Observatório Psicanalítico OP 698/2026

Observatório Psicanalítico OP 698/2026 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

A terra que treme e o sujeito que se quebra. Impacto psíquico dos terremotos na Venezuela e a negligência estrutural do regime chavista-madurista

Sodely Páez – Sociedade Psicanalítica de Caracas (SPC)

A Venezuela treme e dói. Não é uma metáfora, embora também o seja. O país é atravessado por várias falhas geológicas ativas, que o tornam um território sísmico de considerável importância. Nossa história geológica, marcada por tremores e terremotos, inscreve-se, queiramos ou não, na história psíquica daqueles que a padecem. Mas há algo que diferencia os terremotos atuais — dois de grande magnitude, separados por apenas 36 segundos — dos anteriores: o contexto em que ocorreram. Um contexto que não é neutro nem inevitável. Tem forma de governo. Um governo corrupto, fraudulento e negligente com seus cidadãos.

Entendemos o trauma como uma ferida no aparelho anímico, produzida por uma excitação que transborda a capacidade de elaboração do eu. Não é apenas o golpe que traumatiza, mas a impossibilidade de processá-lo, de dar-lhe lugar na cadeia de significações com a qual o sujeito organiza sua experiência. Lacan o situou no registro do Real, aquilo que escapa à simbolização e retorna como angústia, como pesadelo, como paralisia. O terremoto encarna essa categoria com uma literalidade que poucas coisas igualam: o solo, que se supunha firme, deixa de sê-lo; a realidade conhecida se fragmenta em segundos; o corpo registra uma ameaça que a mente não consegue ordenar.

Aquilo que, em condições normais, seria um acontecimento extraordinário passa a ser, na Venezuela, um acontecimento extraordinário que ocorre sobre uma base de sofrimento ordinário, já por si só insustentável. Um golpe inesperado em um país ferido há quase trinta anos de ditadura e que agora mergulha em uma terrível desesperança, como nunca. Tanto para os venezuelanos que permanecem no país quanto para aqueles de nós que emigramos e assistimos, com profunda dor e impotência, ao desmoronamento do que restava — e que custará imensamente reconstruir.

As crianças, como a população mais frágil, sofrem esses sismos a partir de uma vulnerabilidade que não produziram. A desnutrição crônica, a precariedade do entorno habitacional, a migração forçada que dissolveu famílias inteiras, a exposição cotidiana à violência e à incerteza constituem aquilo que poderíamos chamar de um trauma de fundo, silencioso, acumulativo, sobre o qual o terremoto opera como detonador. Para a criança, a confiabilidade do mundo exterior está diretamente ligada à confiabilidade do adulto que dela cuida. Quando a terra sacode e o adulto não consegue conter seu próprio terror — ou simplesmente não está presente, porque emigrou em busca daquilo que o regime não lhe deu —, o eu infantil fica sem âncora.

As consequências clínicas são conhecidas: regressões comportamentais, enurese, mutismo, terrores noturnos, apego excessivo ao cuidador ou, no extremo oposto, uma indiferença que não é calma, mas dissociação. Aquilo que Winnicott chamava de holding, essa função de sustentação que permite ao psiquismo jovem tolerar o intolerável, ausenta-se de súbito; em seu lugar, resta uma experiência que a criança não consegue nomear, apenas repetir.

Penso, por sua vez, que o adolescente chega ao terremoto a partir de outro lugar, embora igualmente comprometido. A adolescência é o tempo em que o sujeito começa a interrogar o Outro social — o Estado, as instituições, os adultos em geral — sobre o sentido do mundo e sobre seu lugar nele. O adolescente venezuelano já tinha uma resposta a essa pergunta antes do sismo: o Outro não responde; o Outro mente; o Outro protege os seus e abandona o restante.

Quando o terremoto confirma essa leitura — quando ele liga para o número de emergência e ninguém atende; quando vê chegar a ajuda política antes da ajuda humanitária; quando comprova que o vizinho com carteira do partido recebe mais do que ele —, essa conclusão se sela de uma maneira que não é fácil reverter. É o que clinicamente reconhecemos como desengate simbólico: a renúncia ao laço social, a perda do futuro como horizonte possível, a instalação em um presente sem projeto. Não é por acaso que a Venezuela expulsa jovens em um ritmo sem precedentes em sua história. Aqueles que saem não fogem apenas da fome. Fogem também de terem comprovado, repetidas vezes, que o esforço não tem recompensa em um sistema que distribui segundo a lealdade política, e não segundo a necessidade humana.

