Observatório Psicanalítico – OP 308/2022 

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo

Sobre guerras e bonsais 

Lina Schlachter Castro (SPFOR) 

Por um acaso do destino, meus avós e minhas duas tias, ainda crianças, ficaram impossibilitados de voltar ao Brasil após uma viagem de férias para visitar a família na Alemanha. A Segunda Guerra Mundial havia sido anunciada. “Por causa de dez dias, ficamos dez anos lá”, costumava repetir a minha avó, com pesar. 

No dia 24 de fevereiro de 2022, olhar o WhatsApp me despertou memórias. No grupo da IPSO, que participo como representante de minha sociedade, leio uma mensagem de uma colega ucraniana relatando que havia sido acordada ao som de bombas, e que estava buscando contato com seus familiares, amigos e pacientes. Após alguns dias, no mesmo grupo, uma colega russa discorreu sobre bombas simbólicas que haviam sido lançadas em seu povo. Entro em contato com bombas transmitidas a mim, através de meus avós. 

Entre algumas marcas que puderam ser contadas, lembro que uma tia, na época da guerra, costumava colher, faminta, cogumelos em cemitérios para trocá-los com os soldados inimigos por pequenos pedaços de chocolate. O seu ato ingênuo, no entanto, foi fortemente proibido. Meu avô, um homem bastante tranquilo (provavelmente um “pacifista constitucional”, como diria Freud), ao descobrir o que a filha fazia, havia ficado furioso. Qual teria sido o motivo dele de tanto horror?

Recentemente, li a denúncia, realizada pelo presidente ucraniano Zelensky, de centenas de estupros e abusos sexuais ocorridos durante a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Entre as vítimas, estão mulheres, adolescentes, crianças pequenas, e um bebê. Em sua fala, o presidente acrescentou que há um risco crescente de tráfico humano. 

Em “A criação do patriarcado”, Gerda Lerner (2019) conta que esses crimes são comuns desde os tempos mais primitivos. Mulheres e crianças de ambos os sexos são frequentemente usadas como “fantoches para assegurar a paz entre as tribos” (p. 78). A partir do estupro e de uma possível gravidez, mulheres seriam mais facilmente coagidas por uma tribo estranha; e a partir do tráfico humano, crianças cresceriam em uma nova tribo sendo leais a ela. Ampliando, Georges Vigarello (1998), no livro “A história do estupro”, lembra que o estupro em caso de guerra representa, simbolicamente, a posse de um território. 

Freud (1932), em sua famosa carta para Einstein, oferece-nos algumas explicações para a maldição da guerra. Ele descreve que nos tempos mais primitivos, era “a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer a sua vontade” (p. 198). A força muscular, aos poucos, deveria ter sido substituída pela intelectualidade – uma ideia, ele reconhece, que parece estar condenada ao fracasso, diante das guerras que tendem a se repetir ao longo dos anos. Há um desejo de agressão e destruição, inerente ao ser humano, que é contrário ao processo civilizatório. 

Mulheres e crianças, dessa forma, se tornam alvos fáceis para atos perversos ao serem reduzidas a objetos, instrumentos que evidenciam a dominação e a subjugação de um povo. Mulheres e crianças que, em tempos de guerra, passam a ser extraídas e plantadas e podadas em territórios estranhos, por mãos hostis. Assim como bonsais, que, como nos lembra Valter Hugo Mãe, são “árvores que queriam crescer, mas que alguém mutilava para ficarem raquíticas, (…) humilhadas na sua grandeza perdida” (p.19). 

Lembro de meu avô. O seu horror, era a desumanização.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores) 

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