Observatório Psicanalítico OP 680/2026 

 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo

Psicanálise, técnica ou ética?

Maria Eliana de Rezende Barbosa Mello – Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ)

Esse tema me parece ser um dos temas centrais para pensarmos do que se trata a Psicanálise. A maioria dos autores estudados na IPA parte do pressuposto de que a psicanálise é um trabalho de técnica.

Isso, de fato, sempre me espantou, porque, desde Freud, ele é categórico: a psicanálise é como um jogo de xadrez, que se sabe como começa e como termina; porém, o que se dá entre o começo e o final de análise vai depender de cada analisante.

Quando Freud escreveu seus escritos técnicos, tinha como destinatário o jovem psicanalista. Vai abordar pontos cruciais sobre início do tratamento, transferência, repetição. O objetivo não foi ensinar técnica, mas os princípios fundamentais da psicanálise.

Melanie Klein, ou melhor, os kleinianos, a partir do atendimento com crianças, desenvolveram o que se chama de técnica analítica.

A pergunta a que esse trabalho vai responder é que, quando se transforma a psicanálise em uma questão de técnica, há aí uma denegação do que é a psicanálise.

A psicanálise ficou reduzida a “um manual” do que fazer; as interpretações se tornaram genéricas, abolindo o sujeito do discurso, na sua singularidade de sujeito dividido por estrutura.

Com isso, já estamos dizendo que o setting analítico foi reduzido a um jogo de interpretações a priori: o analista sendo o ponto de referência, ou melhor/pior, de autorreferência a qualquer fala do seu analisante: “você está dizendo isso porque eu, o analista, tirei férias, não estive com você no final de semana etc.”.

Isso é Psicanálise ou um jogo de poder da transferência imaginária sobre o analisante?

Lacan, quando vai reler Freud, por conta da banalização que foi feita da teoria freudiana, tematizou o inconsciente estruturado como linguagem — imaginário, simbólico e real — para resgatar o estatuto do inconsciente: ético, político e histórico.

A ética da psicanálise está no discurso do analista e na sua posição de causa do desejo, lugar do objeto pequeno a.

Nesse sentido, Lacan faz uma revirada, que chamou de retorno a Freud: a psicanálise vinha e vem sendo banalizada, tornando-se uma prática da moral e não da ética.

A máxima lacaniana — não recuar frente àquilo que te é mais precioso, ou seja, o seu desejo —, como colocar o desejo sob a égide de uma técnica?

Fazer isso é abolir o lugar desejante do sujeito enquanto único e singular.

Como supervisora, escuto sempre dos meus supervisionandos: qual é a técnica para atender uma criança?

E isso tem vários efeitos na psicanálise com crianças: da técnica para os “técnicos”, que reduziram a criança a um produto para os neuropsicólogos, psiquiatras. A criança hoje carrega várias etiquetas; a da vez é a do autismo. A indústria do autismo! Brincar, se irritar, chorar virou afetos patologizados!

Mais uma vez, a pergunta: o que foi feito com a descoberta freudiana, o inconsciente, a grande ruptura que Freud fez em 1900?

Trabalhar sob a égide de uma técnica é, de fato, forcluir o inconsciente!

O que estou afirmando é que a grande crítica de Lacan ao termo técnica reside em sua apropriação imaginária e normativa, que tende a transformar a psicanálise em uma prática de adaptação, normatização do sujeito à “moral civilizada”. E, com isso, apagar o lugar do desejo e da falta, pilares do tratamento psicanalítico.

Quando estamos falando de ética, estamos dizendo que a interpretação, a transferência e o corte da sessão se inscrevem em uma ética de escutar o analisante em sua pura alteridade e diferença!

A direção da cura não visa a um ideal adaptativo, mas à confrontação do sujeito com a verdade do seu desejo.

No seminário 7, A ética da psicanálise, Lacan afirma que a ética própria da psicanálise não é a ética do bem-estar, da adaptação e da felicidade, mas a ética do desejo. Ou seja, a direção da cura não visa a um ideal normativo, mas, sim, ao encontro do sujeito com a sua própria verdade.

Portanto, essa ética se opõe frontalmente a qualquer concepção técnica que pretenda conduzir o sujeito a um estado ideal previamente definido: por quem?

Em A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958), Lacan formula uma crítica explícita às derivações técnicas da psicanálise pós-freudiana. Denuncia a tendência de reduzir a clínica a regras do manejo técnico.

A direção do tratamento significa que o analista não dirige o sujeito, mas a cura, e essa direção se orienta pela lógica do significante e da transferência. A interpretação é um ato que incide sobre o inconsciente, produzindo efeitos de equívoco e deslocamento.

A crítica ao termo técnica aparece nesse texto de forma bem categórica: quando a psicanálise se deixa capturar por um discurso técnico, corre o risco de perder sua dimensão subversiva, transformando-se em uma prática de psicoterapia do ego.

No seminário 15, O ato analítico, enfatiza que o ato nada tem a ver com a técnica e, sim, com um acontecimento ético que implica a responsabilidade do psicanalista e sua implicação subjetiva.

Portanto, a teoria e a clínica lacanianas fazem uma crítica à formação dos institutos da IPA, que enfatizam o ensinamento de técnicas em detrimento do ponto nodal: a ética do desejo.

Isso tem consequências, onde o que se supõe ser um lugar de formação vai se deformando e deformando a escuta do inconsciente dos novos formandos em psicanálise.

A clínica lacaniana exige do analista a sustentação de uma posição ética: não há garantias senão aquelas que se sustentam na própria experiência analítica.

Para concluir, com a certeza antecipada, a ética em Lacan implica uma responsabilidade radical do analista: o lugar do Outro barrado, recusando-se a ocupar o lugar do mestre.

Palavras-chave: ética, técnica, denegação, a ética do desejo, formação nos institutos da IPA.

Imagem: foto-montagem de Freud e Lacan

Categoria: Instituição Psicanalítica 

Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.

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