Em relação ao adulto, poderia dizer que o terremoto ativa uma constelação organizada em torno de três eixos, que nem sempre aparecem separadamente. Primeiro, a ameaça direta à própria integridade e à dos entes queridos, com tudo o que isso mobiliza de angústia de morte e de culpa do sobrevivente, que pode ser mais devastadora do que o próprio trauma físico. Segundo, a perda do lar como continente psíquico. Não se perde apenas uma estrutura de concreto; perde-se o espaço que organizava a vida cotidiana, que guardava a história, que tornava possível a ilusão de permanência. Terceiro — e talvez o mais corrosivo a longo prazo —, a confrontação com a impotência, a verificação de que o Estado não chegou; que, quando chegou, foi para se fotografar entre os escombros; e que a ajuda real veio dos vizinhos, da diáspora e de organizações internacionais que o próprio regime tenta bloquear, desta vez sem muito êxito, por razões ideológicas.

Esse terceiro eixo corrói aquilo que Erikson chamava de confiança básica: a certeza de que o mundo é, em última instância, um lugar onde é possível viver e confiar. Quando essa certeza se rompe não por um acontecimento único, mas pela acumulação de traições sistemáticas, o dano já não é apenas psicológico. É existencial.

O regime chavista-madurista não causou os terremotos. Mas causou, e isso é documentável, as condições que transformam um sismo em catástrofe humana evitável. O sistema de proteção civil venezuelano foi progressivamente desmantelado desde o início do período chavista e substituído por estruturas paraestatais que atuam segundo critérios políticos, não técnicos. Os hospitais públicos, que deveriam ser o primeiro recurso emergências, carecem de insumos básicos, de pessoal e de equipamentos — não por falta de petróleo, mas pela gestão criminosa dos recursos.

As moradias construídas no âmbito da Gran Misión Vivienda, exibidas como uma conquista histórica da revolução, apresentam, em múltiplos casos, deficiências estruturais que as tornam especialmente vulneráveis diante de eventos sísmicos. Os programas de atenção psicológica pós-desastre, que em outros países fazem parte do protocolo padrão de emergências, simplesmente não existem como política pública na Venezuela. Tudo isso tem um nome na psicanálise: trauma secundário. O trauma secundário não é produzido por quem golpeia primeiro, mas por quem deveria proteger e escolheu não fazê-lo.

A dinâmica específica da resposta do regime aos desastres naturais, particularmente danosa do ponto de vista psíquico, é a negação pública do dano, o discurso triunfalista sobre a capacidade do governo de manejar a emergência e a criminalização daqueles que denunciam a insuficiência da resposta oficial. Essa combinação é uma estratégia enlouquecedora, que situa o sujeito atingido em uma posição de duplo vínculo. Ele sofre o dano real, mas o relato oficial lhe diz que não há tal dano ou que ele já foi resolvido. Essa contradição entre a experiência vivida e o discurso do poder tem efeitos sobre o psiquismo que vão além do estresse agudo. Produz uma forma de desrealização coletiva, uma fenda entre aquilo que se sente e aquilo que se pode nomear. É o que, em contextos clínicos, associamos à estrutura do trauma, que não pode ser narrado porque não encontra espaço simbólico onde se instalar.

A prática clínica nessas condições exige mais do que técnica. Exige a capacidade de sustentar a escuta em um contexto no qual os próprios terapeutas fazem parte da população atingida, os recursos institucionais são praticamente inexistentes e o sofrimento tem causas estruturais que nenhuma intervenção individual pode resolver. A experiência acumulada na psicanálise aplicada a situações de exceção, desde os trabalhos de Bruno Bettelheim até as contribuições mais recentes da clínica do trauma em contextos de violência política, ensina-nos, no entanto, que mesmo nas condições mais adversas, a palavra sustentada por um Outro que escuta, sem fugir, tem um poder reparador que não deve ser subestimado. Não porque resolva o político, mas porque permite ao sujeito recuperar sua posição como alguém que pode falar, que pode sofrer, que pode, eventualmente, desejar algo além de sobreviver.

Há coisas que não caem sozinhas. Não cai sozinha a moradia mal construída. Não se fragmenta sozinha a família que o Estado empobreceu até a diáspora. Não se quebra sozinho o psiquismo da criança que ninguém sustentou, nem o do adolescente cujo futuro foi cancelado antes mesmo de poder imaginá-lo. Por trás de cada um desses colapsos há decisões políticas, omissões calculadas, corrupção sistemática e uma vontade de poder que priorizou a permanência do regime em detrimento do bem-estar da população. Nomear isso não é ideologia; é diagnóstico. E o diagnóstico, quando é honesto, é também o primeiro ato de qualquer tratamento possível.

