Observatório Psicanalítico OP 701/2026  

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

O Terremoto que não cessa

María del Carmen Míguez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC)

O conceito de Wilfred Bion sobre mudança catastrófica pressupõe uma experiência imprevista e radical que toca profundamente o estado emocional da pessoa, afetando suas verdades, certezas e produzindo não apenas uma mudança psíquica, mas uma ruptura. Esse desequilíbrio inicial, produzido pelo surgimento de novas realidades, pode dar lugar a uma experiência transformadora. Para que a capacidade mental da pessoa não seja destruída, deve existir um aparelho psíquico capaz de tolerar e processar as impressões sensoriais e a própria vivência, até aquele momento irrepresentável, e que ocorreu de repente.

Processar e conter os efeitos de um terremoto, evento traumático de origem externa, supõe a possibilidade de colocar em marcha um continente social e um reverie coletivo que permita sustentar o transbordamento de emoções intensas de terror, morte e perda. Esse processo torna-se muito mais difícil para as pessoas que perdem suas famílias, seus lares, suas rotinas, o que traz um sentimento inicial de segurança. A mente, nesses casos, fica sem a possibilidade de assimilar e processar toda as impressões sensoriais e transformá-las em sentimentos, pensamentos e ideias organizadoras que diminuam a angústia.

A experiência traumática conecta-se com a história pessoal, o próprio trauma e os aspectos inconscientes ligados a ela. O trauma atual opera com um efeito de ressignificação e rebote dos eventos traumáticos vividos, supondo uma nova elaboração. Em outros casos, quando o trabalho psíquico de processamento não é possível, a experiência soma-se, constituindo um trauma cumulativo. Para mim, um dos recursos que permite ir transformando essas vivências e experiências em prol de um processamento maior é a leitura e a escrita.

O que segue são três relatos que escrevi nestas duas semanas pós-terremoto, nas quais tentei construir, como psicanalista, imagens que nos permitam compreender e avançar com alguma sensação de segurança.

25/06/2026 – Após 24 horas

Ontem à noite, quando finalmente me deitei, pude sentir o nível de cansaço e a dor que carregava.

No fim da tarde de ontem, fomos caminhando até Los Palos Grandes. Precisávamos sair e ver com nossos próprios olhos o nosso bairro, os nossos lugares cotidianos. Não éramos os únicos. Havia muita gente caminhando, em grupo ou sozinha. Além deles, estavam os socorristas, aqueles que trabalham nas áreas atingidas pelo desastre, levando suprimentos às praças, os policiais, os entregadores. O trânsito de carros também era intenso, pois as ruas onde os edifícios desabaram permanecem interditadas.

“Ver para crer” parecia ser a frase de muitos, na expectativa de que a catástrofe mostrada nas redes sociais não fosse real. As pessoas se olhavam, tentando reconhecer umas às outras. Todos, de tempos em tempos, erguiam os olhos para o alto. Os escombros de diferentes tamanhos que ocupavam as calçadas já não bastavam.

— Olha como ficou esse edifício.

Fachadas abertas, sem paredes. O fundo de um armário exposto. O contorno de uma cama de casal. Um edifício que perdeu o próprio nome. Um crucifixo inerte despontando em uma parede.

Operários, apressados, substituíam as vitrines das lojas.

Ao redor das praças, carros estacionados abrigavam pessoas que já haviam feito deles sua moradia.

Ouço alguém me chamar. Uma amiga do grupo “Plantados” procura notícias de Susi. Ela morava no edifício Petunia — um dos que desabaram — e ainda não conseguiu saber nada sobre ela.

Encontramos outros amigos. Todos precisamos compartilhar nossas circunstâncias.

— O quanto sua casa foi afetada?

— Onde você estava quando a tragédia começou?

— Bem…, diz outro, a tragédia começou em 1999.

Um arco que se abriu com o deslizamento de terra de La Guaira parece agora se fechar com o terremoto de 2026, no dia de São João.

