Observatório Psicanalítico OP 699/2026

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Vitórias & Derrotas

Avelino Neto – SPBsb

A derrota do Brasil na Copa do Mundo de 2026 talvez ensine menos sobre futebol do que sobre nós mesmos.

Não. Este ensaio não se presta a consolo algum. Começamos mal, perdendo um pênalti. Convém lembrar que alguns dos maiores jogadores da história também desperdiçaram cobranças decisivas. Acontece. E, às vezes, elimina seleções.

O problema começa quando a bola deixa de ser bola e passa a carregar a fantasia de uma nação inteira.

Nenhum país projeta tanto sobre uma equipe de futebol quanto o Brasil. Em poucas horas, onze jogadores deixam de representar um esporte para encarnar milhões de desejos, frustrações, ressentimentos e esperanças.

Quando vencem, parecem provar que ainda somos excepcionais. Quando perdem, tornam-se depositários de uma culpa que jamais lhes pertenceu integralmente.

Freud observava que as massas precisam de identificações. Elas elegem líderes, heróis, bandeiras. No Brasil, durante algumas semanas a cada quatro anos, elegem também uma seleção nacional. A camisa amarela converte-se em segunda pele da identidade coletiva. O indivíduo desaparece; resta o “nós”.

Esse “nós”, contudo, é profundamente ambivalente.

Queremos heróis, mas não suportamos que permaneçam humanos. Exigimos perfeição de quem, por definição, está sujeito ao erro. O pênalti perdido transforma um ídolo em culpado porque precisamos acreditar que as derrotas possuem rosto, nome e endereço. A complexidade tranquiliza pouco; o bode expiatório tranquiliza muito.

René Girard talvez sorrisse discretamente diante desse espetáculo.

A comunidade ferida procura alguém sobre quem descarregar a violência que ela mesma produz. O derrotado torna-se sacrificial. Pouco importa que tenha sido o melhor durante todo o torneio. Bastou um instante. A memória coletiva é seletiva e, frequentemente, cruel.

Há, entretanto, uma questão mais profunda.

O futebol moderno tornou-se um retrato do capitalismo tardio. Tudo deve produzir resultado imediato. O desempenho vale mais do que o processo. A vitória legitima qualquer método; a derrota invalida retrospectivamente todas as virtudes.

O treinador que ontem era um estrategista genial converte-se, em noventa minutos, num incompetente. O jogador admirado transforma-se em mercadoria defeituosa. A análise desaparece. Entra em cena o tribunal.

As redes sociais ampliaram essa lógica.

Nunca foi tão fácil julgar. Nunca foi tão difícil compreender.

Vivemos uma cultura que substituiu o pensamento pela sentença. Antes que o apito final termine de ecoar, já existem culpados, memes, cancelamentos, especialistas improvisados e explicações definitivas. A velocidade tornou-se inimiga da reflexão.

Na política acontece o mesmo.

Governos são eleitos como técnicos salvadores e demitidos simbolicamente após o primeiro tropeço. Adversários deixam de ser concorrentes para tornar-se inimigos morais. O país oscila entre euforias e depressões coletivas, como um torcedor incapaz de aceitar empates com a realidade.

A democracia exige tolerância à frustração. O futebol também.

Talvez essa seja uma das maiores lições psicanalíticas de uma Copa do Mundo.

Melanie Klein descreveu a difícil passagem da posição esquizoparanoide para a posição depressiva. Enquanto predominam as cisões, tudo se divide entre bons e maus, vencedores e fracassados, heróis e traidores. Amadurecer significa suportar que o mesmo objeto possa ser admirável e falível ao mesmo tempo.

Uma seleção pode jogar bem e perder.

Um grande atleta pode errar um pênalti.

Uma nação pode continuar sendo grande depois de uma eliminação.

Isso parece simples, mas exige trabalho psíquico.

Há uma diferença decisiva entre perder e ser derrotado.

Perder é um acontecimento.

Ser derrotado é permitir que esse acontecimento colonize a identidade.

As sociedades maduras aprendem com suas perdas. As imaturas apenas procuram culpados.

No fundo, toda Copa do Mundo nos obriga a enfrentar uma pergunta antiga da filosofia.

O que realmente constitui uma vitória?

Se vencer for apenas levantar uma taça, quase todos fracassarão. Apenas um país regressará campeão.

Mas, se vitória significar preservar a capacidade de pensar depois da perda, reconhecer limites sem destruir pessoas, aprender com o fracasso sem fabricar inimigos, então o futebol terá ensinado algo infinitamente mais valioso do que qualquer troféu.

Talvez seja esse o verdadeiro placar das civilizações.

Há derrotas que humilham.

Há derrotas que educam.

E há vitórias que, embriagadas por si mesmas, já iniciam silenciosamente a próxima derrota.

Palavras-chave: Identidade coletiva, Frustração, Bode expiatório, Maturidade psíquica, Cultura Democrática

Imagem: Menino pobre com a bola de futebol. Imagem de uso gratuito

Categoria: Política e Sociedade

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Tags: Bode expiatório | Cultura Democrática | Frustração | Identidade coletiva | Maturidade psíquica
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