Observatório Psicanalítico – OP 415/2023 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo 

Mentes abertas

Cristiane Schlindwein, Giuliana Chiapin, Ian Nathasje, Juliana Lang Lima, Míriam Alves, Rafaela Degani, Vera Viuniski (SBPdePA)

Nos últimos dias, a comunidade psicanalítica se viu no meio de uma polêmica a partir do lançamento de um livro, no qual a psicanálise foi duramente atacada sendo chamada de pseudociência. As reações a essa publicação foram diversas, das mais acaloradas solicitando reação imediata, às mais comedidas sugerindo não oferecer ainda mais visibilidade ao tema.

Sobre as críticas à psicanálise, não pretendemos nos ocupar no momento. Diversos colegas já usaram suas vozes para emitir importantes posicionamentos. Mas um aspecto nos tocou, enquanto grupo que se dedicou, no último semestre, a estudar as questões do feminino, desde Freud até a contemporaneidade: no contexto de respostas aos autores do livro – Natália Pasternak e Carlos Orsi, que formam um casal -, a primeira parece ter sido o alvo de toda ira. Seria isso devido ao fato de ser mulher?

Somos um grupo de psicanalistas em formação pela SBPdePA que, por um semestre, se reuniu sob a coordenação de Juliana Lang Lima para estudar a sexualidade feminina a partir da obra de Freud. Nossas discussões, sempre acaloradas e críticas, uniam um estudo atento das ideias freudianas aos avanços teóricos e à escuta clínica das mulheres na contemporaneidade.

Vários foram os encontros em que o debate apontava para os preconceitos presentes em nossa cultura, em especial no quanto o patriarcado pode intoxicar as interpretações e a própria teoria da psicanálise. Quanto ainda persiste em nós a ideia de uma mulher invejosa, ressentida e inferior por não possuir um pênis? Ainda que a teoria freudiana seja lida e compreendida por seu evidente viés simbólico, não há como negar que ainda hoje acaba sendo fácil desqualificar e atacar uma mulher. De louca a histérica, com linguajar científico ou vulgar, o ataque de gênero está sempre prestes a se manifestar.

Para elencar apenas um dos vários momentos em que uma violência como essa aconteceu, rememoramos um episódio recente na história do Brasil, quando adesivos com a imagem da ex-presidenta Dilma Rousseff, com as pernas abertas, foram colados aos montes em carros no tanque de abastecimento. Tal fato ocorreu em meio a uma insatisfação com a política econômica dos combustíveis, contudo o “protesto” demonstra o quanto o corpo da mulher está sempre disponível para ser atacado a qualquer sinal de desacordo.

Paradoxalmente, fica bastante evidente que os homens atribuem às mulheres um poder assustador. A potência de uma mulher que gesta, trabalha, opina, vive sua sexualidade de forma livre, surge como matéria prima do grande temor masculino. Um solo fértil para florescer um sistema que legitima toda sorte de violência – sistema esse que se estrutura a partir da submissão e do não reconhecimento das potencialidades de uma outra.

Retomando o “Episódio Pasternak”, resta-nos lamentar que, mesmo em nosso meio, uma crítica às ideias da referida autora tenha rapidamente deslizado para uma agressão de gênero. Ficamos todos tão tomados pela ideia de defender a psicanálise que esquecemos de preservar a liberdade feminina e a possibilidade de que, um dia, num tempo vindouro, seus desejos não sejam tão assustadores a ponto de seguir sendo estigmatizados.

Acreditamos que o exercício constante da psicanálise é lidar com o respeito às diferenças. Que possamos seguir na riqueza da diversidade, nos desafiando através das ideias. Que possamos produzir ciência e arte, cada vez mais com peito, pernas e mentes abertas.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)

Categoria: Politica e Sociedade

Palavras-chave: patriarcado, psicanálise, feminino, machismo, sexualidade feminina 

Colega, click no link abaixo para debater o assunto com os leitores da nossa página no facebook:

https://www.facebook.com/100079222464939/posts/pfbid0UQXXsXjrjiRXN9qdoDeYA3uwJ34uJQLotNf2ZCevfnztAT71BaRTcxukGQAAN9uyl/?mibextid=K8Wfd2

Tags: feminino | machismo | Patriarcado | Psicanálise | sexualidade feminina
Share This