“San Juan tudo tem, São João tudo dá.”
(refrão do folclore venezuelano)

— É mesmo? E o que será que nos dará agora?

No meu edifício, os vizinhos vivem angustiados com a possibilidade de existirem danos estruturais ocultos.

Vamos, pouco a pouco, adotando a linguagem dos engenheiros. Vigas, colunas e lajes substituem as palavras que costumávamos usar para nomear a estrutura interna do psiquismo.

Qual será a dimensão dessa fratura emocional?

Somos pequenos engenheiros da esperança.

Quanto custará reparar tudo isso?

Um dano acumulativo que, neste momento, se amplifica.

Somos também vítimas. Estamos sobrecarregados e, por vezes, cabe a nós acalmar aqueles que desejam acalmar os outros.

— Haverá tempo — digo a mim mesma.

Essa é a menor, mas também a mais essencial, consigna da esperança.

Seguiremos. E será justamente a partir desse reconhecimento que poderemos ajudar.

Primeira semana após o terremoto

Como todo acontecimento que ultrapassa nossa capacidade de processamento psíquico e nos lança em um estado no qual as angústias de morte emergem e circulam nas trocas com aqueles que nos cercam, o terremoto de 24 de junho acrescentou uma particularidade ao fenômeno vivido que, do meu ponto de vista, não é nada secundária: a maneira e a intensidade com que o terremoto tomou as redes sociais dos venezuelanos, constituindo-se, em si mesmo, em um outro acontecimento — paralelo, virtual — a ser processado, amplificando o impacto do duplo abalo geológico.

Nenhuma outra catástrofe, ao menos em nosso país, foi registrada nas redes com tamanha intensidade e a partir de ângulos e perspectivas tão variados como esta tragédia. Vídeos de testemunhas e sobreviventes, antes, durante e depois do terremoto. Vídeos de jornalistas, socorristas e de inúmeros voluntários. Vídeos de pessoas soterradas, durante o tempo em que permaneceram presas e no momento de seu resgate. Vídeos de pessoas emergindo dos escombros. Vídeos das câmeras de segurança de edifícios e residências. Vídeos feitos por drones, imagens de satélite, vídeos falsos, vídeos, vídeos…

Durante a primeira semana após o terremoto fomos tomados por uma espécie de estado hipnótico. Muitos de nós não conseguíamos deixar de acompanhar as redes sociais. Horas de rolagem contínua, os olhos fixos, repetidamente, sobre as inúmeras imagens que iam sendo produzidas e compartilhadas. Esse estado de inércia implacável, do qual era tão difícil desprender-se para retomar as atividades cotidianas ou qualquer outra ocupação, é um efeito da pulsão de morte. São momentos de suspensão do pensamento, de repetição incessante, pois as redes expõem justamente o usuário à repetição daquilo que ele busca — o que hoje chamam de algoritmo.

Uma compulsão à repetição que atuava como as incontáveis réplicas sísmicas sentidas nesses dias: uma e outra vez, com maior ou menor intensidade.

Essa necessidade de ver e reviver, por meio das redes sociais, as situações dolorosas e inimagináveis deixadas por essa tragédia faz parte do processo de assimilação da catástrofe. Trata-se de uma elaboração parcial do trauma e dos diferentes estados afetivos mobilizados em momentos como este.

Paralelamente — embora eu não saiba se em verdadeira oposição —, milhares de vozes especializadas ofereciam ajuda, recitando orientações e conhecimentos sobre o que fazer e como agir. Em seu conjunto, configuraram uma resposta marcada, ao mesmo tempo, por um sinal negativo e positivo, funcionando, na melhor das hipóteses, como uma forma de catarse.

