
Cadum é cadum
Avelino Neto – SPBsb
Há quem atribua aos gregos antigos a invenção da filosofia. Pode ser. Mas quem ouviu um velho goiano sentado à sombra de uma mangueira sabe que algumas das mais profundas reflexões sobre a condição humana nasceram muito longe de Atenas.
Entre elas, destaca-se um aforismo que atravessa gerações sem jamais envelhecer:
— Cadum é cadum.
A frase costuma surgir quando alguém tenta entender o comportamento alheio.
— Mas como ele pôde fazer isso?
— Uai… cadum é cadum.
Ou quando se busca uma explicação para escolhas aparentemente incompreensíveis.
— Eu, no lugar dele, jamais faria isso.
— Pois é. Mas cadum é cadum.
À primeira vista, parece uma rendição ao mistério. E talvez seja mesmo. Mas não uma rendição ignorante; uma rendição sábia.
Desde cedo os seres humanos tentam enquadrar os outros em categorias. Queremos compreender, prever, explicar. Criamos diagnósticos, teorias psicológicas, sistemas filosóficos, estatísticas e modelos matemáticos. Tudo isso é útil. Tudo isso ilumina aspectos importantes da experiência humana.
Mas chega um momento em que a singularidade reaparece.
Dois irmãos criados na mesma casa tornam-se pessoas completamente diferentes.
Dois pacientes que viveram traumas semelhantes desenvolvem destinos opostos.
Dois amantes recebem a mesma declaração de amor e escutam coisas distintas.
Aí surge, discreta e implacável, a velha sentença goiana:
Cadum é cadum.
Não se trata de negar as influências da história, da cultura ou do inconsciente. Trata-se de reconhecer que nenhuma explicação esgota uma pessoa.
Talvez a psicanálise tenha aprendido algo semelhante. Freud procurou leis gerais do funcionamento psíquico. Klein descreveu posições e fantasias universais. Bion formulou modelos para compreender o pensamento. E, no entanto, cada analista sabe que, ao final de toda teoria, encontra-se alguém que não cabe inteiramente nela.
Cada análise é uma análise.
Cada sonho é um sonho.
Cada sofrimento é um sofrimento.
Cadum é cadum.
Mas existe também uma pequena história.
Conta-se que, certa vez, um viajante chegou a uma cidadezinha do interior de Goiás. Curioso com os costumes locais, passou o dia fazendo perguntas.
Perguntou por que um fazendeiro trabalhava de sol a sol apesar de já ser rico.
— Cadum é cadum.
Perguntou por que um poeta passava as tardes observando nuvens.
— Cadum é cadum.
Perguntou por que uma senhora alimentava diariamente os passarinhos da praça.
— Cadum é cadum.
No final do dia, irritado, exclamou:
— Mas essa resposta não explica nada!
O velho que conversava com ele sorriu.
— Explica mais do que o senhor imagina. O problema é que o senhor quer entender as pessoas sem primeiro aceitar que elas são diferentes do senhor.
O viajante permaneceu em silêncio.
Talvez tenha sido a primeira vez que compreendeu a frase.
Porque “cadum é cadum” não é uma recusa ao conhecimento. É um limite imposto à arrogância do conhecimento.
É o reconhecimento de que todo ser humano possui uma geografia secreta.
Há montanhas que ninguém vê.
Rios subterrâneos que ninguém conhece.
Feridas sem testemunhas.
Sonhos sem tradução.
Histórias que jamais serão contadas por inteiro.
E quando toda explicação termina, quando as teorias se calam e as certezas desistem de si mesmas, permanece apenas a antiga sabedoria goiana:
Cadum é cadum.
E talvez seja justamente por isso que a frase atravessou gerações sem perder sua força. Porque ela nos lembra, ao mesmo tempo, os limites de nosso conhecimento e a infinita singularidade da experiência humana.
Cadum é cadum não é apenas uma constatação; é uma teoria do mundo.
Palavras-chave: Singularidade, Alteridade, Sabedoria popular, Psicanálise, Condição humana
Imagem: Almeida Júnior – Caipira Picando Fumo (Estudo, 1893)
Categoria: Cultura
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