Observatório Psicanalítico OP 702/2026 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

O dia da descoberta de que não somos excepcionais

Malu Gastal – Sociedade de Psicanálise de Brasília (SPBsb)

De madrugada, eu tava dormindo. Ela veio. Ela me acordou, tava me cheirando. Vi aqueles olhos bonitos, olho amarelo, com as pintinhas pretas bubuiando bom, adonde aquela luz.(…) Depois botou mãozona em riba do meu peito, com muita fineza. Pensei – agora eu tava morto: porque ela viu que meu coração tava ali. Mas ela só calcava de leve, com uma mão, afofado com a outra, de sossoca, queria me acordar. Eh, eh, eu fiquei sabendo… Onça que era onça – que ela gostava de mim, fiquei sabendo (…) Falei baixinho: “- Ei, Maria-Maria… Carece de caçar juízo, Maria-Maria…”Eh, ela rosneou e gostou, tornou a se esfregar em mim, mião-miã. Eh, ela falava comigo, jaguanhenhém, jaguanhém…. (…)Quando eu parava de falar, ela miava piado – jaguanhenhém… Tava de barriga cheia, lambia as patas, lambia o pescoço. Testa pintadinha, tiquira de aruvalhinho ao redor das ventas… Então deitou ao redor de mim, o rabo batia bonzinho na minha cara… (…) Vi que ela tava secando leite, vi o cinhim dos peitinhos. Filhotes dela tinham morrido, sei lá de quê. Mas, agora, ela vai ter filhote nunca mais, não, ara! – vai não… (Guimarães Rosa, Meu tio o Iauaretê, in Essas Palavras, p.208)

O que nos faria recuar de uma guerra de destruição total, de nossa cegueira diante das mudanças climáticas, de nossa falta de cuidado com tudo o que é mais fundamental para a vida? Talvez, defendem alguns, a consciência de que nosso excepcionalismo é uma ilusão, que nos ocorrerá quando nos depararmos com seres mais inteligentes vindos de outros planetas. Isso nos colocaria em nosso lugar – insignificante.

Esta é parte da mensagem de O Dia D (“Disclosure Day”), de Steven Spielberg. Um grupo de pessoas, quando o mundo está (ainda mais) à beira da terceira guerra mundial, decide divulgar para todas os humanos do planeta os segredos que uma ONG, juntamente com o governo estadunidense, guarda sobre a presença de ETs na Terra. É o conhecimento sobre a alteridade absoluta de seres que sabem mais do que nós, podem mais do que nós e (como na maioria dos filmes de Spielberg sobre o tema) são moralmente mais aperfeiçoados que nós que nos salvará de nossa autodestruição. 

Talvez ele esteja certo. Mas eu não gostaria de ter que esperar por esses estrangeiros messiânicos para que decidíssemos tomar juízo. Prezo, entretanto, a ideia de alteridade como caminho de reconhecimento de nossa insignificância. Mas queria falar também a respeito de outros outros: os seres vivos que vivem conosco nesse planeta. No filme, quando entram em contato com os humanos, os ETs tomam forma de animais, porque, alguém explica, os humanos entrariam em pânico se fossem confrontados com formas tão diferentes. Com os animais, estamos habituados. 

Deixei o cinema com uma pergunta inquietante. Spielberg já havia trazido os ETs em outros filmes. Exceto na refilmagem do clássico de HG Wells, “Guerra dos Mundos”, em que os extraterrestres (que são de Wells, e não de Spielberg) são aterrorizantes e querem nos destruir, nos demais eles são criaturas dóceis e sábias, que vêm a Terra para nos ensinar algo. 

Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de 1977, eles com uma comunicação transcendente através da música e da luz. A suposta linguagem universal da matemática é o que permite que nos aproximemos dele. De brinde, ganhamos Truffaut no papel do cientista que promove o encontro.

Em ET, de 1982, um allien encalhado na Terra é salvo de militares e cientistas humanos por um grupo de crianças, os únicos capazes de empatia e de formar um vínculo verdadeiro com um ser de outra espécie, de outro mundo. Com outro.

Em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de 2008 (aposto que não lembravam deste…) alienígenas cinzentos se disfarçam de animais (já lá!) e revelam que civilizações antigas tiveram contato com extraterrestres.