Domingo, 28/06

No domingo, 28 de junho, quatro dias após a tragédia, chegou a notícia de que um vigilante, que se encontrava em seu posto de trabalho, no primeiro subsolo do Edifício Galerías Playa Grande, estava vivo. A partir desse momento, as equipes internacionais de resgate passaram a estabelecer comunicação com ele e organizar a complexa operação que permitiria salvá-lo. O resgate só seria concluído na quinta-feira seguinte, o que significou que Hernán Gil permaneceu soterrado sob 140 toneladas de escombros durante oito dias, dentro de uma guarita de ferro, com uma mesa e uma cadeira, onde se encontrava trabalhando quando o terremoto ocorreu.

Oito dias que pareceram oito meses.

Hernán foi a última pessoa retirada com vida dos escombros e transformou-se em um símbolo de esperança para todos aqueles que procuravam seus familiares na região de La Guaira e para tantos outros que, hipnoticamente, acompanhavam as redes sociais naqueles dias. Metade do país permaneceu atenta às informações sobre a operação de resgate, que exigiu a construção de dois microtúneis, o escoramento das estruturas para estabilizar as placas de concreto instáveis e a introdução de câmeras de fibra óptica e sondas que permitissem mantê-lo hidratado.

Durante os dias em que a operação de resgate esteve em andamento — e mesmo depois que ele foi retirado dos escombros — imaginei, ingenuamente, o vigilante Hernán sentado em sua cadeira, dentro da guarita que o havia protegido, em posição vertical em relação à superfície, aguardando serenamente que viessem buscá-lo. Talvez essa imagem tenha funcionado como uma defesa diante do horror que seria imaginar, em toda a sua dimensão, a situação vivida por aquele ser humano enterrado vivo.

Na noite de sexta-feira, 3 de julho, um dia após seu resgate bem-sucedido, uma jornalista que conseguiu entrevistá-lo na clínica onde estava internado — e que também conversou com um dos socorristas chilenos que participou da operação — relatou, acompanhando sua narrativa com gestos que procuravam ilustrar a cena, que, em consequência do violento desabamento, a guarita onde Hernán se encontrava havia tombado parcialmente. Ele permanecera numa posição extremamente desconfortável, inclinado para a frente, com os pés presos à base da cadeira.

Lembro-me de que a jornalista repetiu várias vezes a posição em que nosso paciente vigilante havia sido encontrado.

Percebi, então, que Hernán não estava confortavelmente sentado em sua cadeira, a nove metros de profundidade, protegido por seu “útero-guarita”, como eu quisera imaginá-lo inicialmente. Enquanto ouvia a jornalista naquela noite e observava a ênfase com que ela reproduzia a posição em que ele permaneceu durante tantos dias, perguntava-me como havia conseguido suportar tanto tempo aprisionado, sozinho, com um espaço mínimo para mover-se e sob a ameaça constante de que a estrutura instável sobre sua cabeça terminasse de desabar.

Ao que parece, depois que o microtúnel alcançou a guarita, uma das dificuldades enfrentadas pelos socorristas foi que Hernán precisava impulsionar o próprio corpo para conseguir sair dali e subir pelo túnel com a ajuda da equipe de resgate.

Naquela noite dormi mal. Acordei angustiada em duas ocasiões. Não creio que tenha sido propriamente um sonho, mas, naquele estado entre o sono e a vigília, retornava insistentemente a imagem transmitida pela jornalista: Hernán sob os escombros, semissentado, inclinado para a frente, com as pernas presas à base da cadeira. Ao seu redor, a guarita protetora estabelecia um limite diante do concreto ameaçador.

Na manhã seguinte perguntei a mim mesma por que aquela imagem me havia impactado tanto e o que ela poderia estar dizendo. Não conseguia compreender com clareza. Afinal, a história havia terminado bem.

O que, então, continuava a me inquietar?

Foi então que pude perceber que a insistência da jornalista — aquilo que ela procurava transmitir sem talvez ter plena consciência disso — estava no caráter extraordinário da posição fetal que Hernán mantivera durante todos aqueles dias.