Enquanto isso, a dor se agudiza. O panorama parece muito desalentador. Mas, também enquanto isso, o venezuelano celebra cada sobrevivente resgatado, agradece cada ajuda recebida, vinda de todas as partes do mundo, aos socorristas internacionais e aos locais, aos que não desfalecem procurando seus entes queridos entre os escombros, aos que dizem, enquanto resgatam uma menina: “minha rainha, você vai ficar bem” ou “que unhas lindas”.

Celebramos o sorriso de Fabiana, menina resgatada, e a já famosa Adriana, bem como seu irmão  desesperado, salvando-a como pode: “Caralho, Adriana, cubra o rosto, meu amor, eu sei o que estou fazendo”.

Referências

Bettelheim, B. (1981). Sobrevivir. Grijalbo.

Erikson, E. H. (1950). Childhood and society. Norton.

Freud, S. (1920/1992). Além do princípio do prazer. Obras Completas, Vol. XVIII. Amorrortu.

Freud, S. (1926/1992). Inibição, sintoma e angústia. Obras Completas, Vol. XX. Amorrortu.

Kirmayer, L. J. (2007). Failures of imagination: The refugee’s narrative in psychiatry. Anthropology & Medicine, 10(2), 167–185.

Lacan, J. (1964/1987). O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Paidós.

Lacan, J. (1962-1963/2006). O Seminário, livro 10: A angústia. Paidós.

OCHA (2023). Venezuela: Informe de situação humanitária. ONU.

Winnicott, D. W. (1965/1990). O processo de maturação na criança. Laia.

Palavras-chave: Trauma psíquico, trauma social, terremotos, catástrofes naturais, ditadura e psicanálises

Imagem: O sorriso de Fabiana  https://www.instagram.com/p/DaN31RkxQ1-/?igsh=ZjY5bDA0ajlzbXU3

Categoria: Política e Sociedade

 

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

 

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Texto escrito originalmente em Espanhol

Observatorio Psicoanalítico – OP 698/2026

 

Ensayos sobre acontecimientos sociopolíticos, culturales e institucionales en Brasil y en el Mundo

La tierra que tiembla y el sujeto que se quebra. Impacto psíquico de los terremotos en Venezuela y la negligencia estructural del régimen chavista-madurista

Sodely Páez – Sociedad Psicoanalítica de Caracas (SPC)

Venezuela tiembla y duele.  No es una metáfora, aunque también lo sea. El país atraviesa varias fallas geológicas activas que lo convierten en territorio sísmico de consideración. Nuestra historia geológica, marcada por temblores y terremotos, se inscribe, quiérase o no, en la historia psíquica de quienes la padecen. Pero hay algo que diferencia los actuales terremotos, (dos de grandes magnitudes, con 36 segundos apenas, de diferencia entre ellos), de los anteriores , y es el contexto en el que ocurrieron. Contexto que no es neutral ni inevitable. Tiene forma de gobierno. Uno corrupto, fraudulento y negligente con sus ciudadanos.

Entendemos el trauma como una herida en el aparato anímico producida por una excitación que desborda la capacidad de elaboración del yo. No es solo el golpe lo que traumatiza sino la imposibilidad de procesarlo, de darle lugar en la cadena de significados con que el sujeto organiza su experiencia. Lacan lo situó en el registro de lo Real, aquello que escapa a la simbolización y retorna como angustia, como pesadilla, como parálisis. El terremoto encarna esa categoría con una literalidad que pocas cosas igualan: el suelo que se consideraba firme deja de serlo, la realidad conocida se fragmenta en segundos, el cuerpo registra una amenaza que la mente no puede ordenar. Lo que en condiciones normales sería un evento extraordinario, pasa a ser, en Venezuela, un evento extraordinario que ocurre sobre una base de sufrimiento ordinario, ya de por sí insostenible. Un golpe no esperado por un país lastimado durante ya casi 30 años de dictadura y que ahora se sume en una terrible desesperanza como nunca antes. Tanto para los venezolanos dentro del país , como para los que emigramos y vemos con profundo dolor e impotencia el desmoronamiento de lo que quedaba y que costará demasiado reconstruir.

