprisa, casi en manía. Hay que rescatar sobrevivientes, buscar desaparecidos, organizar refugios, distribuir alimentos. Pero mientras ese lenguaje intenta organizar el caos, otro lenguaje comienza a quedarse sin lugar: el de la pérdida.
Porque los daños materiales pueden inventariarse. Pero ¿cómo se nombra una hija? Estaba defendiendo algo infinitamente más frágil: el lugar irrepetible que una vida ocupa para quien la ama. El duelo no consiste únicamente en perder. Consiste también en proteger el significado de aquello que se ha perdido.
Durante estas semanas también he vivido atravesada por una inquietud que no encontraba fácilmente dónde alojarse. Dormía poco. No podía apagar las luces. Revisaba las réplicas. Ya no sabía si temblaba la tierra o alucinaba. Nos tomó como a traición un miedo del que no podemos sacudirnos.
No sabía muy bien qué hacer con esa angustia. No encontraba palabras suficientes. No las encuentro todavía. Empecé poco a poco a estar disponible para escuchar, para registrar lo ajeno y lo propio. No porque creyera tener respuestas, ni porque imaginaba que existieran palabras capaces de aliviar un dolor semejante. Pensé simplemente que muchas personas iban a necesitar un lugar donde poder contar lo vivido antes de intentar comprenderlo. Yo también. Escuchar y escribir terminaron convirtiéndose en ese lugar, junto a otros y en soledad.
Hay experiencias que primero atraviesan el cuerpo. Después el alma. Y sólo mucho más tarde, si encuentran un espacio donde puedan ser recibidas sin apuro, comienzan lentamente a transformarse en pensamiento. Por eso nunca he considerado la escucha y la escritura como un gesto menor. Escuchar es estar con el otro. Pero estás semanas también experimenté lo difícil que puede ser estar con el otro cuando el propio dolor todavía no encuentra donde alojarse. El alivio que se siente cuando algún paciente cancelaba, con incomodidad me confrontaba con mis propios límites y con la imposibilidad de estar siempre disponible para contener el dolor del otro.
Mientras todo esto ocurría, las imágenes de las noticias comenzaron a cambiar. Al principio eran los equipos de rescate, las ambulancias, los helicópteros, las listas de desaparecidos que sabíamos crecían con una lentitud desesperante a pesar de que nos la mantuvieran escondida, aún hoy sólo la conocemos por los registros privados. El gobierno nos sigue negando esa cifra de desaparecidos. Después empezaron a aparecer otras escenas, menos espectaculares, y sin embargo conmovedoras: una mujer recién rescatada de los escombros preparando arepas para personas que jamás había visto, vecinos organizando refugios improvisados, hasta le celebraban el cumpleaños a un rescatista del Salvador, médicos atendiendo sin descanso, personas abrazándose sin necesidad de saber el nombre del otro.
No quiero idealizar el sufrimiento. No se gana nada con perder una hija, una casa o una parte de la propia historia. El dolor no mejora a las personas por sí mismo, lo sabemos muy bien, muchas veces las endurece, las vuelve desconfiadas, las encierra en una soledad de la que cuesta mucho salir. Sin embargo, también surgió en medio de la desolación de los escombros: una comunidad que, aún atravesada por el miedo, seguía encontrando la fuerza para cuidar.
Durante demasiado tiempo hemos hablado de nosotros mismos desde lo que hemos perdido. Personas amadas, proyectos, la tranquilidad con la que antes imaginábamos el futuro. Hemos aprendido a convivir con despedidas sucesivas, con ausencias que se fueron acumulando casi sin darnos cuenta. Quizá por eso me conmovió tanto ver surgir esa inmensa red de solidaridad, que no nacía de la abundancia sino, precisamente, de haber conocido la fragilidad, la carencia — como si quienes alguna vez habían necesitado ser sostenidos reconocieran de inmediato el gesto de sostener.
Una sociedad no se reconstruye únicamente levantando edificios. Las ciudades pueden volver a edificarse, los caminos pueden abrirse otra vez, las escuelas volverán con el tiempo a recibir niños. Pero hay otra reconstrucción, mucho más lenta, que no depende del cemento ni de las máquinas: la de la confianza. La confianza en que no estamos completamente solos, en que cuando la vida se rompe todavía puede aparecer una mano tendida. Esa confianza no se decreta. Se construye silenciosamente, en el encuentro con otro ser humano, en el vínculo.