Ao reconhecer essa cena fantasmática, compreendi que a história de sobrevivência e resgate que ouvira na noite anterior remetia ao momento do nascimento — ou do renascimento —, a um parto com todas as suas implicações. Hernán permanecera quase imóvel, em posição fetal, desejando sair de um útero de ferro, aguardando ser retirado por um micro túnel das profundezas de um edifício em ruínas. E, para continuar vivendo, precisou impulsionar-se com os próprios pés.

Felizmente, Hernán renasceu, apesar de todos os perigos que o cercavam. E, talvez, com ele também tenhamos renascido um pouco.

Em Inibição, sintoma e angústia (1926), Freud apresenta sua segunda teoria da angústia e retoma as formulações de Otto Rank em O trauma do nascimento. Embora discorde de Rank quanto à ideia de que o trauma do nascimento seja o fundamento último da angústia nas neuroses — sustentando que a experiência de castração ocupa esse lugar —, Freud já reconhecia, desde O Eu e o Id (1923), que o nascimento constitui “o primeiro grande estado de angústia”.

Como escreve Freud:

“Nos seres humanos, o processo do nascimento constitui a primeira situação de perigo, e a perturbação econômica por ele produzida torna-se o protótipo da reação de angústia.”

Mais adiante acrescenta:

“Todas as experiências de angústia conservam algo em comum, pois, em certo sentido, significam uma separação da mãe.”

Podemos — e devemos — continuar elaborando, a partir da teoria psicanalítica, todos os fenômenos psíquicos, individuais e coletivos, produzidos pela experiência de uma catástrofe como esta. Isso exigirá tempo, paciência e disposição para o trabalho de análise e de autoanálise.

Esperemos que a força, o trabalho conjunto e o amor que tornaram possível o resgate de Hernán com vida se convertam em um símbolo de renascimento para todos nós, para nossas instituições e para o nosso país.

Um país onde, há muito tempo, os terremotos não cessam.

Palavras-chave: Mudança catastrófica, Terremoto na Venezuela, Trauma do Nascimento, Trauma Acumulativo, Reverie Coletiva.

Imagem: Resgate. Foto do jornalista Mario Medina.

Categoria: Emergência Climática

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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Texto escrito originalmente em español

Observatorio Psicoanalítico – OP 701/2026

Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo

El Terremoto que não cessa

María del Carmen Míguez – Sociedad Psicoanalítica de Caracas (SPC)

El concepto de Wilfred Bion de cambio catastrófico supone una experiencia imprevista y radical que toca de manera profunda el estado emocional de la persona afectando sus verdades, certezas y produciendo un cambio psíquico, sino una ruptura. Este desequilibrio inicial, producido por la aparición de nuevas realidades, puede dar paso a una experiencia transformadora. Para que no se destruya la capacidad mental de la persona, debe existir un aparato psíquico capaz de tolerar y procesar las impresiones sensoriales y la vivencia misma, hasta ese momento irrepresentable, y que se ha producido de golpe.

Procesar y contener los efectos de un terremoto, evento traumático de origen externo, supone la posibilidad de poner en marcha un contenedor social y una reverie colectiva que permita sostener el desborde de emociones intensas de terror, muerte y pérdida. Mucho más duro resulta este proceso para las personas que pierden sus familias, sus hogares, sus rutinas, lo que aporta un sentimiento inicial de seguridad. La mente, en estos casos, se queda sin la posibilidad de asimilar y procesar todas las impresiones sensoriales y transformarlas en sentimientos, pensamientos e ideas organizadoras que disminuyan la angustia.

La experiencia traumática conecta con la historia personal, el propio trauma y los aspectos inconscientes ligados a ella. El trauma actual, opera con un efecto de resignificación y rebote de los eventos traumáticos vividos y suponen una nueva elaboración. En otros casos, cuando no es posible el trabajo psíquico de procesamiento la experiencia se suma constituyendo un trauma acumulativo.

Para mi, uno de los recursos que permite ir transformando estas vivencias y experiencias en aras de un procesamiento mayor es la lectura y la escritura.