Los niños, la población más frágil, sufren estos sismos desde una vulnerabilidad que no fabricaron. La desnutrición crónica, la precariedad del entorno habitacional, la migración forzada que ha disuelto familias enteras, la exposición cotidiana a la violencia y la incertidumbre, constituyen lo que podría llamarse un trauma de fondo, silencioso, acumulativo, sobre el cual el terremoto opera como detonante. Para el niño, la confiabilidad del mundo exterior está directamente ligada a la confiabilidad del adulto que lo cuida. Cuando la tierra sacude y el adulto no puede contener su propio terror, o simplemente no está porque emigró en busca de lo que el régimen no le dio, el yo infantil queda sin ancla. Las consecuencias clínicas son conocidas: regresiones conductuales, enuresis, mutismo, terrores nocturnos, aferramiento al cuidador o, en el extremo opuesto, una indiferencia que no es calma sino disociación. Lo que Winnicott llamaba holding, esa función de sostén que permite al psiquismo joven tolerar lo intolerable, se ausenta de golpe, y en su lugar queda una experiencia que el niño no puede nombrar, solo repetir.

Por su parte, pienso que el adolescente llega al terremoto desde otro lugar, aunque igualmente comprometido. La adolescencia es el tiempo en que el sujeto empieza a interrogar al Otro social, al Estado, a las instituciones, a los adultos en general, sobre el sentido del mundo y sobre su lugar en él. El adolescente venezolano ya tenía una respuesta a esa pregunta antes del sismo: el Otro no responde, el Otro miente, el Otro protege a los suyos y abandona al resto. Cuando el terremoto confirma esa lectura, cuando llama al número de emergencias y nadie contesta, cuando ve llegar la ayuda política antes que la ayuda humanitaria, cuando comprueba que el vecino con carnet del partido recibe más que él, esa conclusión se sella de una manera que no es fácil revertir. Es lo que clínicamente reconocemos como desenganche simbólico, la renuncia al lazo social, la pérdida del futuro como horizonte posible, la instalación en un presente sin proyecto. No es casualidad que Venezuela expulse jóvenes a un ritmo que no tiene precedentes en su história. Los que salen no huyen solo del hambre. Huyen también de haber comprobado, una y otra vez, que el esfuerzo no tiene recompensa en un sistema que distribuye según la lealtad política y no según la necesidad humana.

En relación al adulto, podría decir que el terremoto activa una constelación que se organiza en torno a tres ejes que no siempre aparecen por separado. Primero, la amenaza directa a la integridad propia y de los seres queridos, con todo lo que eso moviliza de angustia de muerte y de culpa sobreviviente, que puede ser más devastadora que el propio trauma físico. Segundo, la pérdida del hogar como continente psíquico. No se pierde solo una estructura de concreto, se pierde el espacio que organizaba la vida cotidiana, que guardaba la história, que hacía posible la ilusión de permanencia. Tercero, y quizás el más corrosivo a largo plazo, la confrontación con la impotencia, la verificación de que el Estado no llegó, que cuando llegó fue para fotografiarse entre los escombros, y que la ayuda real vino de los vecinos, de la diáspora y de organizaciones internacionales a las que el propio régimen intenta bloquear, esta vez sin mucho éxito, por razones ideológicas. Ese tercer eje erosiona lo que Erikson llamaba confianza básica, la certeza de que el mundo es, en última instancia, un lugar donde es posible vivir y confiar. Cuando esa certeza se rompe no por un evento único sino por la acumulación de traiciones sistemáticas, el daño ya no es solo psicológico. Es existencial.

El régimen chavista-madurista no causó los terremotos. Pero sí causó, y esto es documentable, las condiciones que convierten a un sismo en catástrofe humana evitable. El sistema de protección civil venezolano fue desmantelado progresivamente desde inicios del período chavista y reemplazado por estructuras paraestatales que actúan con criterios políticos, no técnicos. Los hospitales públicos, que deberían ser el primer recurso en emergencias, carecen de insumos básicos, de personal y de equipamiento; no por falta de petróleo, sino por gestión criminal de los recursos. Las viviendas construidas en el marco de la Gran Misión Vivienda, exhibidas como un logro histórico de la revolución, presentan en múltiples casos deficiencias estructurales que las hacen especialmente vulnerables ante eventos sísmicos. Los programas de atención psicológica post-desastre, que en otros países forman parte del protocolo estándar de emergencias, simplemente no existen como política pública en Venezuela. Todo esto tiene nombre en psicoanálisis: trauma secundario. El trauma secundario no lo produce quien golpea primero, sino quien debía proteger y eligió no hacerlo.

