Observatório Psicanalítico OP 700/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

OP 700: Contra a pressa, a palavra

Equipe de Curadoria do Observatório Psicanalítico FEBRAPSI: Beth, Ana Carolina, Ana Valeska, Cris, Gabriela, Giuliana e Lina

Contra a pressa, a palavra. Não qualquer palavra, nem qualquer tempo. Contra a pressa, a palavra que alivia o peso dos dias saturados de padrões. Contra a pressa, a palavra que confronta o automatismo. Contra a pressa, a palavra que convoca o olhar que se detém, o olhar que faz pouso. Contra a pressa, a palavra que se achega ao detalhe poético do gesto; a palavra que se irmana ao movimento lento do artista que esculpe na pedra a palavra contra.

Dá trabalho, é fato. Ir contra. Contra o consenso. Contra a ditadura da produtividade. Contra o imediatismo. Contra a perfeição. Contra o que não pode ter ruga, remela, calo no pé. Contra a beleza instituída pela indústria. Contra as fórmulas fáceis. Contra tudo aquilo que desumaniza. É por isso que muitas vezes o trabalho precisa ser nosso. Tem tarefas que não que não dá para delegar. Pensar, por exemplo: dá trabalho. Mas será um desastre para o pensar humano se abrirmos mão desse trabalho e entregarmos nossa capacidade de pensar a respostas prontas, produzidas sem elaboração. Vale sempre perguntar: quem inventa essas respostas? E a serviço de quê elas operam?

Contra a escrita sem experiência, a palavra afetada pela angústia de existir. A escrita que chega junto da dor do outro. Da alegria também. Contra o perfeito sem vida, o arrebatamento da falha, do erro, da imperfeição. Contra a arrogância, a empatia. Contra o caos climático, a responsabilidade por um futuro possível. Contra o racismo, a reparação. Contra o feminicídio, a defesa intransigente da vida das mulheres. São muitos os “contras” que atravessaram nosso repertório de inquietações ao longo destes nove anos de palavra viva no Observatório Psicanalítico. Mas escrevemos este ensaio também a favor de uma celebração: celebrar a escrita de centenas de colegas que fizeram dessa experiência um trabalho coletivo. Afinal, chegamos ao ensaio de número 700.

Contra tantos “contras”, talvez seja hora de dizer também a favor de quê escrevemos. Escrevemos a favor da palavra como trabalho de elaboração. É isso que este número 700 celebra.

Setecentos ensaios são muito mais do que uma marca editorial. São os rastros de uma experiência coletiva iniciada em 2017. Testemunham que, diante dos acontecimentos do Brasil e do mundo, a psicanálise pode ocupar um lugar público sem se converter em opinião apressada, sem se reduzir a explicações totalizantes nem ceder à sedução das respostas prontas.

Ao longo desse tempo, fomos descobrindo que escrever não era simplesmente comentar os acontecimentos, mas produzir um intervalo diante deles. Um tempo de elaboração. Um espaço onde o vivido pudesse tornar-se pensamento.

Foi por isso que o ensaio se tornou nossa forma privilegiada de escrita. Inspirados por Walter Benjamin em suas “Teses sobre o conceito de história” (1940), escolhemos escrever “a contrapelo” uma metáfora que nos convida a abandonar a visão linear e triunfalista do progresso, propondo que a história seja lida sob a perspectiva dos oprimidos e vencidos, revelando o sofrimento silenciado pelas classes dominantes. Assim, não se trata de acompanhar o fluxo dos fatos nem nos acomodar ao consenso do momento, mas escovar o presente na direção contrária de sua aparência imediata. Recolher restos, ruídos, sintomas, silêncios, apagamentos e contradições que a velocidade tende a apagar. Perguntar não apenas pelo que os acontecimentos mostram, mas pelo que neles insiste, retorna, se recalca ou permanece sem nome.

Desde o início, o OP escolheu circular para além dos muros institucionais. Escolheu o espaço público: os e-mails, o site, os podcasts, os editoriais, os encontros e, também, as redes sociais. Mas decidiu fazê-lo sustentado pela força de seu coletivo e por uma ética da escuta.

Habitar as redes, entretanto, significava enfrentar uma tensão constitutiva. As plataformas digitais não apenas aceleram a circulação das informações; elas também organizam modos de reconhecimento. Convocam todos nós, inclusive os psicanalistas, a uma armadilha narcísica: a confundir circulação nas redes com presença, visibilidade e curtidas com escuta, impacto visual com transmissão, simples opiniões com pensamentos.

Essa talvez seja uma das questões mais delicadas de nosso tempo. A comunicação da psicanálise tornou-se mais necessária do que nunca. Mas exatamente por isso ela corre o risco de ser capturada pelas mesmas lógicas que procura compreender. O desejo de alcançar novos públicos pode facilmente transformar-se na necessidade de produzir presença permanente; a transmissão pode deslizar para a performance; a interlocução, para a autopromoção; a palavra, para mercadoria algorítmica.

O desafio, portanto, nunca foi simplesmente estar ou não estar nas redes. O desafio é como habitá-las sem que elas passem a habitar completamente nossa forma de pensar. Por isso, comunicar-se com a população nunca significou, para o OP, simplificar a psicanálise, transformá-la em frases de efeito, diagnósticos rápidos ou conselhos adaptativos. Nossa aposta continua sendo outra: a da elaboração, da especulação, da pergunta que permanece aberta, da escuta que resiste à tentação da certeza.

Talvez por isso também nos sintamos tão próximos da experiência de tantos artistas que produzem contra a maré do consenso. Não porque neguem seu tempo, mas porque recusam responder imediatamente às exigências dele. Criam pausas. Produzem estranhamentos. Fazem o olhar pousar onde antes apenas passava.

Escrever sobre o mundo não significa apenas comentá-lo. Significa sustentar uma forma de presença da psicanálise na cultura. Uma presença implicada com seu tempo, mas não capturada por ele. Uma presença capaz de reconhecer que o sofrimento psíquico nunca pertence apenas ao indivíduo: ele é também atravessado pelas formas de organização da vida coletiva, da política, das instituições e da cultura.

Neste momento em que apresentamos também uma nova forma de comunicação da história do OP e do trabalho de sua Curadoria, reafirmamos nosso desejo de ampliar o diálogo com diferentes públicos sem abrir mão do rigor conceitual, da ética da escuta e da complexidade que sempre orientaram nosso percurso. Ampliar, para nós, nunca significou adaptar-se à velocidade do tempo. Significa encontrar novas formas de preservar aquilo que permanece essencial.

Talvez seja isso que o Observatório Psicanalítico tenha aprendido ao longo desses nove anos: estar no presente sem ser absorvido por sua aceleração; ocupar as redes sem se deixar governar inteiramente por seus algoritmos; falar ao público sem renunciar à complexidade da experiência humana.

Setecentos ensaios depois, continuamos apostando na mesma direção. Contra a pressa, a palavra. Acreditando na palavra que pode abrir tempo para pensar.

Palavras-chave: Observatório Psicanalítico; psicanálise e cultura; redes sociais; narcisismo; comunicação digital; ensaio; curadoria

Imagem: Woman Writing by August Macke, 1910

Categoria: Instituição Psicanalítica; Política e Sociedade

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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Tags: comunicação digital | Curadoria | ensaio | narcisismo | observatorio psicanalitico | psicanálise e cultura | redes sociais
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