Lo que sigue son 3 relatos que he escrito en estas dos semanas pos-terremoto y en las que he intentado construir, como psicoanalista, imágenes que nos permitan comprender y avanzar con alguna sensación de seguridad.

25/06/2026 A las 24 horas

Anoche cuando finalmente me acosté pude sentir el nivel de cansancio y el dolor que sentía. Ayer al final de la tarde, fuimos caminando hasta los Palos Grandes. Necesitábamos salir y ver de primera mano nuestro barrio, nuestros lugares cotidianos. No éramos los únicos. Mucha gente caminando en grupo o sola. Aparte estaban los rescatistas, los que trabajan en las zonas del desastre, acercando insumos a las plazas, los policías, los repartidores. El tráfico de carros también era intenso, pues las calles donde colapsaron los edificios están cerradas.

“Ver para creer”, parecía la frase de muchos, en la expectativa de que la catástrofe que mostraban las redes sociales no fuera. La gente se miraba, intentaba reconocerse. Todos viendo hacia arriba, cada tanto. No bastaba la muestra de escombros de diverso tamaño que ocupan las aceras.

– “Mira ese edificio cómo quedó”.  Fachadas abiertas, sin paredes. El fondo de un clóset a la vista. El perfil de una cama matrimonial. Un edificio que perdió su nombre. Un crucifijo inerme asomado en una pared.

Obreros apresurados sustituyendo las vidrieras de las tiendas.

Alrededor de las plazas carros estacionados con personas que ya han hecho de él su vivienda.

Oigo que me llaman, una amiga del grupo “Plantados” busca información de Susi. Vivía en el Petunia (uno de los edificios que colapsó) y no ha podido saber nada de ella. Nos encontramos con otros amigos. Todos necesitamos compartir nuestras circunstancias.

– ¿Cuán afectada quedó tu casa?  ¿Dónde estabas cuando comenzó la tragedia?  Bueno, dice otro, la tragedia comenzó en 1999. Un arco que se abrió con el deslave de la Guaira parece cerrarse ahora con el terremoto del 2026, día de San Juan.

“Sanjuán to’ lo tiene, San Juan to’ lo da”. (estribillo del folklore venezolano)

-Si?  ¿Y que nos irá a dar ahora?

En mi edificio, vecinos angustiados con la posibilidad de que haya daños estructurales ocultos. Vamos adoptando el lenguaje de los ingenieros. Vigas, columnas y losas sustituyen las palabras para nombrar la estructura interna psíquica.

¿Cuán grande será el nivel de la fractura emocional?

Somos pequeños ingenieros de la esperanza. ¿Cuánto costará reparar todo esto?  Un daño acumulativo que se amplifica en este momento.

Somos también víctimas, estamos abrumados y, en ocasiones, toca calmar a los que quieren calmar.

-Habrá tiempo, me digo, es la mínima consigna de la esperanza.

Seguiremos y desde ese reconocimiento será que podamos ayudar.

1ra semana después del terremoto.

Como todo evento que supera la capacidad de procesamiento psíquico y nos sume en un estado en el que las angustias de muerte afloran y circulan en los intercambios con nuestro entorno, el terremoto del 24/06 agregó una particularidad al fenómeno vivido, que desde mi punto de vista no es menor: la manera e intensidad con la que el terremoto tomó las redes sociales de los venezolanos, constituyéndose en sí mismo en otro evento (paralelo, virtual) a ser procesado amplificando el impacto del doblete geológico. Ninguna otra catástrofe, por lo menos en nuestro país, ha sido registrada en redes con tanta intensidad y desde tan variados ángulos y perspectivas, como lo ha sido esta tragedia. Videos de los testigos, sobrevivientes antes, durante y después del terremoto. Videos de periodistas, rescatistas y otro sin número de voluntarios. Videos de las personas atrapadas, durante y en el proceso de su rescate. Videos saliendo de entre los escombros. Videos de las cámaras de seguridad de los edificios y casas. Videos de drones, videos satelitales, videos falsos, videos, videos….