La dinámica específica en la respuesta del régimen a los desastres naturales, que resulta particularmente dañina desde el punto de vista psíquico, es la negación pública del daño, el discurso triunfalista sobre la capacidad del gobierno de manejar la emergencia y la criminalización de quienes denuncian la insuficiencia de la respuesta oficial. Esta combinación es una estrategia enloquecedora que sitúa al sujeto damnificado en una posición de doble vínculo. Sufre el daño real, pero el relato oficial le dice que no hay tal daño o que ya fue resuelto. Esa contradicción entre la experiencia vivida y el discurso del poder tiene efectos sobre el psiquismo que van más allá del estrés agudo. Produce una forma de desrealización colectiva, una grieta entre lo que se siente y lo que se puede nombrar. Es lo que en contextos clínicos asociamos con la estructura del trauma, que no puede ser narrado porque no tiene espacio simbólico donde instalarse.

La práctica clínica en estas condiciones exige más que técnica. Exige la capacidad de sostener la escucha en un contexto donde los propios terapeutas forman parte de la población damnificada, donde los recursos institucionales son prácticamente inexistentes y donde el sufrimiento tiene causas estructurales que ninguna intervención individual puede resolver. La experiencia acumulada en psicoanálisis aplicado a situaciones de excepción, desde los trabajos de Bruno Bettelheim hasta las contribuciones más recientes de la clínica del trauma en contextos de violencia política, nos enseña, sin embargo, que incluso en las condiciones más adversas, la palabra sostenida por un Otro que escucha, sin huir, tiene un poder reparador que no debe subestimarse. No porque resuelva lo político. Sino porque permite al sujeto recuperar su posición como alguien que puede hablar, que puede doler, que puede, eventualmente, querer algo más que sobrevivir.

Hay cosas que no caen solas. No se cae sola la vivienda mal construida. No se fragmenta sola la familia que el Estado empobreció hasta la diáspora. No se quiebra sólo el psiquismo del niño al que nadie sostuvo ni del adolescente al que el futuro le fue cancelado antes de poder imaginarlo. Detrás de cada uno de esos colapsos hay decisiones políticas, omisiones calculadas, corrupción sistemática y una voluntad de poder que ha priorizado la permanencia del régimen sobre el bienestar de la población. Nombrarlo no es ideología, es diagnóstico. Y el diagnóstico, cuando es honesto, es también el primer acto de cualquier tratamiento posible.

El dolor se agudiza, mientras tanto. El panorama luce muy desalentador. Pero, mientras tanto también, el venezolano celebra cada sobreviviente rescatado, agradece cada ayuda recibida, de todas partes del mundo, a los socorristas internacionales y a los locales, a los que no desmayan buscando a sus seres queridos entre los escombros, los que dicen  mientras rescatan a una niña ”mi reina, vas a estar bien” o “ qué lindas uñas”. Celebramos la sonrisa de Fabiana, niña rescatada, y a la ya famosa Adriana y a su esposo desesperado, salvándola como puede “coño Adriana, tápate la cara  mi amor, yo sé lo que hago”.

Referencias

Bettelheim, B. (1981). Sobrevivir. Grijalbo.

Erikson, E. H. (1950). Childhood and society. Norton.

Freud, S. (1920/1992). Más allá del principio del placer. Obras Completas, Vol. XVIII. Amorrortu.

Freud, S. (1926/1992). Inhibición, síntoma y angustia. Obras Completas, Vol. XX. Amorrortu.

Kirmayer, L. J. (2007). Failures of imagination: The refugee’s narrative in psychiatry. Anthropology & Medicine, 10(2), 167–185.

Lacan, J. (1964/1987). El Seminario XI: Los cuatro conceptos fundamentales del psicoanálisis. Paidós.

Lacan, J. (1962-1963/2006). El Seminario X: La angustia. Paidós.

OCHA (2023). Venezuela: Informe de situación humanitaria. ONU.

Winnicott, D. W. (1965/1990). El proceso de maduración en el niño. Laia.

Palabras clave: Trauma psíquico, trauma social, terremotos. Catástrofes naturales, dictadura y psicoanálisis

 

Imagem: La sonrisa de Fabiana https://www.instagram.com/p/DaN31RkxQ1-/?igsh=ZjY5bDA0ajlzbXU3

 

Categoría: Politica y Sociedad

 

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Tags: catástrofes naturais | ditadura e psicanálises | terremotos | trauma psíquico | trauma-social
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