Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do mundo
Dentro de nós: o infinito
Rafaela Degani – SBPdePA
Ultimamente ando obcecada com a figura de Alexandre, o Grande, o jovem macedônio que unificou partes da Europa, da África e da Ásia em um só império no século IV a.E.C. Educado desde cedo para a guerra e iniciado nos estudos por ninguém menos que Aristóteles, carregava consigo uma convicção fundadora: acreditava ser descendente de Aquiles, por parte de mãe, e de Hércules, por parte de pai. Essa dupla filiação, entre o humano e o mítico, parece ter moldado não apenas sua ambição, mas a própria forma como se compreendia no mundo.
No entanto, o que mais me impressiona nesse homem que começou a conquistar territórios aos vinte e poucos anos e parecia invencível aos olhos de seus contemporâneos, não são propriamente suas façanhas militares, ainda que essas sejam inegáveis. O que me captura é outra coisa: seu amor pelo conhecimento. Dizem seus biógrafos que Alexandre partia para as batalhas com um exemplar da Ilíada sob o braço. Sua vida era marcada pelos ensinamentos de Homero, pelos mitos, pelos deuses, pelos sinais. Havia nele o que os gregos chamavam de póthos: um desejo ardente, uma ânsia que não se satisfaz. Alexandre queria sempre mais: mais territórios, mais experiências, mais saber. Queria ser o rei do mundo, um herói (semideus) e o depositário de todos os conhecimentos.
Talvez seja nesse ponto que sua figura se aproxima de algo que ultrapassa a história e toca uma dimensão mais íntima. Ao fundar Alexandria, no Egito, e inspirar a criação da Biblioteca de Alexandria, Alexandre parece ter dado forma concreta a esse desejo de totalidade: reunir todos os livros, conter o mundo em palavras, abarcar o infinito. E, no entanto, há algo paradoxal nesse gesto. Pois o mesmo homem que aspirava ao todo não destruía as culturas que encontrava; pelo menos na maioria das vezes, ao contrário, incorporava costumes, misturava povos, imaginava um mundo plural. Talvez tenha intuído, antes de muitos, que a unidade não se constrói pela pureza, mas pela mistura. Há um episódio particularmente notável nesse sentido. Após derrotar Dário III na batalha de Isso, Alexandre encontrou entre os prisioneiros a mãe do rei persa, Sisigâmbis, além de sua esposa e filhas. Em vez de submetê-las à humilhação que tantas guerras impõem aos vencidos, tratou-as com dignidade e respeito. A partir de então, ela passou a chamá-lo de filho, e Alexandre a nomeá-la mãe.
Mais tarde, quando Dário foi assassinado pelos próprios persas durante a fuga, Alexandre teria se indignado menos com o inimigo derrotado do que com a traição. Mandou recolher o corpo, cobri-lo com honras reais e devolvê-lo à mãe para que recebesse um funeral digno, como rei da Pérsia.
Há nessa cena um contraste doloroso com o nosso tempo. Em uma era em que líderes transformam adversários em inimigos absolutos e guerras se alimentam da desumanização do outro, a figura de Alexandre nos confronta com uma forma distinta de poder: a de quem conquista sem abolir inteiramente a dignidade do vencido. Talvez esteja aí uma diferença fundamental entre a força que destrói e a força que, paradoxalmente, incorpora.
É claro que sei que estou correndo o risco de estar romantizando um homem que matou milhares de pessoas, feroz e implacável com os inimigos. Porém, como escrevem Martin e Blackwell (2012): “Alexandre concebia um caráter digno como aquele fundado nos árduos valores de desempenho, honra e lealdade” (p. 8). Era fruto de um tempo e de um lugar. Não podemos julgar um homem que pertenceu à Antiguidade com a moral dos nossos tempos.
Foi Irene Vallejo, escritora espanhola, em seu livro extraordinário O Infinito em um Junco, que me levou até Alexandre. Ao narrar a história dos livros e, em especial, da Biblioteca de Alexandria, Vallejo revela não apenas um projeto civilizatório, mas uma espécie de sonho humano persistente: o de vencer o tempo por meio da escrita. Ler seu livro é perceber que cada página perpassa séculos e que, de algum modo, seguimos habitados por vozes muito anteriores a nós.
“Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca”, escreveu Jorge Luis Borges. Bibliotecas são lugares fascinantes, elas são mais do que um acervo de livros, são territórios de memória, encontro de ideias variadas, histórias, fantasias, tudo coexistindo num mesmo espaço como num sonho.
Encontrei esse mesmo tema sob outra forma ao visitar a exposição “Eu sou o outro do outro”, da artista britânica Es Devlin, que está em curso na Casa Bradesco, em São Paulo. A experiência se inicia em uma sala que remete a uma biblioteca. Ali, ouvimos a própria artista narrar como ela foi se constituindo a partir dos livros que leu, de tudo aquilo que pôde viver sem ter vivido, de como cada palavra lida inaugurou algo nela.
No mesmo final de semana, estive na comemoração dos 14 anos da revista Calibán, que ocorreu no dia 28 de março na SBPSP. Os presentes puderam apreciar uma palestra interessantíssima com o curador de arte e professor da USP Agnaldo Farias, que passeando pelas bienais de São Paulo nos mostrou que arte é mistura, é encontro. Ainda nessa mesma manhã assistimos ao monólogo “Horácio” de Heiner Muller, protagonizado pelo ator Celso Frateschi. Uma peça impactante, em que as contradições humanas ficam explícitas e insuportáveis: o herói e o assassino como dois lados de uma mesma moeda, a destruição e a salvação existindo num mesmo homem. Quantos eus habitam o nosso eu?
Como psicanalista, é inevitável aproximar essa experiência da famosa formulação de Sigmund Freud (1923): “o Ego é um precipitado de catexias abandonadas”. Em outras palavras, somos feitos de restos, de encontros, de identificações, de fantasias, de perdas. Nosso eu não é uma unidade, mas um mosaico. Uma montagem instável de tudo aquilo que vivemos, imaginamos, lemos e esquecemos. Dentro de nós, o infinito.
Sob essa luz, Alexandre ganha uma nova espessura. Forjado nas identificações com deuses e heróis, atravessado por culturas diversas, ele encarna, de forma quase literal, essa ideia de um sujeito composto. Sua grandeza talvez não resida apenas no que conquistou, mas naquilo que foi capaz de incorporar. Há nele algo que ecoa até hoje: a intuição de que somos feitos de muitas vozes, e de tantas heranças.
É por isso que, em tempos como os nossos, marcados por guerras estúpidas, ódios inflados e uma espécie de regressão a formas cada vez mais estreitas de pertencimento, eu retorno aos livros, à arte. Quando tudo parece empurrar para o fechamento, para identidades rígidas e puras (como se isso existisse), para certezas impermeáveis, ler, ver, escutar, viajar torna-se um jeito de renovar a esperança na humanidade.
Dentre as artes, na minha vida, destaca-se a literatura, talvez porque, lendo, posso viver vidas que não sou capaz de viver, ou por vezes encontrar descrito aquilo que em mim ainda não tinha letra. Talvez porque cada livro, a um só tempo, nos desloque e promova um encontro com nós mesmos. Talvez porque cada encontro verdadeiro nos lembre que não somos um, mas muitos.
E talvez porque, no fundo, seja apenas isso que ainda pode nos salvar: a capacidade de nos deixarmos tocar pelo outro.
Referências:
Martin e Blackwell. (2012) Alexandre o Grande. Editora Zahar.
Freud, Sigmund. O Ego e o Id (1923). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
Vallejo, Irene. O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.
Palavras-chave: Eu, outro, Alexandre o grande, biblioteca, arte
Imagem: Banco de dados gratuito: Pexels
Categoria: Cultura
Nota da Curadoria: O Observatório Psicanalítico é um espaço institucional da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), dedicado à escuta da pluralidade e à livre expressão do pensamento de psicanalistas. Ao submeter textos, os autores declaram a originalidade de sua produção, o respeito à legislação vigente e o compromisso com a ética e a civilidade no debate público e científico. Assim, os ensaios são de responsabilidade exclusiva de seus autores, o que não implica endosso ou concordância por parte do OP e da FEBRAPSI.
Os ensaios são postados no Facebook. Clique no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página:
https://www.facebook.com/
No Instagram: @observatorio_psicanalitico
Se você é membro da FEBRAPSI/FEPAL/IPA e se interessa pela articulação da psicanálise com a cultura, inscreva-se no grupo de e-mails do OP para receber nossas publicações. Envie uma mensagem para [email protected]