Durante la primera semana después del terremoto fuimos tomados por una especie de estado hipnótico. Muchos de nosotros no podíamos dejar de ver redes. Horas de scrolling, los ojos fijos una y otra vez frente a todas las imágenes que se iban montando y registrando. Ese estado de inercia, inclemente, del que costaba desprenderse para retomar las actividades cotidianas o de otro tipo, es efecto de la pulsión de muerte. Momentos de no pensamiento, de repetición incesante, porque las redes, justamente, exponen al usuario a una repetición de lo buscado. (lo llaman algoritmo). Compulsión a la repetición, que actuaba, como las innumerables réplicas que se han sentido en estos días, una y otra vez, con mayor o menor intensidad.

Esa necesidad de ver y revivir a través de las redes sociales las situaciones dolorosas, inimaginables, que nos ha dejado esta tragedia, forma parte del proceso de asimilación de la catástrofe, elaboración parcial del trauma y de los diferentes estados y afectos que se movilizan en momentos como estos.

En paralelo, pero no sé si en oposición real, miles de voces especializadas ofreciendo ayuda, recitando consejos y conocimiento sobre qué hacer y cómo. En conjunto, una respuesta con signo negativo y positivo que funcionó en el mejor de los casos como catarsis.

Domingo 28/06

El domingo 28 de junio, 4 días después de la tragedia, se tuvo noticia de que un vigilante que se encontraba en su puesto de trabajo, en el sótano 1 del Edificio Galerías Playa Grande, estaba vivo. A partir de allí los equipos de rescate internacional comenzaron a comunicarse con él y a organizar el complejo operativo para rescatarlo; que se demoró hasta el jueves siguiente y que supuso que Hernan Gil se mantuviera sepultado bajo 140 toneladas de escombros por 8 días, dentro de una garita de hierro, con un escritorio y una silla, en la que se encontraba cumpliendo su trabajo al momento del terremoto. 8 días como si fueran 8 meses.

Hernan fue la última persona que se rescató con vida de entre los escombros y se convirtió en un símbolo de esperanza para todos aquellos que buscaban a sus familiares en la zona de La Guaira y para tantos otros, que seguían las redes hipnóticamente esos días. Medio país estubo atento y siguiendo las informaciones del rescate que necesitó de la construcción de dos micro túneles, apuntalamiento para estabilizar las placas de concreto inestables y la introducción de cámaras de fibra óptica y sondas para mantenerlo hidratado.

Durante los días en que se trabajó en el rescate y después de su extracción, me imagine ingenuamente al vigilante Hernan sentado en su silla, dentro de la garita que lo había protegido, en posición vertical con respecto a la superficie, esperando a que lo rescataran. Esta imagen, quizás fue protectora ante lo terrible de siquiera fantasear la situación que enfrentaba este ser humano enterrado vivo.

El viernes 03 de julio en la noche un día después de su rescate exitoso, una periodista que pudo entrevistarlo en la clínica donde fue hospitalizado y que también habló con uno de los rescatistas chilenos que participó en la operación, contó -acompañándose de gestos que graficaban su historia-, que por efecto del derrumbe estrepitoso, la garita en donde se encontraba Hernan se había volcado parcialmente y él había quedado en una posición incómoda, inclinada hacia adelante, con los pies enredados en la base de la silla. Recuerdo que la periodista simuló varias veces la posición en que se encontró a nuestro paciente vigilante.

Efectivamente, Hernan no estaba sentado cómodamente en su silla a nueve metros de profundidad protegido por su útero-garita, como quise imaginarlo al principio. Mientras escuché esa noche a la periodista y veía el énfasis que hacía para imitar la posición en la que permaneció Hernan, me preguntaba cómo había podido aguantar tantos días allí aprisionado, solo, con un rango estrecho de movimiento y con la amenaza de que la estructura que se tambaleaba sobre él se terminara de derrumbar.