E agora o Dia D. Mais uma vez, alienígenas se disfarçando de animais para se apresentarem aos humanos. Mais uma vez, alienígenas vindos à Terra para nos ajudar, e a esperança explícita de que nos salvem de nós mesmos. Em todos eles, uma fé no encontro com o outro. O alienígena que, enquanto outro radicalmente distinto, rompe as estruturas rígidas do simbólico, forçando os personagens humanos a inventar novas formas de comunicação, novos significados e, por consequência, uma nova subjetividade. O messias só é messias porque é diferente, porque abre possibilidades de imaginar outros modos de viver. Ele não é um de nós, e é superior a nós.

Minha pergunta foi: por que Spielberg não viu a alteridade radical que nos rodeia aqui mesmo neste planeta, onde pululam outros seres: animais, vegetais, bactérias, fungos, vírus? Não que ele não se interesse pelo tema do delicado equilíbrio da biosfera. Ao filmar “Jurassic Park”, e “The Lost World: Jurassic Park”, tanto quanto os dinossauros que não deveriam ter sido revividos, porque não pertencem ao ecossistema onde foram colocados, era o ecossistema onde os dinossauros eram criados o personagem que personificava a vítima, não propriamente dos répteis anacrônicos, mas dos humanos gananciosos e irresponsáveis. Mas nenhuma interrogação sobre o que sentiam os dinossauros – do passado e do presente. Em Tubarão, por outro lado, o que existe é um outro aterrorizante e mortífero – um animal que nada conosco enquanto nos divertimos na praia. Uma sombra que persegue, lembrando que somos vulneráveis.

Por que essa ausência de uma interrogação sobre aqueles que compartilham o mundo conosco? Afinal, essa alteridade está ao alcance do olhar, do ouvido, do tato. Somos cercados (ainda…) de plantas, animais, habitados por bactérias, infestados por vírus, alimentados por fungos. Mas os animais, quando aparecem, surgem como mensageiros, porque não são tão desconhecidos, a ponto de nos assustar (tudo bem, o tubarão foge a esta regra). Não têm nada a dizer, só uma mensagem de outros a transmitir. Como pode Spielberg desprezar tanto esses outros que compartilham o planeta conosco?

Claro que a hipótese mais econômica e provável, é a de que ele, como a maioria de nós que cresceu ou adolesceu na década de 70 e é fascinado pelo universo e pela possibilidade de vida em outros planetas. Muitos de nós leram a ficção científica da Coleção Argonauta e tiveram os corações e mentes infectados de vida extraterrestre.

Mas levantei uma outra hipótese, como tentativa de pensar sobre o assunto. Na tradição abraâmica, especialmente no Gênesis, o ser humano recebe domínio sobre os animais. Eles – os outros animais – são concebidos recursos ou companhia, e não como sujeitos plenos com interioridade espiritual comparável à humana. Talvez não seja possível para Spielberg (como para a maioria de nós) reconhecer o animal (menos ainda o vegetal) como outro. Sem alma, sem linguagem, sem uma moralidade que reconheçamos como nossa, os animais podem ser até mensageiros de outros, mas não eles mesmos os outros. Nós os dominamos. A relação já está pré-definida como de mestre e servo, caçador e presa, dono e bicho. Não há suspense ético; há uma submissão estabelecida. 

Mesmo para Spielberg, abandonar o excepcionalismo humano por completo é impossível. Ele só pode fazê-lo por meio de extraterrestres, porque o cosmos é o único lugar onde a alteridade pode aparecer sem ser imediatamente reduzida à categoria de “recurso natural”, ou “animal doméstico”. 

Essa questão de nossa relação com o mundo não humano vem sendo discutida com riqueza e profundidade pela filósofa Donna Haraway. Formada em zoologia, ao estudar evolução e genética molecular, viu como a própria biologia estava borrando as linhas entre categorias tradicionais de espécies e entre o vivo e o não vivo. Se genes podiam ser transferidos entre espécies e máquinas podem processar informações como cérebros, então as distinções rígidas entre humano/animal, organismo/máquina e natural/artificial são instáveis. Essa percepção técnica alimentou a criação de seu conceito de Ciborgue, uma figura que encarna essa dissolução de fronteiras impostas pela tradição ocidental. Mais recentemente, ela vem trabalhando no conceito de “espécies companheiras”, que nos apresenta lindamente, de maneira breve, num maravilhoso texto dedicado a seu pai. Aqui um pedaço do pequeno trecho que traz esse conceito, que nos arranca de nosso lugar conhecido e nos convida a um estar no mundo que se baseia na relação.