Quizá por eso sentía la necesidad de escuchar y de escribir. Era la única forma que encontraba de permanecer, de dar testimonio, no porque creyera que escuchar o escribir fuera suficiente, que nada lo es frente a una pérdida de esta magnitud, sino porque he aprendido que hay sufrimientos que cambian cuando encuentran un lugar donde pueden ser dichos sin ser interrumpidos, corregidos o apresurados. Hay experiencias que necesitan ser contadas una y otra vez, no porque la memoria falle, sino porque la mente intenta, lentamente, encontrar una forma de alojar aquello que la desbordó.
Y entonces apareció una pregunta que desde hace días no deja de acompañarme. ¿Cómo se aloja tanta pérdida? Cada día escuchamos nuevas cifras — miles de muertos, miles de desaparecidos — y cada número parece volver más inmensa la tragedia. No consigo representar miles de vidas. No consigo llorar a miles de personas. No porque no me importen, sino porque me invade el silencio que seca todo.
Tal vez por eso sigo regresando una y otra vez a aquella madre. Ella hizo un movimiento inverso al que inevitablemente hacemos todos cuando enfrentamos una catástrofe: mientras nosotros intentábamos comprender una cifra imposible, ella rescató una sola vida del anonimato. Una hija. Toda vida merece conservar su singularidad, incluso cuando el dolor colectivo amenaza con volver indistinguibles unas pérdidas de otras.
No sé si una sociedad puede elaborar una tragedia de esta magnitud. Pienso que ninguna puede hacerlo completamente: hay pérdidas que exceden nuestra capacidad de representación. Es posible que el duelo colectivo no consista en comprenderlo todo, sino en aceptar que nunca podremos abarcarlo y, aun así, negarnos a que cada una de esas vidas desaparezca en la indiferencia.
Ya han pasado cuatro semanas. Todavía seguimos buscando, todavía seguimos esperando noticias, todavía pronunciamos nombres. Quedan muchas familias que no saben dónde están sus muertos y otras que aún conservan una esperanza que duele porque quizá ya no pueda cumplirse. Todavía estamos aprendiendo a respirar dentro de esta realidad, que ahoga y roba las palabras.
Buscaba una forma de permanecer, de no apartar la mirada, de no acostumbrarme demasiado rápido, de no permitir que la repetición de las imágenes terminara anestesiando mi capacidad de conmoverme.
Escribo porque necesito conservar viva la voz de aquella madre. No para convertirla en un símbolo ni para transformarla en una lección. Simplemente porque, entre todo el ruido de estas semanas, fue ella quien logró decir con una claridad desgarradora aquello que muchos sentíamos sin poder nombrarlo. Hay pérdidas que no admiten comparación. Hay ausencias que no pueden reducirse a un inventario. Y hay palabras que, pronunciadas entre lágrimas, terminan sosteniendo algo de nuestra humanidad cuando todo alrededor parece derrumbarse.
No sé cuánto tiempo permanecerá esa frase dentro de mí. Quizá toda la vida. Lo que sí sé es que, mientras pueda seguir escuchando aquella voz, seguiré preguntándome cómo hacer lugar a tanto dolor sin dejar que se convierta únicamente en una cifra.
No tengo ni espero una respuesta. Ya no somos noticia de primera plana. Han pasado apenas cuatro semanas.
Palabras clave: Duelo colectivo; Trauma; Escucha; Representación; Singularidad
Imagem: foto de @Ipaniza
Categoría: Emergência climática; Política e Sociedade
Nota de la Curaduría: El Observatorio Psicoanalítico es un espacio institucional de la Federación Brasileña de Psicoanálisis dedicado a la escucha de la pluralidad y a la libre expresión del pensamiento de los psicoanalistas. Al enviar sus textos, los autores declaran la originalidad de su producción, el respeto a la legislación vigente y el compromiso con la ética y la civilidad en el debate público y científico. Así, los ensayos son de responsabilidad exclusiva de sus autores, lo cual no implica respaldo ni concordancia por parte del OP ni de la Febrapsi.
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