Al parecer, luego de que el túnel llegó hasta la garita una de las dificultades que enfrentaron los rescatistas fue que Hernan tenía que impulsarse para terminar de salir de allí y ascender por el túnel con su auxilio.

Esa noche, dormí mal y me desperté en dos oportunidades angustiada. No creo que haya sido un sueño propiamente, pero en el duermevela me venía la imagen que me transmitió la periodista sobre la posición de Hernan bajo los escombros: semi sentado e inclinado hacia adelante, con las piernas enredadas en la base de la silla. Alrededor, la garita protectora estableciendo un límite del concreto amenazante.

Me pregunté a la mañana siguiente por qué la imagen me había impactado y qué podía querer decir. No lo veía con claridad. Después de todo, la historia había tenido un final feliz. ¿Qué me inquietaba de ella?

Fue entonces cuando pude ver que el énfasis de la periodista, lo que había querido transmitir sin estar del todo consciente de ello, era lo extraordinario de la posición fetal que Hernan había mantenido durante todos esos días.

Con ese reconocimiento de la escena fantasmática, entendí que la historia de supervivencia y rescate que había escuchado la noche anterior aludía al momento del nacimiento o renacimiento, a un parto con todas sus implicaciones. Hernan había permanecido casi inmovil, en posición fetal, queriendo salir de un útero de hierro, esperando a ser extraído por un microtunel, desde lo profundo de un edificio en ruinas, y para poder seguir viviendo tenía que impulsarse desde los pies. Afortunadamente, Hernan había renacido a pesar de todos los peligros que lo acechaban y con él, quizás también, nosotros.

En Inhibición, síntoma y angustia (1926), Freud presenta su segunda teoría de la angustia y hace una reflexión del libro de Otto Rank “el trauma del nacimiento”.  A pesar de las diferencias con Rank en relación al hecho de sí es el trauma del nacimiento o la experiencia de castración lo que se encuentra en la base de la angustia en la neurosis, Freud admite, ya desde su trabajo anterior, el Yo y el Ello (1923) que el nacimiento es “el primer gran estado de angustia”.

En los seres humanos dice Freud, “el proceso del nacimiento es la primera situación de peligro, y la subversión económica que produce se convierte en el arquetipo de la reacción de angustia” (…)Todas las experiencias de angustia conservan algo en común, pues en cierto sentido significan una separación de la madre”.

Podemos y debemos seguir elaborando desde la teoría psicoanalítica todos los fenómenos psíquicos que se presentan a nivel colectivo e individual producto de haber vivido una experiencia catastrófica como esta. Requerirá tiempo, paciencia y capacidad para el análisis y el autoanálisis.

Esperemos que la fortaleza, el trabajo conjunto y el amor que significaron el rescate de Hernan con vida, sea un símbolo de renacimiento entre nosotros, nuestras instituciones y nuestro país. Donde hace mucho que los terremotos no cesan.

Palabras clave:  Cambio catastrófico, Terremoto en Venezuela, Trauma de nacimiento, Trauma acumulativo, Reverie colectiva.

Imagem: La foto es del periodista Oscar Medina

Categoría: Emergencia Climatica

Nota de la Curaduría: El Observatorio Psicoanalítico es un espacio institucional de la Federación Brasileña de Psicoanálisis dedicado a la escucha de la pluralidad y a la libre expresión del pensamiento de los psicoanalistas. Al enviar sus textos, los autores declaran la originalidad de su producción, el respeto a la legislación vigente y el compromiso con la ética y la civilidad en el debate público y científico. Así, los ensayos son de responsabilidad exclusiva de sus autores, lo cual no implica respaldo ni concordancia por parte del OP ni de la Febrapsi.

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Tags: Mudança catastrófica | Reverie Coletiva | Terremoto na Venezuela | Trauma Acumulativo | Trauma do Nascimento
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