
Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Vitórias & Derrotas
Avelino Neto – SPBsb
A derrota do Brasil na Copa do Mundo de 2026 talvez ensine menos sobre futebol do que sobre nós mesmos.
Não. Este ensaio não se presta a consolo algum. Começamos mal, perdendo um pênalti. Convém lembrar que alguns dos maiores jogadores da história também desperdiçaram cobranças decisivas. Acontece. E, às vezes, elimina seleções.
O problema começa quando a bola deixa de ser bola e passa a carregar a fantasia de uma nação inteira.
Nenhum país projeta tanto sobre uma equipe de futebol quanto o Brasil. Em poucas horas, onze jogadores deixam de representar um esporte para encarnar milhões de desejos, frustrações, ressentimentos e esperanças.
Quando vencem, parecem provar que ainda somos excepcionais. Quando perdem, tornam-se depositários de uma culpa que jamais lhes pertenceu integralmente.
Freud observava que as massas precisam de identificações. Elas elegem líderes, heróis, bandeiras. No Brasil, durante algumas semanas a cada quatro anos, elegem também uma seleção nacional. A camisa amarela converte-se em segunda pele da identidade coletiva. O indivíduo desaparece; resta o “nós”.
Esse “nós”, contudo, é profundamente ambivalente.
Queremos heróis, mas não suportamos que permaneçam humanos. Exigimos perfeição de quem, por definição, está sujeito ao erro. O pênalti perdido transforma um ídolo em culpado porque precisamos acreditar que as derrotas possuem rosto, nome e endereço. A complexidade tranquiliza pouco; o bode expiatório tranquiliza muito.
René Girard talvez sorrisse discretamente diante desse espetáculo.
A comunidade ferida procura alguém sobre quem descarregar a violência que ela mesma produz. O derrotado torna-se sacrificial. Pouco importa que tenha sido o melhor durante todo o torneio. Bastou um instante. A memória coletiva é seletiva e, frequentemente, cruel.
Há, entretanto, uma questão mais profunda.
O futebol moderno tornou-se um retrato do capitalismo tardio. Tudo deve produzir resultado imediato. O desempenho vale mais do que o processo. A vitória legitima qualquer método; a derrota invalida retrospectivamente todas as virtudes.
O treinador que ontem era um estrategista genial converte-se, em noventa minutos, num incompetente. O jogador admirado transforma-se em mercadoria defeituosa. A análise desaparece. Entra em cena o tribunal.
As redes sociais ampliaram essa lógica.
Nunca foi tão fácil julgar. Nunca foi tão difícil compreender.
Vivemos uma cultura que substituiu o pensamento pela sentença. Antes que o apito final termine de ecoar, já existem culpados, memes, cancelamentos, especialistas improvisados e explicações definitivas. A velocidade tornou-se inimiga da reflexão.
Na política acontece o mesmo.
Governos são eleitos como técnicos salvadores e demitidos simbolicamente após o primeiro tropeço. Adversários deixam de ser concorrentes para tornar-se inimigos morais. O país oscila entre euforias e depressões coletivas, como um torcedor incapaz de aceitar empates com a realidade.
A democracia exige tolerância à frustração. O futebol também.
Talvez essa seja uma das maiores lições psicanalíticas de uma Copa do Mundo.
Melanie Klein descreveu a difícil passagem da posição esquizoparanoide para a posição depressiva. Enquanto predominam as cisões, tudo se divide entre bons e maus, vencedores e fracassados, heróis e traidores. Amadurecer significa suportar que o mesmo objeto possa ser admirável e falível ao mesmo tempo.
Uma seleção pode jogar bem e perder.
Um grande atleta pode errar um pênalti.
Uma nação pode continuar sendo grande depois de uma eliminação.
Isso parece simples, mas exige trabalho psíquico.
Há uma diferença decisiva entre perder e ser derrotado.
Perder é um acontecimento.
Ser derrotado é permitir que esse acontecimento colonize a identidade.
As sociedades maduras aprendem com suas perdas. As imaturas apenas procuram culpados.
No fundo, toda Copa do Mundo nos obriga a enfrentar uma pergunta antiga da filosofia.
O que realmente constitui uma vitória?
Se vencer for apenas levantar uma taça, quase todos fracassarão. Apenas um país regressará campeão.
Mas, se vitória significar preservar a capacidade de pensar depois da perda, reconhecer limites sem destruir pessoas, aprender com o fracasso sem fabricar inimigos, então o futebol terá ensinado algo infinitamente mais valioso do que qualquer troféu.
Talvez seja esse o verdadeiro placar das civilizações.
Há derrotas que humilham.
Há derrotas que educam.
E há vitórias que, embriagadas por si mesmas, já iniciam silenciosamente a próxima derrota.
Palavras-chave: Identidade coletiva, Frustração, Bode expiatório, Maturidade psíquica, Cultura Democrática
Imagem: Menino pobre com a bola de futebol. Imagem de uso gratuito
Categoria: Política e Sociedade
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