… “espécies companheiras” não significa animais pequeninos tratados como crianças-com-pelagens (ou barbatanas ou penas) nas sociedades imperiais tardias. Espécies companheiras são uma categoria permanentemente indecidível, uma categoria-em-questão que insiste na relação como a menor unidade do ser e de análise. (…) Singulares e plurais, as espécies ressoam com os tons dos tipos lógicos(…). Cada espécie é uma multidão multiespécies. (…) Diante das espécies companheiras, o excepcionalismo humano se mostra como o espectro que amaldiçoa o corpo à ilusão, à reprodução do mesmo, ao incesto, e assim torna a rememoração impossível (..). Os parceiros não preexistem à sua relação; parceiros são precisamente o que provém do inter- e intrarrelacionamento do ser carnal, significativo, semiótico-material (…)[1].

Outras culturas entendem o que Abram[2] chama de “mundo-mais-do-que-humano” e nossa relação com ele de modo completamente diferente dos preceitos abraâmicos que fundamentam a cultura judaico-cristã e seu descendente direto, o capitalismo. Culturas que não vêem fronteiras estreitas entre os elementos do humano e o mundo-mais-do-que humano. Culturas que até bem pouco tempo foram consideradas primitivas, em virtude de elementos que nós, os autodenominados “civilizados”, chamamos de animistas, e que permeiam sua compreensão do mundo. 

Graham Harvey[3] descreve assim esse mundo que também é, cada vez mais, o mundo descrito pelas ciências, tal como é percebido e vivido por essas culturas, e que nos convida a colocar em outro lugar o conceito de animismo.

“O animismo oferece várias maneiras de falar, ouvir, agir e ser que alcançam isso com graça e beleza. Embora a antiga teoria do animismo fizesse parte de um sistema que parecia separar acadêmicos e seu trabalho do mundo vivo, o novo animismo está entrelaçado com convites para participar mais plenamente. (…) Nós nunca fomos separados, únicos ou sozinhos e é hora de parar de nos iludir. As culturas humanas não são cercadas pela ‘natureza’ ou ‘recursos’, mas por ‘um mundo cheio de agências cacofônicas’, ou seja, muitas outras pessoas vociferantes. Estamos em casa e nossos relacionamentos estão ao nosso redor. A ‘boa vida’ libertadora começa com o reconhecimento respeitoso da presença das pessoas, humanas e não-humanas, que compõem a comunidade da vida. Ela continua com ainda mais respeito e relacionamento.” (p. 212)

Esses outros que nos habitam (bactérias, fungos, protozoários, vírus, ácaros, mitocôndrias, para deixar de fora os estritamente parasitas) e que coabitam o mundo conosco (todos os seres vivos) estão aqui. Em nós e ao nosso redor. Uma alteridade terrena e, ainda assim, quase tão radical quanto os alliens da ficção científica. Uma alteridade à qual devemos respeito, podemos conversar, ao modo de Tonho Tigreiro, no seu encontro com a onça, e com a qual precisamos aprender. Haveria uma psicanálise capaz de – no mínimo – reconhecer essa alteridade e, quem sabe, aprender com ela, antes que o mundo acabe?

[1] Haraway, Donna. (2021) Quando as espécies se encontram. Tradução de Paulo Roberto Sousa. Edição do Kindle. São Paulo: Ubu Editora.

[2] Abram, D. (2007). A magia do sensível: Percepção e linguagem num mundo mais do que humano (J. C. S. Duarte, Trad.). Fundação Calouste Gulbenkian. Serviço de Educação e Bolsas.

[3] Harvey, G. (2006). Animism: Respecting the living world. Columbia University press.

Palavras-chave: Steven Spielberg, cinema, alteridade, mundo mais que humano

Imagem: “Onça brincando com filhote”, de João Turin. Sem data.

A obra está exposta no Museu Paranista, em Curitiba.

Categoria: Emergência Climática 

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Tags: alteridade | Cinema | mundo mais que humano | Steven Spielberg
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